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17.11.11

Piazza Duomo, Combal.Zero... pelos restaurantes do Piemonte com Bob Noto


Estávamos ano passado eu e Bob Noto, italiano de Turim, almoçando no Esca, em Nova York.

A horas tantas, o garçom veio perguntar o que queríamos de sobremesa. “Um crudo de vieiras”, respondeu ele, impávido. Dei risada mas não me espantei: Bob tinha provado as vieiras fresquíssimas que eu tinha pedido de entrada. Por que haveria ele de pedir torta ou musse quando podia mandar bala em um prato daquelas vieiras deslumbrantes, quase doces, com um nadinha do melhor azeite e flocos de flor de sal?  Para esse excêntrico designer gráfico, autor de livros e fotógrafo, o importante, acima de tudo, é comer bem. Largamente desconhecido no Brasil, trata-se de um personagem com status de grande guru, praticamente cultuado pelos maiores  chefs e restaurateurs da Europa.

“Não existe outra pessoa no mundo que conheça o El Bulli melhor do que o Bob”, me contou, um tempo depois, o chef Ferran Adrià. “Ele comeu aqui mais vezes do que qualquer outro cliente, e entende a nossa cozinha tanto quanto nós mesmos”. Experimentou mais de 1,300 pratos do famoso restaurante catalão, todos catalogados e anotados em seus arquivos pessoais.



Em conversas com outros chefs de renome – Alex Atala e Massimo Bottura da Osteria Francescana, por exemplo – eu sempre ouvia a mesma história: “il Bob” é o supra-sumo do comilão itinerante. 

Pois Bob Noto me convidou para passar uns dias em Turim indo com ele nos seus restaurantes favoritos. Preciso dizer que nem pensei duas vezes?

Comer fora com o Bob é uma experiência incrível, e nós concordamos em muitas de nossas opiniões - embora nem sempre. Adorei seguir o roteiro dele, mas por outro lado tive muita pena de ter apenas 4 dias, e portanto não poder ir a lugares recomendados por outros comilões de primeira, como o Deco Lima, sócio do Botagallo e dos outros negócios dos "meninos do Pirajá". Pena mesmo.

Por essas e outras, meu roteiro foi super focado naquilo que o Bob considera top. E só.

Com mais calma, pretendo ir postando longos relatos dos jantares mais impactantes, mas por enquanto, acho que seria útil dividir com vocês minhas impressões gerais de cada lugar onde fomos... Lá vai. E, claro, como muitos de vocês já foram ao Piemonte bem mais do que eu, não se achanhem: deixem seus comentários!


Bob Noto no Piazza Duomo, em Alba


Piazza Duomo
Chef Enrico Crippa
vicolo dell'Arco 1 - Alba
Tel +39 0173366167
E-mail info@piazzaduomoalba.it
Para mim, o melhor de todos os que provei. Grande domínio técnico em pratos de beleza marcante e estilo inconfundível. Profundo conhecimento dos vegetais e seus diferentes estágios de maturação. Um fio condutor nítido de cabo a rabo do (longuíssimo, no nosso caso!!) menu. Criatividade máxima pero sin perder la gostosura. Charmoso salão rosa em plena pracinha central de Alba. 
Michelin: 2 estrelas





Combal.Zero
Chef Davide Scabin
Piazza Mafalda di Savoia 1 - Rivoli
Tel +39 011 956 5225
E-mail combal.zero@combal.org
Beleza não é fundamental, em se tratando de restaurantes, mas que ajuda a dar o tom a chegada dramática ao castelo-museu onde fica o Combal.Zero, ajuda. LINDO! O salão, todo envidraçado, tira proveito da vista de babar. O menu que provei me surpreendeu. Achei que seria tudo ultra moderno e não era. Vinha uma coisa super louca - o famoso Cyber Egg, um ovo envolto em bolha de filme plástico servido com bisturi, por exemplo - e na sequência, um duo de lasanhas em prato de cerâmica pintadinha. Fiquei perplexa. Comemos muito bem.
Michelin: 2 estrelas



