25.11.11

Gastronomika de San Sebastian: tudo o que rolou no fórum gastronômico

Vista do Palacio Kursaal, o centro de convençõees onde aconteceu o Gastronomika,
em dia chuvoso

Ontem encerrou-se o importante fórum Gastronomika e pela imprensa internacional e na internet percebe-se verdadeira avalanche de reportagens e posts em blogs. Esperei até aqui para pronunciar-me mais alongadamente porque, simplesmente, o evento de três dias é tão intenso que toma cada minuto do dia e da noite e às vezes até parte da madrugada. Mal sobra tempo para dormir. Uma hora passada escrevendo significa uma palestra ou desgustação perdida.

Juan Mari Arzak, em primeiro plano, assistindo palestra do Gastón Acurio,
que focou nos diversos ceviches que ele vai encontrando em diferentes lugares
do Peru, e na preservação da biodiversidade marinha.


Em meio a tantas informações (basta dar um Google para ver o quanto já se escreveu), decidi falar um pouco do "lado B" do evento, de seus bastidores.

O "lado A" está fartamente narrado pela blogosfera afora e foi mostrado também ontem no Folha Comida, em texto de Josimar Melo.

Mas voltando ao lado B: o Gastronomika é um evento completamente diferente dependendo do ponto de vista. Para os milhares de bascos que pagam ingresso para passear pelos estandes e assistir palestras, é um passeio e uma oportunidade de dar uma pequena espiada em pratos servidos nos maiores restaurantes do mundo, apresentados pelos próprios chefs que os criaram.

Pratos que a maioria jamais poderá provar, já que comer nos endereços mais premiados do planeta é privilégio para os poucos que a) conseguem reserva e b) podem pagar o preço alto cobrado.

Além dos tantos locais, percebi grandes números de chefs e aspirantes a chef (estudantes de gastronomia). Diria que os profissionais e estudantes, aliás, eram maioria.

Conferência de imprensa na primeira noite do Gastronomika


Eu fazia parte de um terceiro grupo, claro: o dos jornalistas. Se há uma vantagem de fazer parte dessa trupe é a de poder estar em um fórum de tamanho calibre, com o ingresso oferecido pela organização e assento reservado bem pertinho do palco.

O imenso auditório do Kursaal e, em primeiro plano, um patriótico cozinheiro: Brasil-il-il!


Há que se dizer que neste caso, importa muito, porque no Gastronomika, servem amostras dos pratos demonstrados pelos chefs apenas para uma parte da plateia: aquela que está mais próxima do palco, onde sentam-se os chefs e jornalistas.

O chef peruano Gastón Acurio com sua filha na plateia do
Gastronomika, em que servem amostras dos pratos mostrados no palco,
durante palestra de Quique Dacosta


Lá atrás, na parte mais distante do auditório, a experiência ainda é bacana mas, convenhamos, claramente menos rica. Vê-se menos e não se prova nada.


Voltando ao assunto do ritmo ultramegaintenso do fórum, outra coisa que pouco se fala é que os momentos mais incríveis muitas vezes acontecem fora do centro de convenções Kursaal, em jantares fechados para convidados (chefs, jornalistas e articuladores da cena gastronômica). É quando os chefs estão desarmados, bebendo, batendo papo. E quando contam as melhores histórias. E quando revelam-se como são na vida real, longe dos holofotes.

Em um dos jantarzinhos privados, o "Team Brazil" se diverte com os grandes: Heston Blumenthal (careca de óculos), Wylie Dufresne (de laranja), Juan Mari Arzak (camisa azul listrada) e sua filha Elena (em primeiro plano). Atrás do Wanderson Mdeiros (de amarelo), se enxergo bem, está o Andoni Aduriz do Mugaritz.

Sempre há jantares oficiais, organizados pela diretoria do Gastronomika. E jantares paralelos, menorzinhos, orquestrados pelo chef a ou b. Eis outra cena do mesmo jantar mostrado acima, em foto roubada do Twitter da Roberta Sudbrack:



Na primeira noite, os mais importantes chefs bascos - Juan Mari Arzak do Arzak, Martin Berasategui do restaurante homônimo, Andoni Luiz Aduriz do Mugaritz e Pedro Subijana do Akelare, entre outros, fizeram a abertura do evento com uma coletiva de imprensa seguida de um coquetel em torno de estandes de comidinhas.

