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8.11.11

O novo hotel Intercontinental no Porto: nota dez em elegância

HOTEL INTERCONTINENTAL PORTO - PALÁCIO DAS CARDOSAS


Eu sempre desgostei do estilo normalmente associado a cadeias hoteleiras de luxo: conforto sem sal, sem personalidade; ar corporativo. Sempre preferi me hospedar em hotéis únicos, onde além de luxo eu poderia encontrar personalidade. Um quarto idêntico ao outro, musiquinha de elevador tocando nos ambientes públicos.... nada disso me atrai. No entanto, o mundo tem mudado rapidamente. Cadeias como Mandarin Oriental deram uma guinada e pararam de fazer hotéis “cookie-cutter”, como chamam os americanos – parecidos uns aos outros, tal qual biscoitos da mesma fôrma.

Já falei algumas vezes do melhor exemplo disso, o deslumbrante Mandarin Oriental de Barcelona, em que os arquitetos espanhóis Carles Ferrater e Juan Trias de Bes souberam transformar a antiga sede de um banco, em pleno Paseig de Gracia, em uma obra-prima. Aqui, o link com fotos.

Mas o Mandarin barcelonês não está só. Em uma era em que até a megarede Marriott quer ter seu dia de boutique hotel (e dá-lhe imitadores da estética lançada pelo francês Philippe Starck), mais e mais hotelões de luxo de grandes redes procuram se destacar através do design. Em viagem recente a Nova York, percorri diversos cinco estrelas novos, pesquisando para grande reportagem sobre o tema. Estive, entre outros, no Gansevoort Park Avenue, com atitude papai-quero-ser-cool, e no caríssimo e luxuosíssimo The Chatwal, que pretende abalar os alicerces com suas paredes forradas de camurça e mantas de cashmere. Mas o que me impressionou mesmo, a ponto de literalmente me deixar boquiaberta, foi o Intercontinental perto do Times Square. Sim, isso mesmo: In-ter-con-ti-nen-tal!

E agora, eis-me aqui hospedada em outro Intercontinental lindo, no Porto. Acaba de abrir e, a meu ver, já leva o troféu de melhor hotel da cidade. (E olhem que não estou falando isso porque hospedo-me a convite do Oporto Wine Tourism Forum, mas sim porque fiquei recentemente em dois outros cinco estrelas daqui, o Infante de Sagres e o The Yeatman, então consigo comparar bem...).


entrada do Palácio das Cardosas


Este palácio bem no centro da cidade era, originalmente, o Mosteiro dos Lóios, dos cônegos de S. João Evangelista, uma Ordem detentora de riquíssimas alfaias de ouro e de prata.

Mas as convulsões do princípio do século XIX e a entrada de D. Pedro IV à frente do Exército Libertador, no Porto, ditaram a fuga da Ordem Religiosa que apoiava D. Miguel, abandonando o convento.

O Mosteiro foi comprado por Manuel Cardoso dos Santos, um burguês abastado, com fortuna feita no Brasil. Passado pouco tempo, ele morreu e os seus bens passam para a sua mulher e suas três filhas, conhecidas como as Cardosas, daí o nome “O Palácio das Cardosas”.


Eis que ele ressurgiu em julho como hotel. Ganha o Porto, certamente....

Estou em um quarto "básico" que de "básico" não tem nada...



Gostei, principalmente, da ótima - e GRATIS - internet sem fio; do imenso banheiro; do pé-direito duplo; da curadoria de bom-gosto do minibar, que oferece biscoitinhos caseiros de canela, chocolate com laranja de São Tomé e outras portuguesices boas, além de chás de primeira qualidade, em sachês de tecido.

E gostei de ver, por todo o hotel, espaço abundante: um grande luxo hoje em dia em hoteis modernos.




O café da manhã tem mais portuguesices boas, inclusive pasteis de nata para os overgulosos e meu bolinho favorito, feito com farinha de arroz. NHAM.



Enfim, preciso falar que estou feliz aqui? :)

O Intercontinental jamais poderá competir com as lindas piscinas (uma interna, outra externa) do Yeatman, nem com a deslumbrante vista de que aquele hotel goza. Mas em contrapartida, enquanto o Yeatman está do outro lado do rio, em relativo isolamento, este "palácio" fica no miolo de tudo.