Casa Vicina

Casa Vicina
Chef Claudio Vicina Mazzaretto
via Nizza 224 - Torino
Tel +39 0111 950 6840
E-mail casavicina@libero.it
A maior surpresa da viagem. Uma grande pena estar escondido em um frio porão da megaloja gourmet Eataly - a matriz daquela Eataly de Nova York que tanto faz sucesso. Achei a Eataly-matriz feiosa e o restaurante... muito mal-aproveitado! Injustiça esconderem ali, em salão pouco acolhedor decorado com fotos de icebergs, um chef tão talentoso. Se não fosse a insistência do Bob eu jamais teria escolhido almoçar lá. Este é o tipo de restaurante que agrada a gregos e troianos. Elegante, fino, atual, mas com dois pés fincados no classicismo piemontês - aqui não tem avantgardismo, só mesmo cozinha típica super bem-executada e servida pela famiglia.
Michelin: 1 estrela



 
Vintage 1997
piazza Solferino 16/h I - 10121 Torino
Tel +39 011535948
E-mail info@vintage1997.com
Restaurante fino bem à moda antiga, no melhor sentido do termo. A-mei. Velhos salões de pé-direito duplo e paredes e carpete vermelhos, flores, telas nas parede, cadeiras estofadas s e toalhas de mesa que vão até o chão. Grandíssimo maître-faz-tudo, daqueles de antigamente, que adivinham o que você quer antes que você abra a boca. Trufas, Barolos, pastas impecáveis e um prato de crudi de chorar por mais.




San Tommaso 10
Um dia fui almoçar em um mezzo-café-mezzo-restaurante bem antiguinho, que foi onde tudo começou para a Lavazza, megamarca local. Queria me preparar mentalmente para entrevistar o Giuseppe Lavazza (no final, foi fácil!) e queria ver os cafés doidos assinados pelo Ferran Adrià, garoto propaganda da Lavazza... isso me levou até lá, confesso. No fim, o café "sólido" que você pode virar de ponta-cabeça by Ferran não tem nada demais - pelo contrário -, mas a comida estava ótima. Bem típica dali, e bem-feitinha. Não se trata de um lugar que merite um grande desvio, mas "a nível de" Turim ao meio-dia, apesar do website cafona, faz bonito.
rua San Tommaso, 10, tel. +39 011 549 304

Ah, e teve ainda a pizzaria favoritíssima do Bob Noto, bem simplinha mas maravilhosa. Esta, vou guardar para contar só na GQ... :)

E outros favoritos do Bob que tiveram que ficar para uma próxima ida ao Piemonte:

Antica Corona Reale - Da Renzo
Chef Giampiero Vivalda
via Fossano 13 - Cervere
Tel 0172474132
E-mail anticacoronareale@gosystem.it
sem website
Essa construção antiga de tijolos abriga salas elegantes. A cozinha se trasmite de geração em geração e atinge, hoje, seu apogeu: inspiração piemontesa, peixes, criatividade.
Michelin: 2 estrelas



Guido

Guido
Chef Ugo Alciati
via Fossano 19 - 12060 Pollenzo
Tel 0172458422
E-mail info@guidoristorante.it
Em um complexo neo-gótico, um interior mesclando tijolos e madeira e móveis modernos. Cozinha tradicional do Langue.
Michelin: 1 estrela

E mais Piemonte: dicas (meio desatualizadas) do Edu Luz, do chef Carlos Bertolazzi (do Zena Caffé) e dos restaurateurs italianófilos Edgard Costa e Deco Lima. 

E mais Bob Noto:

Bob Noto na revista Apicius 

O vídeo do Bob que explica, poeticamente, o cyber egg do Davide Scabin:





Slideshow postado no L'Espresso italiano com fotos dele da viagem à Lapônia onde eu o conheci.
 