O chef Juan Mari Arzak, na noite de abertura, com a jornalista Maria Canabal

Os jornalistas Josimar Melo e a correspondente do Correio Braziliense,
e o chef Rodrigo Oliveira, na conferência de imprensa da primeira noite


As comidinhas foram preparadas por vários famosos restaurantes e bares de pintxos da região, como o Ganbara (meu favorito para pintxos no bairro antigo) e Bodegón Alejandro. E patrocinadores, claro.

Fiquei ali um pouco e segui para jantar com três superchefs - Quique Dacosta (Quique Dacosta), Dani Garcia (Calima) e Marcos Moran (Casa Gerardo) - e suas equipes em uma cidreria, coisa que jamais tinha feito. Uma noite incrivelmente divertida, a tal da Sidreria Petritegi.

Dani Garcia, do Calima, e Quique Dacosta, do restaurante homônimo, em Denia, ambos
dois estrelas Michelin, em noite super descontraída
Lugar absolutamente rústico que servia uma comida bem dali, saborosíssima em sua simplicidade. Produto, produto, produto. Delicioso "cogote", ou cangote, de merluza, delicioso chuletón. Só dispensaria a própria sidra.... não é para o meu bico.



Na noite seguinte, muitos chefs e jornalistas jantaram em uma escola de cozinha chamada Aiala, em Zarautz, que é comandada pelo celeb-chef Karlos Arguiñano. Cada prato foi preparado por um diferente chef que a organização queria apresentar como novo talento, como Mikel Gallo (Nineu), Daniel López (Kokotxa), Edorta Lamo (A Fuego Negro), etc.

Um dos jantares em que a organização recebia, na escola de cozinha Aiala.
Eu não fui mas estavam ali muitos jornaistas
brasileiros, por exemplo.  Foto: Reprodução do Diario Vasco

Eu preferi dirigir uma hora até Bilbao (ou melhor dizendo, um subúrbio daquela cidade), para jantar no Azurmendi, o restaurante do jovem Eneko Atxa. Esse chef, de grande talento e ainda maior dedicação, me intrigava, fazia muito que eu vinha estudando sua linha de cozinha, seus pratos.

E tinha muita vontade de experimentar aquela comida. Pois valeu a pena: tive outra noite inesquecível, primeiro visitando a cozinha e o in-crí-vel laboratório de pesquisas, depois degustando bocados altamente imaginativos e poéticos em um espaço imenso, aberto, moderno. Espaço, aliás, que vai mudar já em janeiro - mas isso já é tema para outro post...


O forte do Eneko, penso, é sua profunda ligação com o entorno, que vai muito além do já batido termo farm-to-table, a um nível de "localismo" quase extremo. Se pudesse, Eneko teria colocado uma de suas galinhas ali mesmo sobre minha mesa. Como não dava, fez algo que se aproxima disso: serviu uma gema crua cuja película ele fura ultracuidadosamente com uma seringa para injetar um caldo quente. O caldo "cozinha" parcialmente a gema crua com seu calor.



Só pude chegar ao Azurmendi às 10, provei longo menu degustação, encarei a estrada de novo e fui dormir às 4 - sendo que logo pela manhã o Gastronomika já seguia a pleno vapor. Isso sem falar que aconteciam vários eventos ao mesmo tempo: nem que eu quisesse, não teria como assistir tudo.

Pitu Roca, o sommelier mais carismático que já vi, do El Celler de Can Roca


Eu não poderia, por nada no mundo, perder a degustação de vinhos comandada pelo Josep Roca, do El Celler de Can Roca e, para mim, o mais lírico e sensível sommelier que há. Acabei, por isso, perdendo TODAS as palestras dos chefs mexicanos, que aconteciam naquele mesmo horário no auditório principal. Uma pena, por um lado. Mas por outro, devo dizer que não me arrependo: Josep (ou Pitu, como é mais conhecido), não desapontou, levando a plateia a um estado de assombro emocionado com sua apaixonada apresentação, repleta de ricos vídeos e outras imagens.

