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10.2.12

Chef José Andrés, do Bazaar e Minibar: o meu favorito nos Estados Unidos

chef José Andrés  Foto: Divulgação


Esses dias minha amiga Mariella me perguntou de chefs americanos. Falamos um pouco daqueles de sempre: Keller, Achatz, Chang.

Mas a verdade verdadeira é que para mim, na hora de comer muitíssimo bem, eu penso de cara no José Andrés. Esse americano de adoção, que fala um inglês com sotaque espanhol fortíssimo, é, acima de tudo, um showman que adora aparecer e fazer TV. Mas Deusdocéu, como cozinha este homem!
 
Mesmo tendo chegado nos States como imigrante, ele miraculosamente construiu brilhante carreira sem ser descoberto pelo resto do mundo – até há pouco.

Eu nunca entendi muito bem porque o nome dele não tinha “caído” no mainstream, já que para mim Andrés é simplesmente o chef mais talentoso trabalhando hoje nos Estados Unidos. O mini restaurante que o alçou à fama, o Minibar, é exatamente o que o nome indica: um mini bar com seis banquetas.



Atrás do balcão, dois chef passam três horas cortando, injetando, misturando, esquentando. E a cada cinco minutos, pumba! Depositam um pratinho na frente de cada cliente. Tudo muito estranho, no bom sentido, e o mais importante: delicioso. Já experimentei muitos menus degustação, mas poucos assim, com 26 coisinhas diferentes, todas de comer de joelhos – talvez meu melhor jantar EVER nos Estados Unidos!

Quando estive lá o Minibar ocupava um cantinho no segundo andar de um outro restaurante, bem maior, chamado Café Atlantico,  um esquema meio esquisito, pra ser sincera. Mas embora se escondesse dentro de outro restaurante, e não fosse super conhecido, fazia um sucesso tremendo entre foodies. Com razão: era uma experiência tão incrível quanto um jantar no famoso El Bulli do chef Ferran Adrià, na Espanha, mas custava bem menos e era mais acessível pra quem mora nos Estados Unidos.

America Eats Tavern, em foto tirada do site do José Andrés


Sobre o Café Atlantico: ele hoje virou outra coisa, mais interessante. Em 2010 e 2011 Andrés mergulhou em estudos sobre o que comiam os americanos em décadas passadas. A instituição National Archives o nomeou “chief culinary advisor” da mostra “What’s Cooking, Uncle Sam”, que analisa hábitos alimentares ao longo da história dos Estados Unidos. Retribuiu o gesto abrindo dia 4 de julho de 2011 um restaurante pop-up no espaço antes ocupado pelo Café Atlantico, que durará mais algum tempinho e revisita pratos americanos de diferentes eras, chamado America Eats Tavern
 
 
É no mínimo curioso ver um chef espanhol alinhado com a vanguarda de Ferran Adrià do hoje fechado El Bulli (seu mentor) recriando ostras Rockefeller, sopa New England Clam Chowder e outras receitas típicas de sua terra adotiva...


Voltando ao Minibar, quando fiz a reserva lá, muitos achavam que eu tinha enlouquecido. Minha única noite livre em Washington, e eu tinha escolhido jantar sozinha em um balcãozinho sei-lá-qual?! Pois sim.

Meu banquete solitário começou com uma “caipirinha nitro” servida em taça de martini e soltando fumaça, e terminou com uma bala de açafrão cujo papel era comestível. Comi como uma rainha. Meu prato favorito? Um tal de “zuchini em texturas”, uma espécie de sopinha de sementes de abobrinha estranhamente deliciosa (o chef contou que eles tiram as sementinhas a mão, uma por uma). Estive no Minibar há um bom tempo, mas mesmo assim acho que as fotos ainda são fieis ao que ele é capaz de fazer.... Vejam:




Macarron de bolo de cenoura, no alto, e chocolate aerado

Desde esse jantar, Andrés expandiu para Los Angeles. Foi convidado a abrir um restaurante no badalado hotel SLS de Sammy Nazarian. Nazarian é dono e C.E.O. do grupo SBE, abreviação de “Sammy Boy Entertainment”, que engloba vários hotéis e restaurantes hypados nas duas costas dos Estados Unidos. Para decorar o SLS ele escalou o celeb-designer Philippe Starck e o resultado ficou uma coisa assim.... starckiana, bem doida.