16.11.11

Osteria Francescana de Massimo Bottura ganha 3a estrela - e jantamos lá agorinha!



O chef Massimo Bottura acaba de conseguir o que ele mais queria: a tão almejada terceira estrela Michelin (a edição 2012 foi lançada hoje).

Pois o timing não poderia ser melhor: hoje estreia aqui no Boa Vida como colaboradora uma cozinheira e foodie de mão cheia, Mariana Marshall Parra, que acaba de jantar lá e nos conta tudo!

Estive com Mariana agorinha lá em Turim e quando ela me contou que iria na semana seguinte à Osteria Francescana eu imediatamente pensei em pedir que ela dividisse a experiência dela aqui. Dito e feito - espero que gostem. E Mariana... seja bem-vinda!


Menu Classici da Osteria Francescana – uma ode às musas de Massimo Bottura, por Mariana Marshall Parra

    Osteria Francescana        Foto:Divulgação

Costumo vasculhar todo tipo de informação sobre os chefs em cujos restaurantes eu programo visitar. Não por ser uma versão gastro de groupies e tietes, mas por buscar entender ao máximo aquilo que me será servido: o propósito da ordem de pratos; o significado de cada ingrediente; referências levadas em conta na criação dos menus...

Em se tratando de Massimo Bottura, é evidente que a reputação precedeu – em muito – o amuse bouche. Há mais de um bom par de anos que a Osteria Francescana, em Modena, figurava em minha lista de coisas a comer antes de morrer. Duas estrelas Michelin*, 4° restaurante do mundo na lista The World's 50 Best Restaurants e um chef com raízes profundas fincadas na região da Emilia Romagna - mas também asas que ignoram solenemente qualquer tipo de fronteira.

O que eu não sabia ainda era que a mulher do chef (Lara Gilmore, uma novaiorquina formada em história da arte) era peça fundamental nas criações de Bottura. Isso explica muito sobre a maestria de Bottura em unir a influência de uma das culinárias mais tradicionais da Itália à inspiração artística quase que onipresente nos pratos da Osteria Francescana.

O dedo de Lara se faz muito presente na ambientação do restaurante, que por fora não passa de  uma fachada discreta cravada no centro histórico da belíssima Modena. No interior, muito branco e cinza. Uma pequena biblioteca, poucas mesas, e a combinação de obras de arte, objetos de design e iluminação deixando claro que a comida ali provoca muito além de prazer e eventuais memórias gustativas. É também meditação.**


O primeiro prato, Ricordo di panino alla mortadella, brinca com o costume emiliano de abrirem-se as refeições com gnocco fritto e mortadella. Sai a pasta frita, entra uma espécie de foccaccia crocante, e no lugar da fatia de embutido, uma leve e aerada espuma de mortadela. Pó de pistache e creme de alho completam o canapé, e a adaptação de sabores comuns a texturas inesperadas dá o tom do jantar que começa a se desenrolar.


Croccantino di foie    Foto:Divulgação

Quem nunca salivou lendo em revistas de gastronomia sobre o Croccantino di foie all'Aceto Balsamico (um picolé de foie gras, em tradução livre e grosseira)? Prová-lo foi como encontrar pessoalmente aquela celebridade deslumbrante das telas de cinema e constatar que a desgraçada é ainda melhor ao vivo. A crosta uniforme são avelãs e amêndoas tostadas. No interior, mousse de foie gras com textura rica e cremosa, como um bom gelatto. Escondido lá no meio, um núcleo precioso na forma de uma gota de Aceto Balsamico stravecchio. Doce, espesso e suficientemente marcante para interagir com os outros sabores, como só 30 anos de batteria podem permitir. (Batteria é o nome dado ao conjunto de barricas onde o Balsamico envelhece segundo métodos ancestrais.)

Palmas para a divertida ironia de servir ingredientes altamente sofisticados em uma versão tão lúdica!