Até aqui, contei muito mas não contei quase nada: isso não passa da ponta do iceberg! Terei que fazer posts separados para falar e mostrar vídeos de alguns dos highlights, como a tríade Joan Roca, Andoni Aduriz e Quique Dacosta. Eis aqui um deles, mostrado pelo Quique:





Além de tudo o que rolava no Kursaal, a faculdade de gastronomia Basque Culinary Center, em outro endereço, sediava pequenas aulas de cozinhas com alguns dos chefs palestrantes. Helena Rizzo e Roberta Sudbrack, por exemplo, eram duas das "professoras". Outra coisa que infelizmente tive que perder…

Ah, sim, e havia ainda o que eles chamam de programa "Off": toda uma programação paralela mais focada em degustações e competições (melhor ovo frito, melhor parilla, melhor gim tônica, etc.) Ali discutiram-se temas super interessantes, como o serviço em restaurantes, visto "de fora", e o enoturismo. Premiaram ainda o Juli Soler, sócio do Ferran Adrià no El Bulli, agora rebatizado de El Bulli Foundation.

A jornalista Rosa Rivas, do El País, entrevistando Gastón Acurio


Esperem… tem mais! Em pequenas salas subterrâneas aconteciam debates com alguns top chefs. Um dia, debatiam, em salas vizinhas e infelizmente no mesmo horário, Gastón Acurio e Alex Atala. No dia seguinte, Grant Achatz e Heston Blumenthal. Perdi Atala e Achatz, mas em contrapartida, a meia hora passada assistindo a grande jornalista Rosa Rivas, do jornal El País, entrevistando Gaston  Acurio foi um dos pontos altos da viagem. Que rica troca, que conversa inteligente. A horas tantas, o Claude Troisgros, que assistia de pé, foi "convocado" a entrar na roda, com Rosa perguntando como andava evoluindo a formação de jovens cozinheiros no país.



O debate com Heston foi menos interessante, apenas porque o moderador teve a infeliz ideia de dar a palavra a cada um dos participantes, inclusive uns cozinheiros espanhois que admitiram saber quase nada sobre Blumenthal. A pergunta de um: "poderia nos contar um pouco de sua história, de como e quando começou a cozinhar?".

Céus!

Para isso existe o Google, teria sido bem melhor que um jornalista tarimbado fizesse perguntas mais aprofundadas. De todo modo, Heston encantou a todos com seu charme e bom humor e no final conseguiu ainda contar algumas coisas novas que está desenvolvendo.


As jornalistas Maria Canabal e Rosa Rivas no debate com Heston Blumenthal

Como podem ver, era impossível, portanto, estar em tudo. O que às vezes dava uma certa aflição, do tipo "ai Deus, o que estarei perdendo de bom neste momento enquanto gasto 20 minutos baixando fotos para o laptop?"

Corra, Lola, corra.


Os brasileiros no palco do Gastronomika   Foto: Divulgação
Por isso, e também por achar contra-producente, não farei comparações entre as apresentações dos brasileiros, mexicanos e peruanos. Vi subirem ao palco "os nossos", mas dos outro latino-americanos só vi Gastón Acurio.... Pena.

E por falar em Gastón, ele mais uma vez deu prova de sua generosidade, ao fazer um discurso inclusivo, democrático. Não mostrou nenhum de seus restaurantes. Não falou dele próprio, quase. Sempre nós isso, nós aquilo. Sempre colocando a cara de seu povo na telona do vídeo. Bonito de se ver, mesmo se não houvesse nada ali de inédito para nós brasileiros.

Voltando ao "Team Brazil", de modo geral achei que fomos bem, com destaque para o carisma natural do Rodrigo - sempre solto, brincalhão, desarmando logo o pessoal, e para a bem-armada palestra da Roberta, simples e direta ao ponto, mostrando facetas novas de velhos ingredientes.

Alex também mandou muito bem, com um vídeo forte, Sepultura de trilha sonora, mostrando fragmentos paulistanos e depois o D.O.M. Explicou, através de pratos, sua linha atual, em que menos é mais e o ingrediente vai à mesa quase nu, sem disfarces, casado só com poucos elementos.


Mas deixemos pra lá a minha opininão. Acho que interessa mais, nesse caso, a opinião dos "gringos". Afinal, os brasileiros estavam ali para mostrarem a cara ao mundo de fora, não fizeram palestras dirigidas a gente como eu, que está careca de conhecer o caviar de quiabo da Roberta Sudbrack, a falsa feijoada da Helena Rizzo e a mocofava do Rodrigo Oliveira (aliás, essas três coisas foram apresentadas).