Para mim, se fosse recomendar, saberia facilmente o que dizer. Aos casais querendo passar muito tempo namorando no hotel, indo ao spa, etc, o The Yeatman é a melhor escolha. Para o turista que quer bater perna pela velha cidade, melhor ficar no Intercontinental. E o Infante de Sagres...... hmm... depois falo mais dele!


Palácio das Cardosas

Praça da Liberdade, 25,

+351-22-0035600

6.11.11

Oporto Wine Tourism Forum: preparando minha palestra!


Confesso: sou do tipo que faz loucuras. A última? Voltar de uma viagem pelo Piemonte e por Valência e arredores, refazer a mala e embarcar de volta para a Europa. Mal tive tempo de me reacostumar à casa e já era hora de voltar ao aeroporto. 

Mas ao chegar aqui na belíssima cidade do Porto, a encantadora capital vinícola de Portugal, logo me senti como se as duras horas dentro de diversos aviões tivessem valido a pena. Vim a trabalho: vou dar uma curta palestra na quarta-feira sobre enoturismo, no Oporto Wine Tourism Forum (não me perguntem o porquê, mas o evento tem mesmo o nome em inglês!). O Murakami do Kinoshita é o outro brasileiro que participa dos debates aqui - mix curioso, não? ;)

Eis o principal tema do fórum, segundo seus organizadores:

"Qual o presente e o futuro da atividade do enoturismo? De que modo o vinho e a gastronomia poderão impulsionar o crescimento e afirmação de cidades e regiões? Quais as novas tendências do mercado nesta área? E que casos de sucesso poderão ser tomados de exemplo? É para responder a estas questões que a Associação Comercial do Porto, com o apoio da CCDR-N e do Douro - Estrutura de Missão e produção da Essência do Vinho, decidiu realizar o “Oporto Wine Tourism Forum 2011”, uma jornada internacional que reúne em Portugal algumas das personalidades mais carismáticas dos mundos do turismo, vinho, gastronomia e enoturismo."


Depois conto mais...


No programa do dia 9:

9 NOVEMBRO_quarta-feira_Pátio das Nações

08:30 - 09:00_Receção aos participantes

09:15_Boas-vindas por Ricardo Magalhães, chefe de projeto Estrutura de Missão para o Douro

09:20 - 10:30_Painel 1_O ENOTURISMO COMO POTENCIADOR DE DESTINOS TURÍSTICOS

Moderador
Manuel de Novaes Cabral, representação da Câmara Municipal do Porto na Great Wine Capitals, Portugal

Oradores
Catherine Leparmentier, secretária-geral da Great Wine Capitals Global Network, França
Clay Gregory, presidente e CEO da Napa Valley Destination Council, EUA
Luísa Amorim, diretora-geral e executiva da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Portugal


10:30_Debate

11:20 - 12:30_Painel 2_O TURISMO GASTRONÓMICO

Moderador
Duarte Calvão, consultor gastronómico e diretor do “Peixe em Lisboa”, Portugal

Oradores
José Bento dos Santos, presidente da Academia Internacional de Gastronomia, Portugal
Tsuyoshi Murakami, chefe de cozinha "Kinoshita", Brasil
Luís Baena, chefe de cozinha "Manifesto", Portugal
Miguel Júdice, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, portugal

Um pequeno parêntese: para quem perdeu, eis um repeteco do Murakami cantando em plena cozinha do restaurante El Bulli. Surreal!


  


à tarde, seguirão com.....


15:00 - 16:10_Painel 3_A VISÃO DA IMPRENSA ESPECIALIZADA - A GASTRONOMIA E O VINHO COMO MOTIVOS DE VIAGENS

Moderador
Luís Costa, subdiretor de informação da RTP e editor da revista "WINE - A Essência do Vinho", Portugal

Oradores
José Peñin, crítico de vinhos e autor do “Guia Penin”, Espanha
Alexandra Forbes, editora de gastronomia da "GQ Brasil", colaboradora na publicação "Folha de São Paulo", Brasil / Canadá
Rui Falcão, crítico de vinhos da "WINE – A Essência do Vinho", Portugal
16:10_Debate

E mais Porto e Douro:

O Vale do Douro e o valor das amizades: minha visita a quintas e hotéis
A nababesca Quinta da Romaneira: fotos de uma estadia inesquecível - na GQ
O Vale do Douro em 20 imagens: de chorar por mais - na GQ

4.10.11

Oporto Wine Tourism Forum, em novembro: lá vou eu à bela cidade do Porto!