O Tortino di porri, scalogno di Romania, tartufo di Bologna e sale di Cervia foi o prato menos expressivo da noite. Uma pasta longamente cozinhada de alhos porrós e echalotes, trufas bolognesas e um sal célebre das cercanias. Bom, mas nada de espetacular. E se havia alguma mensagem implícita, não fui perspicaz o bastante para captar. Talvez tenha me perdido com a quantidade de locais citados no título. Forse...


    Cinque Stagionature di Parmigiano Reggiano             Foto:Divulgação


Cinque Stagionature di Parmigiano Reggiano
Uma obra de arte minimalista. Um ingrediente, cinco texturas e uma apresentação que parece poesia. Apoiando-se nas diferenças operadas pelo envelhecimento no Parmigiano, Bottura apresenta o mais jovem, de 18 meses, como creme leve, na base do prato. O de 24 meses vem em forma de demi-soufflée, o de 30 é uma espuma, 36 uma gallette. O mais ancião, com 50 meses de idade, é quase etéreo: uma espuma que está mais para ar, de leveza que contrasta com o sabor pungente fruto da maturação avançada. Surpreende descobrir que a técnica base para essa espuma é das tradições mais simbólicas da Emilia Romagna: a Maltagliata di croste di Parmigiano. Consiste em ferver a camada externa do queijo, dura e seca, obtendo-se um caldo rico em sabor (umami, principalmente). Assim, nada é jogado fora, e mesmo na falta de carne, o brodo não perde a graça. Truques da singela cozinha camponesa de outrora sendo homenageados em um prato que mais parece um quadro. Eu vejo uma imagem marinha, a gallette como coral, banhada por espuma do mar e avizinhada por uma concha. E você?

Compressione di pasta e fagioli

Pasta e fagioli (ou massa com feijão) é um prato comum em toda a Itália. As receitas variam um pouco de região para região, mas é basicamente isso: um comfort food nacional. Sensacional como Bottura transformou um símbolo de cozinha singela em uma miríade de sabores e texturas. Mais sensacional ainda como funciona bem! O copinho que se vê acima vem com instruções: cada colherada deve ser levada até o fundo, trazendo de volta um pouco de cada uma das camadas. Na base, um velouté de vitela, seguido por radicchio salteado em vinho (acidez e amargor necessários em meio aos demais ingredientes). Em seguida, mais uma vez a Maltagliata di croste di Parmigiano. Aqui, a crosta foi fervida no caldo de feijão, sendo depois ralada e unida a pancetta. O feijão em questão vai por cima, na forma de puré aveludado. No topo do bicchierino, uma espuma levíssima batizada de acqua di rosmarino faz as vezes do alecrim que costuma aparecer na receita tradicional. Como a erva tem folhas duras e sabor pronunciado, a acqua traz sutileza na textura e apenas uma nota aromática.


O Ravioli di cotechino al Lambrusco e lenticchie brinca com a própria singeleza. Cotechino é um salame cozido. Gordo, até pele do porco leva. Costuma ser servido com lentilhas e harmonizado com Lambrusco, o vinho símbolo da Emilia Romagna. Depois de uma refeição nestes moldes, a siesta é obrigação! Bem, não na versão Francescana, na qual pedacinhos de cotechino são cozidos no vapor de Lambrusco, unidos a poucos grãos de lentilha e transformados em recheio de massa (as masas recheadas são outro clássico regional). Delicado como eu nunca pensei que um prato com estes ingredientes poderia ser.