Mocofava com farofinha bem crocante e pimenta biquinho, do Roderigo Oliveira


A cada vez que batia papo com um chef estrangeiro, eu perguntava: "O que achou dos brasileiros?"

"Gostei muito das apresentações deles", disse-me o chef vanguardista Wylie Dufresne, do WD-50, em Nova York. "Achei que passaram a impressão de serem parte de um todo, além de muita simpatia. E mostraram muitos ingredientes que eu não conhecia".

Devo confessar que... no caso da Roberta, até eu aprendi novidade! Imaginem que ela nos serviu uma película crocante de banana que era deliciosamente azedinha, e um pó também da banana que ressaltava, de propósito, o matiz amargo da fruta. Interessantíssimo! Essa mesma pele compõe o prato que ela demonstrou, um curau com pele de banana e "caviar" de tapioca.


Pó de banana e película crocante de banana: dois ingredientes
nada doces - o primeiro amargo, o segundo ácido -
saídos de estudos de Roberta Sudbrack sobre a fruta

A visão do Wylie em particular foi compartida por vários outros chefs com quem conversei. Fomos muito bem, como país, no Gastronomika. Coisa boa!

No terceiro e último dia, eu já com o tanque na reserva, as palestras seguiram-se em ritmo acelerado. Fiz questão de vero Magnus Nilsson, para mim um dos mais originais e revolucionários chefs em atuação hoje, apesar da pouca idade.

Magnus Nilsson mata a ave e mostra o pau


Ele montou uma churrasqueirazinha improvisada, com duas pilhas de tijolos unidas por uma grelha metálica sobre brasas. Ali o seu assistente assou um pássaro da terra deles, uma espécie de grouse, enquanto Magnus procurou resumir, rapidamente e com a ajuda de imagens, seu radical estilo de cozinha, por um lado extremamente rústico-natural, por outro, extremamente cuidadoso e técnico.

Eu compararia a cozinha dele ao "bed hair" - o cabelo cuidadosamente desleixado - que já esteve muito na moda. Parece que a pessoa saiu da cama daquele jeito, bem básico, mas na verdade rolou muito trabalho de bastidores para chegar naquele look falso-natural-e-básico.




(Quem tiver interesse em entender melhor o trabalho dele, que me fascina, pode ler mais e até assistir um filme que eu fiz no ano passado, em queele mesmo ia me explicando alguns de seus pratos, enquanto mostrava fotos em seu laptop. Aqui o link).

Aí subiu ao palco um francês que achei interessante porém seco, entediante: Alexandre Gauthier. Pulo esse. Eis o prato que ele fez, o mesmo apresentado no recentíssimo evento Cook it Raw no Japão (o prato me dá mais vontade de pegar do que a comida em si, essas lâminas de nabo enroladas em cone têm, segundo ele mesmo dizia, boa dose de amargor. O galho de pinheiro chamuscado é para dar aromas de bosque...):



Melhor contar da ma-ra-vi-lho-sa e altamente divertida palestra do Heston Blumenthal que trouxe o auditório abaixo. S.H.O.W.

Ele mostrou um filme animado com cara de ter custado anos de trabalho e meio milhão de euros, mas que valeu cada centavo e noite passada na frente do computador. Neste link, eu mostro tudo, inclusive o vídeo.


Heston demonstrando um de seus doces: coco que imita tabaco

E, pra encerrar, tivemos o mais contido Grant Achatz, do Alinea, em Chicago, sobre o qual também já escrevi tanto aqui no Boa Vida que reluto em repetir todos os motivos pelo qual o admiro. Ele e seu braço direito Matt fizeram uma palestra forte, direta, inspirada, mostrando os atuais rumos que toma o iconoclasta restaurante. Primeiro, mostrou um "prato" que não poderia estar mais distante daquilo que entendemos como "prato". Pequenos bocados servidos sobre garfos e colheres que os garçons vão dispondo sobre a mesa nua, diante do cliente, desordenadamente, para ele ir decidindo como e quanto comer, tornando-se, assim, participante na experiência final.

Grant Achatz mostrando sua sobremesa lúdica e iconoclasta inspirada em piñata mexicana

Grant encerrou com o impressionante doce de chocolate inspirado em uma piñata mexicana (aquele boneco de papelão, oco, em que enfiam-se doces e balas para depois estourar com bastões). No caso da versão do Alinea, trata-se de um globo de chocolate que o garçom deixa cair, literalmente, sobre a mesa, revelando mil e uma gostosuras contidas em seu interior, com sabores inspirados pelo outono americano (pensem em abóbora, canela, apple pie, etc.).

