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5.10.11

Chef Jefferson Rueda estagia no El Celler de Can Roca, no. 2 do mundo



O "Cesare Goloso", leitor do Boa Vida, está fazendo um tour gourmand pela Espanha ma-ta-dor, com paradas nas melhores mesas. Dos Cielos, dos gêmeos Torres. Quique Dacosta. E muitos mais.

Ele me mandou uma foto tirada este fim de semana no El Celler de Can Roca, o restaurante que eu mais amo no mundo. À esquerda, o caçula dos Roca, o Jordi, super pastelero. E à direita... Jeferson Rueda! Ora, ora.... isso que é surpresa, nosso simpático e  talentoso "chef caipira" tomando forte dose de vanguarda catalã. Adorei.

E vocês sabem porque ele está lá, né? Vem novidade boa pela frente....O Marcelo Fernandes, dono do Kinoshita e do Clos de Tapas, vai abrir um restaurante em parceria com ele.

31.5.11

A última ceia no El Bulli: detalhes e impressões dos pratos



Os frequentes relatos que escrevo aqui, mostrando prato a prato o que estava bom ou nem tanto nos restaurantes que visito, servem não só para guiar as escolhas de vocês, leitores, quando forem viajar, mas servem para mim também. São como uma segunda visita ao restaurante, me forçam a repensar cada gosto, procurar temas recorrentes, entender o porquê disto ou daquilo.

Mas um post prato-a-prato do meu último jantar no El Bulli me pareceria bobagem, porque a) ninguém poderá experimentar nada parecido e b) leitor nenhum aguentaria ler minhas impressões de um menu de QUARENTA E SETE serviços!

Ao mesmo tempo, sinto um ímpeto incontrolável de mostrar, dividir, deixar anotada, aqui, para eternidade, a genialidade que testemunhei naquele 19 de maio.

Comer no El Bulli nunca é fácil: há aspectos que encantam, outros que desagradam, agridem, intimidam. Talvez o modo mais simples de pintar um retrato do meu jantar seja, portanto, listar os altos e baixos que mais me marcaram:

BAIXOS

1- Na chegada, os clientes são educadamente forçados a passarem pela cozinha para cumprimentarem Ferran e tirarem fotos (assim ele evita que queiram falar com ele na saída). Detesto. Morro de vergonha de fazer esse papelão de turista, fico lá de pé, sem jeito, com 20 e tantos cozinheiros observando.

2- Ferran tem fixação por determinados ingredientes e texturas. Atualmente, anda fazendo muitas coisas leitosas, espumosas. Tenho um pouco de aflição do gosto de leite quando não é nem doce nem salgado, principalmente se tépido, confesso. Uma coisinha branca com cara de macarron, por exemplo, era na verdade uma maria-mole bem mole e aerada, com farelos gelados de parmesão por cima.



Outra coisa espumosa e leitosa que  não consegui comer? O "tiramisù", acompanhado de um caldo morno que tinha gosto de água suja. Blergh! Já tinha provado isso em setembro passado, e já tinha desgostado...



3- Em teoria, eu como de tudo - faz parte do meu trabalho. Mas há coisas que, se puder, eu dispenso. Como os percebes, aqueles moluscos que parecem um dedão de pedreiro que levou uma martelada (só uma vez na vida achei verdadeiramente bons, e isso foi graças à grelha mágica do Etxebarri). Estes do El Bulli vinham com caviar por cima e, dentro da casca de um deles, adivinhem caldo do quê?



Tampouco curto sabores marcadamente florais (como aqueles crème brulées de lavanda que têm gosto de sachê). Por isso achei pouca graça nas pétalas de rosas servidas de amuse bouche, sob polpa de maracujá. De tão frágeis e molengas, nos deram pinças ao invés de talheres. Na boca, ao serem mastigadas, um pálido amargor dominava.