Costola di maiale nero all'Aceto Balsamico, purea di patate e topinambour
Uma costela de respeito, glaceada por Balsamico e com a carne se desprendendo dos ossos. Dois purês, um de batatas, outro de Jerusalem artichokes (ou topinambo, como a Wikipedia acaba de me informar), e basta. Para quê mais? O grand finale do menu salgado é um manifesto: apóia-se em dois elementos da sagrada trindade emiliana (que além de porco e Balsamico, inclui o Parmigiano), sem arroubos técnicos ou ingredientes inusitados. É o que é, e está ótimo assim. A cena final diz tudo: ossos limpos e talheres cruzados sobre os pratos vazios. Existe sinal mais primitivo e eloquente de satisfação absoluta?


Depois de tanto porco, Parmigiano e pratos conceituais, a sobremesa traz refresco em todos os sentidos. Seguindo um pré-dessert  de gelato de leite de cabra com coulis de pêssego sobre biscoito de ervas e iogurte, vêm à mesa pâte sucrée, gelato de capim limão e zabaglione, mais uma gota de calda concentrada de menta. Detalhe: tanto prato como sobremesa vêm em cacos, como se a coisa toda tivesse sido lançada contra a parede.


Eu costumo esperar dois tipos de sobremesa: em restaurantes vanguardistas, uma cornucópia de elementos que no mais das vezes é excessiva. Parece que o chef pâtissier fica ressentido por ter menos pratos do que a cozinha salgada e resolve usar todas as técnicas que conhece em uma ou duas sobremesas, deixando o pobre comensal tonto e confuso. As boas casas tradicionais, por sua vez, apostam em uma receita só, executada e apresentada à perfeição. (Eu sei, é uma generalização, mas neste caso sou definitivamente old school, e quando gosto de um doce, quero mais do que uma colherada ou gota.) Pois aqui não é uma coisa, nem a outra: sim, temos uma tartelette com gelato e zabaglione, três clássicos, classicamente combinados. Mas temos também um prato espatifado. Não é genial?

Bottura tem o dom de misturar seu amor desmesurado pela Emilia Romagna à sua sensibilidade artística e capacidade técnica. Na cozinha da Osteria Francescana vêem-se as influências de Ducasse e Adrià, de quem o chef foi discípulo, mas vê-se muito mais do que isso. Massimo Bottura é dotado de talento, inteligência, senso de humor e humildade.


O resultado? Bem, além dos prêmios e reputação gozada pelo restaurante no mundo inteiro, eu não vejo a hora de voltar a Modena para provar o Menu Sensazioni.


**A colaboração do casal Bottura/Gilmore pode ser vista no curta Il Retorno, filme lindo e tocante sobre a Emilia Romagna e sua influência na cozinha da Osteria Francescana.




E a seguir, a quem interessar possa, os novos estrelados do novo Michelin Italia 2012:

29.10.11

Comendo em Turim e Valência: a coluna do Comida desta semana


Chuva de trufas sobre o estupendo talharim servido
no restaurante Vintage, em Turim


Ando sumida, eu sei, e peço desculpas. Mas não tem sido fácil a) achar conexão à web que preste pelos vilarejos do Piemonte e b) descolar algumas horas para blogar entre um banquete e outro.

Estou comendo pela Europa, em itinerário pouco convencional. Resolvi casar, na mesma viagem, Piemonte e Valência (além da pequenina Denia, mais ao sul, onde fica o restaurante do Quique Dacosta).

Logo mais começarei a contar das comilanças. Por enquanto, divido aqui minha coluna desta quinta-feira no caderno COMIDA da Folha:

Sou uma 'gastrovictim'



Sou dessas loucas obcecadas, que cruza oceanos para passar cinco horas sentada comendo