The End.

Quer dizer... The End coisa nenhuma. Na saída trombei com minha amiga Annie Sibonney, que apresenta programas gastronômicos na televisão (é dela, por exemplo, a série From Spain, With Love).

Christian Escribà e Carles Abellan andando pela velha San Sebastian


Ela  me chamou pra me juntar ao grupinho dela e comer uns pintxos no ótimo Gandarias.

E quem estava no grupinho? O superchef Carles Abellan (que tem cara de galã de cinema), do Tapaç24 e Commerç24 de Barcelona. E mais o casal que mais tem dado o que falar na alta gastronomia: o genial pâtissier catalão Christian Escribà e sua mulher e braço-direito, Patrícia Schmidt. Siiiiiimmmm, aquela que vocês já conhecem, super boleira brasileira que agora casou-se com ele e virou sua parceira de casa e de trabalho. Prá lá de simpática. E me mostraram, no iPhone, alguns bolos incríveis que fizeram juntos.

Os "boleiros" Patrícia Schmidt e Christian Escribà, eu, Annie Sibonney e Carles Abellan

Curti mais aquele momento do que a própria apresentação deles, que por causa das chatinhas moças da organização, não pude assistir direito (me faltavam óculos para ver o filme em 3D, e sem o meu passaporte não me entregavam os óculos!).

Thomas Troisgros, Roberta Sudbrack e Wanderson Medeiros do Picui, prontos para ver a
palestra-com-filme-3D do casal Escribà-Schmidt


Esse mesmo casal foi quem fez o bolo-gigante-em-forma-de-bulli para o jantar de encerramento do El Bulli (O Buldogue) em julho passado, sobre o qual eu escrevi um longo post, com vídeo.... aqui o link.

O filme 3D pelo visto emplacou: foram parar na capa do jornal local.



Enfim, um chuletón e dois Riojas mais tarde fui dormir zonza e feliz, consciente da grande sorte que tenho de viver esta minha vida e de ter podido testemunhar os momentos históricos que viveram nossos chefs brasileiros sendo destacados e festejados em território tão sacro para todo cozinheiro e comilão.

Aos poucos, e sem ajuda governamental, o Brasil vai se inserindo nas altas rodas gastronômicas lá fora. Disso, bem falou o Alex Atala em entrevista publicada no Diario Vasco:





Que venham muitos outros momentos assim, e que os olhos abram-se mais, tanto lá quanto cá, para o universo alheio.





E mais Gastronomika e San Sebastian no Boa Vida:

Atala, Sudbrack, Helena, Rodrigo, Primeiro dia do Gastronomika 2011: fotos dos brasileiros


Gastronomika 2011 na Folha de São Paulo: minha coluna no caderno Comida


Gastronomika 2011: vídeo da incrível apresentação de Heston Blumenthal


Almoço no restaurante Akelarè com o chef Daniel Boulud - com vídeo

Um jantar inesquecível no Arzak... com o Arzak!

Minha lista dos melhores restaurantes de San Sebastian e arredores: Bernardina, Etxebarri, Elkano, etc.

Jantar com Anthony Bourdain, Dave Chang et. al no Elkano: os melhores peixes e frutos do mar na grelha que já provei - com vídeo

O restaurante Mugaritz, do chef Andoni Aduriz: único

Abertura do Gastronomika 2010: noitada no Museo del Whisky

Palestra de Ferran Adrià no Gastronomika 2010: vídeo mostrando pratos do El Bulli

Gastronomika 2010: programa completo inclui grandes nomes como Adrià, Andoni, Arzak, Anthony Bourdain e Daniel Boulud 

Chef Josean Martínez-Alija do restaurante do Guggenheim Bilbao anuncia novo - e revolucionário! - restaurante para o início de 2011

Uma semana em San Sebastian para o Gastronomika: as lições que aprendi
e os gim tônicas que bebi

Resumo (em espanhol) do Gastronomika 2010 pelo crítico Carlos Maribona  


Roberta, Alex e Helena. Emoção pós-palestras.