ALTOS

1- Por avantgardista que seja a comida, o que nunca se diz é que no El Bulli o serviço permanece super old-fashioned, graças a Deus. Leia-se: garçons experientes e sempre atentos, com pleno domínio de cada composição de prato. Timing perfeito. E sommeliers sensíveis aos gostos e orçamentos dos clientes (sou muito chata com brancos e acertaram na mosca com o Plou i fa Sol 2009 Côte Garraf do Penedès, relativa pechincha e exatamente seco e mineral como eu queria).



2- Conforme o último dia de serviço vai se aproximando, Ferran vai rendendo-se à nostalgia. Pratos vintage foram tirados do baú, quem diria! Sorte minha: assim pude provar o famoso tagliatelli de consommé de mil anos atrás, à carbonara, com fina brunoise de queijo. Delícia pura!



Também ressucitaram o belíssimo "papel" de flores, em que fina lâmina de algodão doce aprisiona flores comestíveis - inclusive, quem diria, uma de jambú! (ou, se não era jambu aquele botãozinho que parecia elétrico na boca, era muuuuito parecido). Por coincidência, uns 3 anos atrás escrevi uma matéria sobre os avant-gardistas espanhois que abria justamente com esse "prato":

Então foi muito bacana poder finalmente comê-lo. Tem gosto de.... algodão doce! As flores não tem gosto de nada, claro, exceto uma que eu podia jurar ser jambú, embora não consiga entender como ele poderia arrumar jambú naquele fim de mundo.




3 - Se eu comparar este jantar ao de setembro passado, muito mais pratos me pareceram deliciosos. "A nível de" prazer gustativo, desta vez foi bem melhor. Eis meus favoritos:

Pacotinho de creme de pistache. A película, impossivelmente fininha, é crocante, doce e derrete-se na boca. O creme, de uma intensidade que potencializa o pistache. Pistache ao cubo, digamos.



Ar de parmesão!  O que eles chamam de "müesli", que vinha num saquinho à parte, mais parecia pedacinhos de pão sírio torrado e framboesas "lyo", ou desidratadas. Vinha à mesa em um falso pote de sorvete, de isopor. O ar, geladinho e etéreo, dissolvia-se de imediato sobre a língua, deixando um rastro de parmesão, gostoso contraste com a doçura discreta da fruta.



Duo de ervilhas (as mais escuras, verdadeiras) com filmes semi-transparentes de banha de jamón Joselito. Nham! O curioso é que vivem dizendo que Ferran inventa onda, transforma demais os alimentos, e no entanto, da dezena de pratos que comi recentemente com ervilha, este era o mais singelo, o que mais realçava o ingrediente.



Pontas de aspargos brancos. Uma vinha sobre um creminho de missô, outra sobre outro creme, mas isso era detalhe. De novo: produto, produto, produto. Quem sabe, sabe.


E, mostrando que Ferran anda com a cabeça focada em vegetais (comemos pouquíssima carne), fiquei fascinada com a sequência de pratos de nozes. Primeiro, gominhos tirados de pinhas dos pinheiros dali mesmo. Pareciam, na textura, gominhos de grapefruit, mas o gosto era outro, claro (a pinha partida ao meio servia só de demonstração). No copo, "suco" dos pinhõezinhos.



E aí vieram dois pratos incríveis de amêndoas, espécie de estudos da amêndoa em todos seus estágios de desenvolvimento (tinha até um envelopezinho contendo óleo dentro) e texturas. Fascinante.


O segundo prato de amêndoas vinha com um delicioso naco de pêssego grelhado. Mas as "amêndoas" não eram sempre amêndoas, uma confusão de realidade e ilusão que, no fim, acaba forçando a pessoa a se perguntar: afinal, o que é uma amêndoa?!




Achei curioso notar a crescente presença de ingredientes sul-americanos (jambú, polpa de maracujá, cachaça) e também japoneses (yuzu, feijão vermelho, missô, etc). Não é coincidência: Japão, Brasil e Peru são os lugares que mais fascinam Ferran ultimamente, gastronomicamente falando. Esta sobremesa abaixo, por exemplo, era Japão puro!



Que mais me encantou? Essa delícia aqui, lagosta com porco, um mar e monte inspirado em Shangai. Quase old-fashioned comparado com o resto, mas... delícia pura!