ESTOU DE partida ao Piemonte. Para quê? Comer e beber, claro: é época de trufas brancas, especialidade local. Pouco sei sobre a história de Turim, mas pesquisei longamente os restaurantes da cidade e arredores. Almoços e jantares estão marcados: quatro dias de comilança me esperam. Dali, pegarei horas de trem até Denia, ao sul de Valência, para provar o menu-degustação de um dos maiores chefs do mundo, Quique Dacosta. Conto as horas.
Sou dessas loucas obcecadas, do tipo que cruza oceanos para passar até cinco horas sentada comendo -e ainda acha bom. Mas que ninguém pense que só jornalistas cometem tais exageros. Parece crescer o número de gente que viaja expressamente para comer. Vários paulistanos vão ao Piemonte anualmente, como peregrinos a Meca.
Certo produtor de TV viajou a Chicago, onde achou que encontraria o nirvana gastronômico. Depois de uma noite "inesquecível" no Next, do chef Grant Achatz, escreveu-me emocionado agradecendo a dica. Há ainda o A., que de tanto ir ao Noma, em Copenhague, ficou amigo do chef René Redzepi e engatou namoro com a chef-patissière!
Se turistas normais orientam-se usando o "Lonely Planet", "gastrovictims" consultam o guia "Michelin". Parte da graça está em discordar de cotações e estrelas com conhecimento de causa. Em comum, têm o fervor dos devotos, que não se abala pelas refeições intermináveis ou eventual indigestão.
Quiçá o mais extremo "gastrovictim" que já vi, um certo "Cesare Goloso", de São Paulo, acaba de voltar de maratona gourmet com paradas nas melhores mesas da Europa: El Celler de Can Roca, Dos Cielos, Arzak e Quique Dacosta (duas vezes!), na Espanha; Gambero Rosso e Piazza Duomo, na Itália, entre muitos mais. Atacou a missão como guerreiro: antes da viagem, comeu regradamente e passou uns dias no spa "fazendo uma reserva negativa". Trocou e-mails com restaurantes, anotando as reservas no itinerário-tabela. Quando lhe perguntavam se tinha alguma alergia alimentar, respondia: "só à comida ruim".

ALEXANDRA FORBES, jornalista gastronômica e foodtrotter, conta de suas andanças e comilanças também no Twitter (@aleforbes)

30.9.10

Mario Batali no Olimpo: 4 estrelas no N.Y. Times e primeiro Identità Golose NY no Eately



Em Nova York esta semana não se fala em outra coisa senão as quatro estrelas dadas pelo jornal The New York Times ao restaurante Del Posto, no Meatpacking District, do celebrity-chef Mario Batali. Não há glória maior para um chef nas Américas: a cotação máxima no Times equivale a receber a terceira estrela Michelin para um europeu.

Em seu Twitter, o chef exclamou: “Holy shitaly!!! We just got 4 stars from the NY Times for del Posto!! First Italian restaurant in 36 yrs to get 4”.

Nova York, cidade onde todo mundo se acha um capacitado crítico de restaurantes, não perdoa os verdadeiros críticos de restaurantes. Falem mal ou falem bem, eles estão quase sempre "equivocados".

Em sites e fóruns online centenas de pessoas expressaram reações que vão do choque ao desapontamento, da surpresa à revolta. Afinal de contas, são pouquíssimos os restaurantes dignos das tão almejadas quatro estrelas, e querer inserir mais um nesse Olimpo é cutucar vespeiro.

Houve muita gente clamando pela volta do Frank Bruni, antecessor do Sam Sifton nessa importante função no jornal. O próprio Bruni, entretanto, alistou-se no time dos que aprovaram a “promoção” do Del Posto. Ele declarou à revista New York que “Sam é um analista de restaurantes dos mais conhecedores, balanceados, apaixonados e entendidos, e provavelmente já comeu duas mais vezes no Del Posto do que qualquer outra pessoa no último ano. Não há uma razão no mundo para questionar suas quatro estrelas. Eu não questiono. Estou empolgado pelo restaurante e pelo Sam.”

Estive lá uma vez apenas mas a-do-rei e sempre recomendei a amigos - agora, está mais do que na hora de voltar. E sugiro que, a partir de agora, quem quiser ir lá experimentar lembre-se de ligar com muita antecedência!

Del Posto: 85 Tenth Ave., tel. (212) 497-8090, www.delposto.com


Crítica do Del Posto no The New York Times, por Sam Sifton, na íntegra.