 Andrés abriou no SLS o restaurante The Bazaar, que simplesmente revolucionou a cena gastronômica de L.A. (só pra provocar, uma cidade que sempre esteve para Nova York como Rio para São Paulo, em termos de gastronomia). Vejam o que escrevi sobre isso na revista WISH (clicando nas imagens elas aparecem full size e dá pra ler direitinho): 



Em poucos meses, o Bazaar recebeu cotação máxima de quatro estrelas do jornal The Los Angeles Times e foi aclamado o melhor da cidade (cliquem aqui para ler a crítica na íntegra).

No Bazaar servem algumas das especialidades de Andrés, como o algodão doce com foie gras no miolo, “caipirinha” sólida, feita com nitrogênio líquido, e bala embrulhada em papel comestível. O mais divertido:  o restaurante é um dois em um. No Rojo, o menu tem tapas tradicionais. No Blanco, o menu solta as rédeas e viaja longe (que tal uma colherada de “azeitona líquida”?). No bar Centro, escuro e sedutor, circula um carrinho de caviar. E por todo lado, bizarrices saídas da fértil imaginação de Starck, como uma poltrona de pelúcia rosa-vovó e candelabros deliberadamente desengonçados e tortos dão ao lugar um ar lúdico, meio Alice no País das Maravilhas. Imperdível.



South La Cienega Boulevard, 465, Los Angeles, tel. (1-310) 246-5555

Tamanho foi o sucesso do Bazaar que pouco depois de inaugurado elegeram o chef Man of the Year na revista GQ. E o Bazaar foi escolhido o Restaurant of the Year pela Esquire. E Andrés eleito o chef do ano de 2011 pela fundação James Beard. UFA!

Andrés, hoje muito mais famoso e fortalecido do que quando jantei no Minibar, abriu até dois restaurantes em Las Vegas. O primeiro é uma filial do Jaleo, restaurante informal de tapas espanholas que Andrés abriu em Washington em 1993.

O segundo restaurante, o China Poblano, serve cozinha inventiva. Segundo o press release, o menu faz uma releitura “andresiana” das cozinhas chinesa e mexicana. Hãn? Ambos fazem parte do novo hotel e cassino The Cosmopolitan of Las Vegas (2.995 quartos, três piscinas, duas torres de 50 andares!)

Enfim, Mari, aqui tens: José Andres is the man!



E mais José Andrés:

Restaurante Bazaar no You Tube
José Andrés no programa 60 Minutes

30.11.10

Chicago agora tem Guia Michelin: Alinea de Grant Achatz leva 3 estrelas

Chef Grant Achatz recebendo o prêmio de melhor
restaurante das Américas para seu Alinea no
World's 50 Best em Londres

Para mim, um dos chefs mais geniais das Américas é Grant Achatz. Seu  restaurante Alinea, em Chicago (na foto abaixo), é atualmente cotado como número 1 dos Estados Unidos e sétimo no mundo segundo o prêmio World's 50 Best.



E agora, o guia Michelin assina embaixo. Acaba de ser lançado o primeiro Michelin de Chicago, à venda desde 18 de novembro.



E quem vocês acham que levou três estrelas? Achatz, claro. E também o L2O, um super restaurante de peixes.