E por falar em delícia pura, que dizer de La Caja (A Caixa)? Daria pra passar duas horas beliscando pedacinhos de chocolates, não pode haver no mundo mignardises mais deslumbrantes em todos os sentidos:







E chega, que este post já está virando um livro! Quem quiser ver os outros pratos que comi pode assistir o vídeo abaixo....








E mais Ferran Adrià no Boa Vida:

28.5.11

Ferran Adrià e a capa da Esquire España que tem cheiro de El Bulli!


É, minha gente.... quem pensava que o homem ia ficar quietinho esperando o dia da "aposentadoria" chegar estava muito, muito enganado! O El Bulli vai deixar de existir no dia 30 de julho e, em homenagem a esse que é o maior restaurante de todos os tempos a Esquire espanhola fez uma capa em que, se riscando o título da revista, sente-se o cheiro daquele lugar mágico. Coincidência: justamente o cheiro sobre o qual venho escrevendo esses dias, depois de meu jantar ali na semana passada. E que procurei traduzir, através de fotos e imagens... Ferran fala, emocionado, desta capa olfativa, neste vídeo aqui.



E este segundo vídeo eu mesma fiz, de meu jantar lá na semana passada...




E mais Ferran Adrià e El Bulli:





27.5.11

A última ceia no El Bulli: coluna de ontem no Comida, da Folha


Isso aqui está igual novela da Globo: mó suspense! Depois do post de ontem, que narrava a linda viagem até o restaurante, hoje reproduzo aqui o texto que escrevi para o Comida, o caderno de gastronomia da Folha.


Só amanhã vou mostrar os pratos todos que experimentei no El Bulli... aguardem as cenas dos próximos capítulos! :)





A última ceia no El Bulli

    Escrevo estas linhas de Roses, na Catalunha, ainda mexida e desnorteada, na manhã seguinte ao meu derradeiro jantar no mítico El Bulli do chef Ferran Adrià. Que poderia lhes contar de novo? Pululam pela internet descrições e fotos mil das bizarrices que compõem o menu degustação. E já se escreveu à exaustão sobre o fim próximo do restaurante que revolucionou o mundo (fechará no 31 de julho por 3 anos para reforma milionária até ser reaberto como think tank, ou laboratório de ideias).

Palitos de cana de açúcar embebidos de caipirinha e de mojito
(os que têm folhinha de hortelã): "chupe!"


     Prefiro poupá-los de longo discurso crítico dos 47 bocados que provei (papel de flores! Caipirinha sólida!). Isso  só sublinharia a injustiça que faz dos que lá foram uns felizardos, e dos que sempre sonharam em ir mas não conseguiram reserva, uns azarados condenados a morrerem na vontade.

     É o fim de uma era, e quem não viu, não verá. E agora? Haverá sucessor à altura? Mesmo sem ter comido no Noma, que tomou do El Bulli o posto de número 1 no ranking dos 50 melhores do mundo, atrevo-me a dizer que não existe outro restaurante que tenha o mesmo poder de mexer no fundo da alma, de abalar emocionalmente quem se entrega a seus esquisitos sabores.

     Muito da magia do El Bulli está fora do prato. O percurso de táxi por estradinha deserta e periculosamente sinuosa desnuda paisagens de beleza comovente, íngremes montes semi-áridos indo de encontro ao mar imenso.




Naquele Parque Nacional de muitas baías o ar cheira a pinho e o grito dos pássaros mistura-se ao bater das ondas no cascalho.

Eis que surge naquele isolamento selvagem a casinha velha de ar familiar, com sua cristaleira repleta de buldogues (bullis) de porcelana....



    Tem um quê de surreal a caretice do espaço, contrastando estranhamente com o avant-gardismo dos ares, papéis comestíveis e encapsulamentos.



   A cada instante da noite encantada eu me via rindo, ou refletindo, ou buscando domar a forte emoção que me invadia o peito. Não chamaria aquilo de jantar, mas sim de uma janela que se abriu revelando o íntimo de um gênio. Epifania que durou curtas horas e me fez sentir, mais do que nunca, viva e plena.