Convitinho bom que eu recebi há pouco: ir à belíssima cidade do Porto participar do Oporto Wine Tourism Forum (assim mesmo, em inglês!), dias 9 e 10 de novembro. Vou dar uma palestra e participar de um debate sobre enoturismo. Nem pensei duas vezes: na minha última ida lá, mal tive tempo de conhecer a cidade, faltou visitar muita coisa, então... lá vou eu!

No programa do dia 9:


09:15  | Boas-vindas por Ricardo Magalhães (Chefe de Projeto Estrutura de Missão para o Douro)

09:20 – 10:30  | Painel 1 | O ENOTURISMO COMO POTENCIADOR DE  DESTINOS TURÍSTICOS

Moderador:  Luís Costa | Subdiretor de informação da RTP e editor da revista WINE 

Oradores: Catherine Leparmentier | Diretora-geral da Great Wine Capitals, França
  Clay Gregory | Presidente da Napa Valley Destination Council, EUA
  Luísa Amorim | Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo

10:30   | Debate


11:20 – 12:30 | Painel 2 | O TURISMO GASTRONÓMICO

Moderador:  Duarte Calvão | Consultor gastronómico e diretor do “Peixe em Lisboa”

Oradores: José Bento dos Santos | Presidente da Academia Internacional de Gastronomia, Portugal
Murakami | Chefe de cozinha, Brasil

 
12:30   | Debate

13:00   | Almoço para os congressistas
 Produtores convidados: Casa Ferreirinha, Quinta de Simaens e Ramos Pinto

15:00 – 16:10  | Painel 3 | A VISÃO DA IMPRENSA ESPECIALIZADA
    A GASTRONOMIA E O VINHO COMO MOTIVOS DE VIAGENS

Moderador:  Rui Falcão | Crítico de vinhos revista WINE – A Essência do Vinho

Oradores: José Peñin | Crítico de vinhos, autor do famoso “Guia Penin”
 Oz Clarke | Crítico de vinhos, Reino Unido (por confirmar)
 Patrícia Alexandre | Directora revista “Gault Millau”, França (por confirmar)
Alexandra Forbes | Editora da secção gastronomia da GQ Brasil, colaborada do jornal Folha de São
Paulo e da revista Prazeres da Mesa 
16:10   | Debate

27.5.11

O Vale do Douro, em Portugal, e o valor das amizades


Como muitos de vocês gostam de me lembrar, sou mesmo uma garota de sorte. Meu trabalho me leva a lugares e a pessoas incríveis.

Uma coisa é viajar como turista. E outra, bem diferente, é viajar como repórter - há que se falar a verdade. Se me sobra pouco tempo para relaxar à beira da piscina, em contrapartida acabo vendo muito mais coisas do que a maioria dos mortais, em viagens intensas, concentradas.

Mas não basta ser repórter para as portas se abrirem, claro. É preciso fazer muuuuuita lição de casa antes de ir ao aeroporto mas, acima de tudo, é preciso contar com amigos nos lugares certos.

Minha ida ao vale do Douro simplesmente não teria acontecido se não fosse pela tenacidade e generosidade de Miguel Santos, um leitor que vive lá e que, depois de anos de correspondências através deste Boa Vida, tornou-se amigo. Ele sabia, pelos meus escritos, que eu sonhava em ir ao Douro. E, nos bastidores, fez de tudo para que a viagem se concretizasse.

Miguel Santos, expert em Douro, degustando vinhos na Quinta do Crasto


Entendam: Miguel armou meu itinerário e ainda me levou de ponto a ponto em seu carro por pura e simples boa vontade. Verdadeiro gentleman, desdobrou-se para me levar a ver lugares que sabia que me agradariam. Sempre solícito e gentil. Sempre fugindo dos holofotes, ultradiscreto.

Miguel no restaurante DOC, ao lado do Luís Seabra, enólogo da Niepoort


Na escolha das paradas ele teve a ajuda inestimável de outra amiga minha que entende muito de bons comes e bebes: Teresa Vivas.



Lisboeta arretada, ela arranjou, através do enólogo Paulo Laureano (de quem sou grande fã) para que nós passássemos uma noite em uma das Quintas mais mágicas do Douro, a Quinta do Vesúvio.

Chegando à Quinta do Vesúvio, que tem sua própria estação de trem!


Hoje propriedade da família Symington, que produz ali grandíssimos vinhos, é um casarão cheio de história, onde morou a figura mais mítica dali, a dona Antônia Ferreira, vulgo Ferreirinha. Éramos nós, os pássaros, as cigarras e o rio, batendo levemente contra a margem.... Uau.