O L20 (tel. (1-773) 868-000, www.l2orestaurant.com), do chef Laurent Gras, que tem no currículo passagem pelos restaurantes de grandes nomes, como Guy Savoy, Alain Ducasse e Alain Senderens. De forte influência japonesa, o L20 é forte em peixes preparados de modo nada convencional: ouriço do mar com grapefruit, tamboril sobre merengue de tomate e daí por diante. Há tempo recebe elogios rasgados da crítica especializada. O décor tem grande impacto: colunas de ébano, cabos de aço fazendo as vezes de divisórias, cadeiras de couro branco, tudo forma um conjunto moderno-chique. Pena: dizem que o chef Gras está com um pé na porta de saída.....

Aqui, a lista completa dos restaurantes estrelados de Chicago (quem não deve ter gostado nada é Charlie Trotter, que já foi, um dia, rei daquela cidade e hoje está cotado abaixo do Alinea, com duas estrelas):






E aqui, uma entrevista de rádio com o chef Grant Achatz, em inglês, meio superficial mas.... informativa. Pra quem nunca ouviu o chef falando.... 

21.11.10

Os melhores restaurantes de Chicago segundo o chef Grant Achatz



Saiu ótima matéria no Washington Street Journal com dicas de Chicago por gente que entende do riscado. Logo vão tirar a matéria do ar, já que o conteúdo é só pra assinantes, então é agora ou nunca! Aqui, o link.

Reproduzo, a seguir, as dicas do chef Grant Achatz, do Alinea:

Peixes e frutos do mar: Kith & Kin, em Lincoln Park.
1119 W. Webster Ave., knkchicago.com
 
Pra jantar tarde: The Drawing Room, um lounge de coquetéis subterrâneo, aberto até 4 da madruga. 937 North Rush St., thedrchicago.com

Loja de vinhos: Perman Wine Selections.
802 W. Washington Blvd., permanwine.com

Restaurante tailandês: TAC Quick Thai Kitchen.
3930 N. Sheridan Rd., tacquick.net

Menu-degustação com trilha sonora: Schwa, em Wicker Park, um "foodie gem"
1466 N. Ashland Ave., schwarestaurant.com


Não sabem quem é o Grant Achatz? Eu explico....

Quatro anos atrás eu fui pra Chicago só pra comer no Alinea, o restaurante dele. Peguei avião, táxi, o escambau, dormi, acordei, andei pelas ruas, jantei, dormi e fui embora. Loucura, eu sei, mas eu tinha que ver porque diabos o tal Grant Achatz tinha sido chamado de melhor chef dos Estados Unidos pela Ruth Reichl, editora da Gourmet.

Fui. Gostei. Mas… sei lá, achei tudo um pouco esquisito demais.

Era noite de domingo de um novembro especialmente frio. Casa cheia. Sentei-me, tomei o primeiro gole de meu champanhe rosé e logo surgiu sobre minha mesa uma tigelinha de cera contendo creme frio de batatas. Pequeninos cubos de manteiga, batata e queijo parmesão e uma fina fatia de trufa pendiam sobre a sopa, espetados numa varetinha pontuda que atravessava a cera. “Puxe a vareta, deixe que os ingredientes caiam na sopa e beba tudo de uma vez, como se fosse uma ostra gigante”, disse o garçom.

Obedeci.

A batata, quente e macia, fazia derretar na boca a manteiga e o parmesão, realçava a trufa e constrastava com a sopa fria. Delícia. Esse foi o primeiro de uma sucessão de 19 incríveis bocados que degustei naquela noite, uma sinfonia de pingos e cubinhos coloridos, aromas evocando bosques e outono, molhos com textura de gel, folhinhas e surpresas sem fim.


O restaurante se esconde atrás de fachada modesta, cinza e sem adorno nem placa, num bairro residencial de Chicago. O corredor de entrada, ladeado por parede com escamas terminando numa escultura que se move e soa como uma fonte, parece anunciar o lema “bem-vindo ao inesperado”.

As mesas largas de mogno, os sofás de veludo, as taças Spiegelau, os impecáveis garçons e sommelier vestidos por Ermenegildo Zegna, tudo exala um refinamento austero.