25.5.11

A última ceia no El Bulli: no caminho, há que se cheirar as flores...



Exausta, abatida, com olheiras profundas e uns 2 ou 3 quilos a mais, reflito sobre os dias que se passaram. Uma viagem em dois capítulos.

Catalunha, Douro. Jantar no El Bulli seguido de ziguezague por quintas debruçadas sobre o mais belo rio de Portugal.


E só poderia mesmo começar pelo começo, pelo jantar que me fez cruzar o Atlântico. Mas vou mais longe: antes até de mostrar o que comi - e como comi, Deus do céu! - queria ver se explico de onde vem essa melancolia e esse turbilhão de emoções que senti mesmo antes de por os pés dentro do mítico restaurante.

Pouco se fala do Parque Nacional onde está o El Bulli, montanhas semi-áridas debruçadas sobre o mar onde quase não se vê viv'alma (mais especificamente, na baía onde fiz um xis verde, na ponta direita do mapa abaixo).



Chega-se lá de táxi, partindo de Roses, balneário cafoninha que há anos vive em boa parte dos "gastroturistas peregrinos".




Foi em Roses que dormimos, eu e minha amiga Marie-Claude Lortie, que é crítica gastronômica como eu.  Rachamos um quarto modesto em um hotel mais modesto ainda, o Mar y Sol, e logo ao chegarmos o senhorzinho da recepção nos reconheceu e perguntou:
"Quieren el mismo cuarto de la otra vez?"

Surreal!



Tomamos banho correndo, largamos tudo de qualquer jeito e saímos, apressadas, ansiosas, de vestido e salto alto e cheias de esperanças e expectativas. Nervosas, enfim.


Mas bastou o táxi começar a subir o morro, afastando-se do balneário, para entrarmos em outro mundo. As casas foram rareando até sumirem, ao entrarmos no parque nacional.




Ali, só mesmo mato, arbustos baixos, flores selvagens e o mar. Paisagem para fazer calar até o mais chato dos gastroturistas.



Nós, sedentas por absorver e saborear cada instante, cada curva, pedimos para o motorista parar, tiramos fotos, sentimos o vento cheiroso e quente, deixamos, por uns instantes, a armadura cair e entregamo-nos a uma alegria infantil de turistas entusiasmadas.





Até que chegamos.

E como não poderia deixar de ser, Ferran Adrià nos virou de ponta-cabeça, mesmo se achávamos que seria, de certa forma, mais do mesmo que tínhamos visto em setembro passado. Mas qual o quê! Ele serviu-nos 47 bocados mágicos que não me saem da cabeça - tema da minha coluna de amanhã no caderno Comida, da Folha.... depois mostro fotos de cada um, prometo.

E com isso dou tchau, que já quase não consigo segurar os olhos abertos, e o voo de volta ao Canadá sai em poucas horas....



Aqui, vídeo que fiz do meu jantar no El Bulli em setembro de 2010...



8.10.10

Restaurante Dos Cielos, em Barcelona: a crítica faz um mea culpa


Hotel Me, em Barcelona

Depois de um pit stop relâmpago em Paris seguido de um dia inteiro de aeroporto em aeroporto, cheguei, exausta, ao meu destino final. Não vou contar em que parte da Europa estou - por enquanto!

Me faltam forças para escrever grande coisa, então deixo vocês com este post sobre o Dos Cielos, publicado originalmente lá no portal Club Alfa:

                                                                           ***

Hora da verdade: críticos de restaurantes erram com frequência, e o que é pior: têm birras que agem como filtros entre eles e um retrato fiel de um restaurante.

Embora eu goste de achar que meus erros são poucos – mais pelo esforço investido do que alguma divina sabedoria – em contrapartida admito, e não é de hoje, que minhas birras são muitas. Restaurante gastronômico tocando música lounge, eletrônica? Detesto (aconteceu no Dos Palillos, semana passada, em Barcelona). Se chego e me dão um menu com muitos erros de ortografia, já vejo a comida com outros olhos. Ferranismos mal-copiados, então, são a praga da década: e dá-lhe farelos e espumas e risquinhos no prato sem gosto algum ou pior, incomíveis.