Guia Michelin Espanha 2012: celebra Madri, resignam-se Andoni, Quique e Dani Garcia


Semana passada falei aqui do lançamento do Guia Michelin italiano, edição 2012, que causou enorme bafafá por causa da ascensão de Massimo Bottura ao Olimpo dos tri-estrelados. E agora é hora de passar à Espanha, que reclamou mais do que celebrou ontem à noite, quando as estrelas novas foram anunciadas em noite de gala em Barcelona.

Como já se sabia há tempos nas altas rodas gastronômicas (a informação que vazou confirmou-se como certa), continuarão a ter que brigar pelas três estrelas os chefs que muitos acreditam merecê-las há muito: Andoni Luis Aduriz (Mugaritz), Quique Dacosta (Quique Dacosta) e Dani Garcia (Calima). Assim como aconteceu com o El Celler de Can Roca, que teve que "pastar" anos e anos até senhor Michelin dignar-se a constatar o óbvio, os três restaurantes vão amargar mais um pouco na lista de espera.
Reprodução: El País


Como a má notícia não era nenhuma surpresa para os chefs, eles estavam zen. Ou, como diz hoje a crítica Rosa Rivas em sua ótima matéria no El País (cliquem nela para verem em tamanho maior), "Horas antes do evento estelar, os máximos candidatos aos três brilhos (…) navegavam entre a resignação e à alegria tranquila, algo assim como a paciência inteligente que os budistas recomendam".

O subtítulo já dizia tudo: "Mais um ano e o Guia Michelin resiste a acrescentar restaurantes à lista dos distinguidos com três [estrelas]"

O guia não gosta quando jornalistas focam a conversa nos três estrelas, vivem insistindo que se fale dos bib gourmands, dos um estrelas. Bah.

Dignas de nota são os muitos restaurantes madrilenhos com duas estrelas, entre eles os recém-premiados Diverxo e Club Allard. Achei uma injustiça que o Arrop, em Valência, não ascendesse a essa categoria: meu recente jantar ali foi melhor do que muitos dois ou até três estrelas!

E aos que entendem espanhol, recomendo vivamente a leitura do post do crítico Carlos Maribona sobre o tema. Ao contrário de muitos de seus conterrâneos, tomados pelo furor patriótico, que vêm maldizendo o guia francês pela internet afora, Maribona faz uma análise pausada, pensada, equilibrada. Aqui o link.

E basta de tanto papo de Michelin, concordam? Aqui, um resuminho dos estrelados, com uma grande falha/omissão (Quique Dacosta, que tem duas), em imagem reproduzida do jornal basco El Correo.
(basta clicar para ver em tamanho maior).


22.11.11

Gastronomika 2011 em San Sebastian: polaroids do primeiro dia de fórum

Brasileiros no Gastronomika    Foto: Divulgação

Quem me segue lá no Twitter já sabe que estou aqui em San Sebastian, no País Basco, a mil por hora, acompanhando uma tonelada de palestras de chefs importantes. Não vou voltar a explicar do que se trata esse fórum Gastronomika, para não chover no molhado... aqui neste link, meus posts que dão todos os detalhes.

Passei aqui, voando, entre uma palestra e outra, só para fazer um postzinho-momento-Caras. Não terei tempo para contar o que vi e ouvi, por enquanto, já que a correria é grande. Mas, para resumir o primeiro dia, rolou o seguinte: brasileiros subiram ao palco, um de cada vez (o Claude Troisgros não é bem brasileiro, mas de certa forma é sim, concordam?)

Helena Rizzo estava nervosíssima e notava-se. Rodrigo Oliveira do Mocotó abriu os trabalhos mandando cachacinhas para o povo da plateia e explicou suas origens e filosofias através do torresmo, e da mocofava. Alex Atala arrasou ao ilustrar, de forma sucinta e potente, sua atual vertente "roots", em que menos é mais (it's the ingredient, stupid!). Roberta Sudbrack explicou seu famoso caviar de quiabo, e sua cozinha farm-to-table em que o fogo tem muito valor; equipamentos preferidos por chefs vanguardistas, pouco ou nenhum.

Para esta brasileira, foi bonito ver o "team Brazil" na ribalta, e interagindo com grandes chefs internacionais. 

À tarde apresentaram-se três megaestrelas da cena gastronômica espanhola: Quique Dacosta do restaurante homônimo, Andoni Aduriz do Mugaritz e - dando um SHOW - Joan Roca do El Celler de Can Roca. Matou a pau, o Joan, depois mostro aqui uns vídeos que fiz da palestra, a melhor do dia.