Mas o que faz o Alinea lotar toda noite é a comida, que tem elementos em comum com o avantgardismo à la Ferran Adrià, mas estilo e brilho próprios. Hoje considerado por muitos o maior restaurante das Américas, sua excelência deve-se ao talento e à disciplina ferrenha de Grant Achatz, 36 anos, o menino-prodígio que virou a haute cuisine americana de pernas para o ar.


Achatz é o Ferran Adrià dos Estados Unidos: o mais bem-sucedido e admirado chef americano alinhado com a chamada cozinha hipermoderna (o novo nome dado à gastronomia molecular).

Assim como Adrià, com quem estagiou durante uma semana, Achatz cozinha carnes em sacos plásticos selados a vácuo em baixas temperaturas, prefere a indução a fogões a gás, encapsula líquidos no miolo de delicadíssimos “raviólis” sem massa e busca sempre novas técnicas, novas texturas para ingredientes conhecidos, novos modos de apresentar comida ao cliente. Um de seus trunfos foi ter inventado a “anti-grelha” em parceria com uma indústria de equipamentos de laboratório. A engenhoca congela superfícies com a mesma rapidez com que uma grelha sela carnes, o que permite obter comidas com consistência dupla: geladas e quebradiças por fora e melosas ou cremosas por dentro.

Se hoje chefs como Charlie Trotter e Thomas Keller têm anti-grelhas em suas cozinhas, é graças a Achatz.


Ao formar-se pelo Culinary Institute of America, em 1996, Achatz mandou seu (curto) currículo e carta pedindo emprego para os melhores chefs dos Estados Unidos, inclusive o grande Thomas Keller. Ninguém respondeu. Obstinado, teimou e continuou mandando cartas e emails para Keller até que finalmente conseguiu um posto em seu restaurante The French Laundry, no vale do Napa, um dos melhores do país. Meros dois anos mais tarde, foi promovido a sous-chef.

Daí a virar o chef número 1 das Américas, foram anos de labuta, mas esse menino nunca teve medo de trabalhar duro. O que explica boa parte do seu sucesso....

Para dar uma ideia do que serve Grant Achatz em seu famoso Alinea, eis uma descrição rápida de alguns pratos do meu jantar de quatro anos atrás (confesso que gosto mais do chef e sua história do que de sua comida, preciso voltar lá....).




Bolota de creme de abacate, pudinzinho sedoso de coco salpicado com flocos de bonito desidratado, espuma de pepino, ovas de truta. Posso falar? Ruim. Estranho. Fortes sabores que brigavam entre si.




Pedaço quadrado de peixe (medai) com um palitinho de rabanete e coentro, de tão pequeno, nem se sentia o gosto. Vinha com um leite de semente de papoula que… posso falar? Era ruim.




Edamame sobre um creme bem grosso de cogumelos. O prato levava também manga, preparada como um pacotinho dentro do qual havia amendoim. Fatias de cogumelo matsutake desidratado coroavam o todo. Também estranho, mas gostoso. Estranhamente gostoso. Faz sentido?







Essa é o truffle explosion, prato que fez o chef famoso. Infelizmente, o meu veio morno. Tratava-se de um envelope de interior líquido com forte sabor trufado. Uma fatia de trufa, outra de parmesão e uma folha rugosa e caramelizada de alface traziam ainda mais complexidade ao conjunto. Delícia!




Uva congelada. Não vou entrar em papo técnico pra explicar como ele faz isso em sua “anti-grelha”, que dá choque gelado ao invés de esquentar os alimentos, mas basta dizer que o retangulinho era pura uva, gelada e cremosa. Bem interessante.




Rocambole de marmelo e prosciuto servido num utensílio que o chef chama de antena porque parece… uma antena. A pessoa tem que aproximar a boca da comida e dar o bote, sem a ajuda de garfo ou faca. Era bem bom.




Outra brincadeira surreal. Um travesseirinho translúcido de abacaxi. Pó de bacon. Pimenta preta. Dissolvia-se ao encostar na língua. Intrigante.

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