Mas minha birra número um são os chef-consultores.

Pra mim, restaurante tocado por algum fantoche de chef-consultor nunca tem alma. E quando mais longe estiver o chef-consultor em questão, pior o resultado.

Fui ao Eñe, o restaurante dos espanhois Sergio e Javier Torres em São Paulo, duas vezes. Não gostei. Ainda por cima, liguei algumas vezes para pedir informações e fui mal atendida. Resultado? Risquei da minha lista para sempre.

Aí os gêmeos Torres, que vivem em Barcelona mas “supervisionam” a muuuita longa distância o Eñe, abriram uma filial no Rio. Minha amiga C., que sabe do que fala, achou bem fraquinho. Resultado? Concluí que esses gêmeos não sabem o que fazem.

Sim, eu sei que não faz sentido eu gostar do L’Atelier de Joël Robuchon em Nova York (onde o famoso chef só aparece muito de vez em quando) e por outro lado implicar se dois espanhóis abrem restaurante em São Paulo. Mas é que eu acho que só mesmo os melhores do mundo conseguem a proeza de segurar um altíssimo padrão estando longe. E mesmo assim, muitos überchefs quebram a cara ao tentarem: vide Gordon Ramsay, que deu (dez) passos maiores que a perna.

Não por acaso, os melhores restaurant-empires do mundo reúnem seus “filhotes” em uma região restrita. É o olho do dono que engorda o boi. Exemplos: o genial Keith McNally (Minetta, Pastis, Pulino’s etc.) e Daniel Boulud (Daniel, DBGB, DB Bistro, Bar Boulud), que só agora se arrisca a dar o primeiro passo na Europa.


Mas assim como sempre digo que o pior burro é o que não aprende, também é verdade que o pior crítico é o que não sabe derrubar seu próprio preconceito.

Por insistência de um amigo que entende muito do assunto, reservei mesa no Dos Cielos, o restaurante relativamente novo dos gêmeos no 24o andar do hotel ME, em Barcelona. Meio fora de mão, em um bairro de negócios que chamam de Zona 22. Esperava pouco, confesso.



Pois bem feito para mim: o Dos Cielos é um espetáculo de restaurante, o melhor de todos que provei nesta ida a Barcelona. Lugar explicitamente fino, com guardanapos de linho enormes, mesas espaçadas, taças do melhor cristal, serviço primoroso, não mais do que trinta lugares. Pães impecáveis, feitos ali mesmo.



E mais: os gêmeos cozinham! Eles existem! :)


Mal pude esconder meu espanto quando um e depois o outro vieram à mesa – pasmem! – dar um alô e tirar o nosso pedido. E não é porque sou jornalista, eles não me conhecem e notei que fizeram o mesmo com todas as outras mesas.


Já comecei a ver a coisa com outros olhos....


Eu:
“Ah, sim, oi, muito prazer. Vocês estão sempre aqui?”


Responde o gêmeo a ou b, não sei bem, perplexo:
“Sim, claro, porquê?”


“Ah, nada não, só curiosidade...” :)


Fiquei intrigada. Resolvi soltar a rédea e tirar a prova: menu confiance!




Os amuse bouches prometiam: em um pratinho, bolinhos de bacalhau muito bem feitos. No outro, uns tomatinhos sem pele deliciosos, recheados com um creminho quase morno, e uma lasquinha de enguia por cima.




Vejam essa “sopa” que beleza: não era fria nem quente, mas intensamente saborosa. Cada colherada parecia trazer um novo sabor: capim santo, caracol do mar e uns camarõezinhos molinhos e quase doces.



Essa folha sobre o prato, para quem não conhece, é uma diversão: tem gosto de ostra! O garçom recomendou que comêssemos antes, só ela. Vinha por baixo uma ostra de verdade e pedaços de pepino. E sabem de que era feito o caldo em volta? De pé de vitela! Isso que eu chamo de mar-e-montanha original! Mais uma vez, execução perfeita.