BUT WAIT! Tenho outra novidade boa do Batali.....

Sabem o que vai rolar em outubro no Eataly, o mega mercado gourmet com forte sotaque italiano que ele acabou de abrir em Nova York? O primeiro Identità Golose em solo americano.

Estive há pouco em um super evento de chefs, o Cook it Raw!, onde conheci o jornalista e crítico gastronômico italiano Paolo Marchi. Ele fundou esse fórum de gastronomia chamado Identità Golose que,  embora tenha originado em Milão, está se expandindo rapidamente e agora em outubro chega a Nova York.

Marchi me contou um pouco do programa em primeira mão, que nem sequer está no site deles ainda. O Identità NY irá de 12 a 14 de outubro, e a julgar pelo prestígio que goza a versão milanesa, tenho certeza que os ingressos sumirão rapidamente... por isso, quem planejar estar em Nova York e quiser ir deve reservar o quanto antes...

Estarão lá, cozinhando, alguns dos maiores chefs da Itália. Vejam só o line-up:

Família Alciate, verdadeira lenda piemontesa. Guido, o patriarca, tem o famoso restaurante Guido da Costigliole. Ugo toca o Guido a Pollenzo, perto de Bra. Mas há vários outros membros da família envolvidos, em maior ou menor grau, nesses dois restaurantes e em outros negócios de boa mesa e bom vinho no Piemonte. Estarão em Nova York falando do assunto que dominam como ninguém: agnolotti.

Massimo Bottura preparando línguas
de rena sous vide na Lapônia


Massimo Bottura, o gênio criativo por trás da Osteria Francescana, em Modena, número 6 do mundo na lista do World’s 50 Best Restaurants.
www.osteriafrancescana.it

Davide Scabin, Combal.zero, em Turim, no Piemonte, duas estrelas Michelin
www.combal.org

Davide Scabin na Lapônia
 

Moreno Cedroni, do Madonnina del Pescatore, na região do Marche
www.morenocedroni.it 

Pino Cuttaia
La Madia, na Sicília, duas estrelas Michelin
www.ristorantelamadia.it

 Eately: 200, Quinta Avenida, tel. (646) 398-5102, http://www.newyork.eataly.it/

23.8.10

Castadiva: novo resort em Como de alto luxo com megaspa e piscina flutuante




O lago de Como, no noroeste da Itália, tem como âncora o vilarejo de Como (melhor lugar do mundo para comprar gravatas!) e reúne ao seu redor casas deslumbrantes que exalam “old money”. Ao invés de mansões à moda dos novos-ricos, avista-se do lago muitos palacetes em tons desbotados de amarelo ouro e rosa claro, entremeados por escadarias de pedra e jardins minuciosamente cuidados. O único hotel conhecido mundialmente é o famoso Villa d’Este, que mantém a pompa e os rococós do passado. Trata-se, em suma, de um lugar de férias bastante elegante, onde pouco mudou nos últimos séculos.





Daí minha surpresa ao descobrir que acabam de inaugurar um “resort” chamado CastaDiva (nas fotos acima), na margem leste do lago, em um palacete do século totalmente reformado. O Castadiva tem um dos terraços mais românticos que eu já vi, onde hóspedes podem jantar debruçados sobre o lago, enquanto o salão principal do restaurante, o L’Orangerie, ocupa um jardim de inverno inteiramente envidraçado.






As suítes ficam espalhadas pela vasta propriedade, em diferentes “villas” (casas de hóspedes), enquanto o spa é do tipo arrasa-quarteirão: imenso hamman revestido de mosaico de pastilhas, imensa sauna, duchas multicoloridas e salas e mais salas de massagens e tratamentos corporais.



CastaDiva Resort: Via Caronti 69, Blevio, Lago di Como tel. 39 031 3251 1, www.castadivaresort.com
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