E com isso, vamos ao que interessa: fotos!
Chefs Claude Troisgros, Quique Dacosta, Thomas Troisgros


Chefs Roberta Sudbrack, Alex Atala, Claude Troisgros, Helena Rizzo,
nos bastidores do palco logo depois da palestra do Alex

Emoção pós-palestras: brasileiros unidos


Helena e Roberta

Roberta e Claude

Alex dando à chef Carme Ruscalleda sorvete de bacuri para provar

Primeira fila de ouro na palestra do Alex: Raul e Carme Ruscalleda,
Andoni Aduriz, Joxe Mari Aizega, o diretor do Basque Culinary Center,
Pedro Subijana do Akelare,
Juan Mari Arzak fofocando com sua filha Elena, Martin Berasategui

17.11.11

Piazza Duomo, Combal.Zero... pelos restaurantes do Piemonte com Bob Noto


Estávamos ano passado eu e Bob Noto, italiano de Turim, almoçando no Esca, em Nova York.

A horas tantas, o garçom veio perguntar o que queríamos de sobremesa. “Um crudo de vieiras”, respondeu ele, impávido. Dei risada mas não me espantei: Bob tinha provado as vieiras fresquíssimas que eu tinha pedido de entrada. Por que haveria ele de pedir torta ou musse quando podia mandar bala em um prato daquelas vieiras deslumbrantes, quase doces, com um nadinha do melhor azeite e flocos de flor de sal?  Para esse excêntrico designer gráfico, autor de livros e fotógrafo, o importante, acima de tudo, é comer bem. Largamente desconhecido no Brasil, trata-se de um personagem com status de grande guru, praticamente cultuado pelos maiores  chefs e restaurateurs da Europa.

“Não existe outra pessoa no mundo que conheça o El Bulli melhor do que o Bob”, me contou, um tempo depois, o chef Ferran Adrià. “Ele comeu aqui mais vezes do que qualquer outro cliente, e entende a nossa cozinha tanto quanto nós mesmos”. Experimentou mais de 1,300 pratos do famoso restaurante catalão, todos catalogados e anotados em seus arquivos pessoais.



Em conversas com outros chefs de renome – Alex Atala e Massimo Bottura da Osteria Francescana, por exemplo – eu sempre ouvia a mesma história: “il Bob” é o supra-sumo do comilão itinerante. 

Pois Bob Noto me convidou para passar uns dias em Turim indo com ele nos seus restaurantes favoritos. Preciso dizer que nem pensei duas vezes?

Comer fora com o Bob é uma experiência incrível, e nós concordamos em muitas de nossas opiniões - embora nem sempre. Adorei seguir o roteiro dele, mas por outro lado tive muita pena de ter apenas 4 dias, e portanto não poder ir a lugares recomendados por outros comilões de primeira, como o Deco Lima, sócio do Botagallo e dos outros negócios dos "meninos do Pirajá". Pena mesmo.

Por essas e outras, meu roteiro foi super focado naquilo que o Bob considera top. E só.

Com mais calma, pretendo ir postando longos relatos dos jantares mais impactantes, mas por enquanto, acho que seria útil dividir com vocês minhas impressões gerais de cada lugar onde fomos... Lá vai. E, claro, como muitos de vocês já foram ao Piemonte bem mais do que eu, não se achanhem: deixem seus comentários!


Bob Noto no Piazza Duomo, em Alba


Piazza Duomo
Chef Enrico Crippa
vicolo dell'Arco 1 - Alba
Tel +39 0173366167
E-mail info@piazzaduomoalba.it
Para mim, o melhor de todos os que provei. Grande domínio técnico em pratos de beleza marcante e estilo inconfundível. Profundo conhecimento dos vegetais e seus diferentes estágios de maturação. Um fio condutor nítido de cabo a rabo do (longuíssimo, no nosso caso!!) menu. Criatividade máxima pero sin perder la gostosura. Charmoso salão rosa em plena pracinha central de Alba. 
Michelin: 2 estrelas