Seguimos com um prato ultra 'exótico': vieira com creme de mandioca e mandioquinha com espuma de salsinha. ;)



Puxa, onde será que esses gêmeos aprenderam a gostar de mandioquinha? Outra delícia, ainda mais para quem, como eu, adora mandioquinha.

Mais um pratinho pouco inventivo porém muito bem-sucedido: ravióli recheado de foie e castanhas, com tomate seco, azeitona kalamata e caldo de açafrão.



Apesar dos ingredientes fortes, a mão leve dos chefs fez o conjunto elegante e delicado. Não à toa, este tornou-se um clássico dos gêmeos, reproduzido, inclusive, no Eñe (não sei com que grau de fidelidade).

Para testarem os limites de nossa gula, mandaram na sequência um arroz “meloso”, como dizem em castellano, com pepino do mar.




Na Catalunha essa “coisa” chama-se espardeña e custa uma fortuna, cerca de 90 Euros o quilo. Trata-se do órgão interno de uma espécie de minhoca do mar gigante, muito típica dali e desta época. Pertence à mesma família de bichos (equinodermos) que a estrela do mar. Em Cádiz também há espardeñas, mas lá chamam-se.... carajo de mar! :o

Enfim, melhor eu não contar maiores detalhes. O fato é que o pepino aquático é uma iguaria rara, sequer vendida nas peixarias tamanha a escassez, que para mim tem uma textura parecida com a de uma cauda de lagosta. E não nego que o arroz meloso com carajo de mar, temperado com azeite do bom, estava chose de lóc.


Achei que o almoço tinha chegao ao seu ápice mas... ledo engano. Ainda tinha muita coisa pela frente! Inclusive o prato mais gostoso de todos, a meu ver: cherne com um molho bem “meloso" de carne, cebolinha cortada em julienne finíssima e tomate concassé. A acidez do tomate contrabalançava a gordura do molho ultradenso, enquanto o peixe era um primor de frescor e cuisson. Um prato, mil texturas....


Terminamos os salgados descendo um ou dois pontos. A paleta de cabrito de leite, (kid em inglês) apesar de tenra, vinha coroada de um ar de leite de cabra muito boboca. Iguamente dispensáveis os cubinhos de uma espécie de manjar de amêndoa.



A apresentação da carne ainda no osso com seu molho cor de ferrugem pareceu grosseira em comparação ao que antecedêra (ainda mais assim, comido pela metade ;) ). Mas entendam: estou sendo chata, o prato estava gostoso, etc – só não foi o ponto alto.

Inacreditavelmente, ainda achamos apetite para testar o plâteau de queijos. Para minha surpresa, pesadamente francês, com direito a Roquefort, Comté, Reblochon, Langres, etc. Naquele dia ofereciam três queijos da região, inclusive um de sabor um tanto neutro feito a vinte minutos de Barcelona, chamado La Rocha, se não me engano.



Ah, isso sem falar no pré-dessert, que, confesso, já nem lembro mais o que era.




E... ah, sim, sobremesa! Uma gostosura mirabolante de chocolate com cubos de bolo, para comer lambendos os beiços.



E mignardises, que ninguém é de ferro: três delicinhas achocolatatas, inclusive uma bolota que parecia ter sido passada em migalhas de corn flakes e depois no chocolate. Nham.

Almocinho básico, que tal? Levantamos da mesa lá pelas 5!

Conclusão: mea culpa, mea culpa. Retiro o que disse no passado: os gêmeos sabem, sim, cozinhar. E bem demais.

Só achei errado eles nos darem de lembrança um menu degustação que não foi exatamente o que nos serviram....Tomar cinco minutos para imprimir um menu correto teria sido bem mais gentil - e é praxe em restaurantes desse nível, onde inclusivem costumam até incluir os vinhos degustados. Que não foram poucos, aliás... Hic! Santo caderninho de notas! :)

p.s. mandoquiña es de doer, no?!




Dos Cielos: hotel ME, Rua PERE IV, 272, tel. (34-902) 14 44 40
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