Combal.Zero
Chef Davide Scabin
Piazza Mafalda di Savoia 1 - Rivoli
Tel +39 011 956 5225
E-mail combal.zero@combal.org
Beleza não é fundamental, em se tratando de restaurantes, mas que ajuda a dar o tom a chegada dramática ao castelo-museu onde fica o Combal.Zero, ajuda. LINDO! O salão, todo envidraçado, tira proveito da vista de babar. O menu que provei me surpreendeu. Achei que seria tudo ultra moderno e não era. Vinha uma coisa super louca - o famoso Cyber Egg, um ovo envolto em bolha de filme plástico servido com bisturi, por exemplo - e na sequência, um duo de lasanhas em prato de cerâmica pintadinha. Fiquei perplexa. Comemos muito bem.
Michelin: 2 estrelas



Casa Vicina

Casa Vicina
Chef Claudio Vicina Mazzaretto
via Nizza 224 - Torino
Tel +39 0111 950 6840
E-mail casavicina@libero.it
A maior surpresa da viagem. Uma grande pena estar escondido em um frio porão da megaloja gourmet Eataly - a matriz daquela Eataly de Nova York que tanto faz sucesso. Achei a Eataly-matriz feiosa e o restaurante... muito mal-aproveitado! Injustiça esconderem ali, em salão pouco acolhedor decorado com fotos de icebergs, um chef tão talentoso. Se não fosse a insistência do Bob eu jamais teria escolhido almoçar lá. Este é o tipo de restaurante que agrada a gregos e troianos. Elegante, fino, atual, mas com dois pés fincados no classicismo piemontês - aqui não tem avantgardismo, só mesmo cozinha típica super bem-executada e servida pela famiglia.
Michelin: 1 estrela



 
Vintage 1997
piazza Solferino 16/h I - 10121 Torino
Tel +39 011535948
E-mail info@vintage1997.com
Restaurante fino bem à moda antiga, no melhor sentido do termo. A-mei. Velhos salões de pé-direito duplo e paredes e carpete vermelhos, flores, telas nas parede, cadeiras estofadas s e toalhas de mesa que vão até o chão. Grandíssimo maître-faz-tudo, daqueles de antigamente, que adivinham o que você quer antes que você abra a boca. Trufas, Barolos, pastas impecáveis e um prato de crudi de chorar por mais.




San Tommaso 10
Um dia fui almoçar em um mezzo-café-mezzo-restaurante bem antiguinho, que foi onde tudo começou para a Lavazza, megamarca local. Queria me preparar mentalmente para entrevistar o Giuseppe Lavazza (no final, foi fácil!) e queria ver os cafés doidos assinados pelo Ferran Adrià, garoto propaganda da Lavazza... isso me levou até lá, confesso. No fim, o café "sólido" que você pode virar de ponta-cabeça by Ferran não tem nada demais - pelo contrário -, mas a comida estava ótima. Bem típica dali, e bem-feitinha. Não se trata de um lugar que merite um grande desvio, mas "a nível de" Turim ao meio-dia, apesar do website cafona, faz bonito.
rua San Tommaso, 10, tel. +39 011 549 304

Ah, e teve ainda a pizzaria favoritíssima do Bob Noto, bem simplinha mas maravilhosa. Esta, vou guardar para contar só na GQ... :)

E outros favoritos do Bob que tiveram que ficar para uma próxima ida ao Piemonte:

Antica Corona Reale - Da Renzo
Chef Giampiero Vivalda
via Fossano 13 - Cervere
Tel 0172474132
E-mail anticacoronareale@gosystem.it
sem website
Essa construção antiga de tijolos abriga salas elegantes. A cozinha se trasmite de geração em geração e atinge, hoje, seu apogeu: inspiração piemontesa, peixes, criatividade.
Michelin: 2 estrelas



Guido

Guido
Chef Ugo Alciati
via Fossano 19 - 12060 Pollenzo
Tel 0172458422
E-mail info@guidoristorante.it
Em um complexo neo-gótico, um interior mesclando tijolos e madeira e móveis modernos. Cozinha tradicional do Langue.
Michelin: 1 estrela

E mais Piemonte: dicas (meio desatualizadas) do Edu Luz, do chef Carlos Bertolazzi (do Zena Caffé) e dos restaurateurs italianófilos Edgard Costa e Deco Lima. 

E mais Bob Noto:

Bob Noto na revista Apicius 

O vídeo do Bob que explica, poeticamente, o cyber egg do Davide Scabin:





Slideshow postado no L'Espresso italiano com fotos dele da viagem à Lapônia onde eu o conheci.
 
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