A Quinta, com retratos da Ferreirinha na sala de leitura e um jeitão de século passado, tinha um quê de misteriosa, fantasmagórica...


Dormir ali foi um verdadeiro privilégio: propriedade privada, só recebe mesmo hóspedes da família Symington! A eles, o meu obrigada...

Teresa agendou também uma visita aos belíssimos olivais da CARM, no Douro Superior (eles produzem não só super vinhos como também alguns dos melhores azeites de Portugal). Filipe Madeira, filho do fundador, almoçou conosco depois nos levou de jipe até o pico de uma de suas várias quintas: UAU!




E a terceira pessoa-chave por trás de minha viagem de sonhos chama-se Miguel Roquette.

Entrevistando Miguel Roquette na Quinta do Crasto


Apaixonado pelo Brasil, é da família dona da Quinta do Crasto, uma das mais prestigiadas do vale.



Seu irmão Tomás cuida dos vinhos, e ele, do marketing. Nós nos conhecemos em um jantar em Montreal, quando contei a ele que queria fazer uma matéria sobre o Douro e seus mais famosos winemakers, os Douro Boys. No mesmo instante, ele ofereceu de juntá-los todos em um jantar-degustação na Quinta dele. Dito e feito! Preciso dizer que foi uma noite incrível?



Como se não bastasse, ele ainda ofereceu hospedagem na "casinha" da família... :)


E na manhã seguinte Miguel Roquette levou a gente de barco para a outra margem do rio....




... onde já nos esperava o Dirk, da Niepoort, para nos levar até a adega dele.



Outro cara fantástico: generoso e genial.

Dirk Niepoort faz um tour de sua Quinta de Nápoles (com adega supermoderna)
e conversa com o Miguel

Enfim: foram quatro dias inesquecíveis em que aprendi muitíssimo. Dormi em hoteis de raro luxo - Quinta da Romaneira e Aquapura - mas encantei-me mais com a hospitalidade nas casas particulares (Crasto e Vesúvio).

Voltei com o caderninho cheio de dicas e novidades para dar na revista GQ mas além disso, voltei feliz. Feliz de saber que há tanta gente genuinamente generosa naquelas bandas, sempre pronta a receber bem, abrir um vinho, levar para um passeio, contar de sua terra e sua gente. E feliz por ter tido o privilégio de ver lugares tão estupendamente belos, em tão boa companhia. Como diria Teresa, foi esmagador!

A todos com quem estive, mas em especial ao Miguel I, ao Miguel II e à Teresa, fica aqui o meu mais sincero e sentido obrigada.

Memórias para se guardar do lado esquerdo do peito...

O sempre discreto Miguel - o melhor guia que uma pessoa poderia sonhar em ter -
nos acompanhando na Quinta da Romaneira

E mais DOURO:

9.3.11

Chefs José Avillez e Vitor Sobral opinam sobre a crítica gastronômica portuguesa

chef Vitor Sobral, estrela-mór da cozinha portuguesa


Recebi agora cedo um email que me chamou a atenção. Acontece, no fim deste mês em Lisboa, um fórum gastronômico organizado pela ACPP - Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal. E entre um evento e outro, marcaram para o meio dia do 29 de março um "debate" descrito assim:


"A crítica Gastronómica em Portugal” - Manuel Gonçalves da Silva, José
Avillez e Vitor Sobral (Aprox. 30 min)"

Trinta minutos?! Ora.... isso não vai dar nem para o cheiro! Se gastarem dez minutos apresentando os chefs - que são as duas maiores estrelas de Portugal - sobrarão vinte para tratar de tema dos mais espinhosos. Primeiro, duvido que Avillez ou Sobral tenham vontade de dizer o que realmente pensam sobre nós críticos. Segundo, se quisessem dizê-lo, certamente precisariam de mais do que alguns minutos!

Quem conduzirá o bate-papo será o crítico gastronômico Manuel Gonçalves da Silva. Ele começou no jornal Diário Popular no ano em que eu nasci. Ou seja: experiência não lhe falta. Entre muitos outros trabalhos, escreveu sobre gastronomia para Casa Claudia, Exame e Visão, além do guia de restaurantes Repsol.

Chef José Avillez


Sem querer desmerecer o nobre objetivo de levantar a questão sempre tão controvertida do papel e da valia do crítico, atrevo-me a dizer que muito do que pensa o Manuel já foi dito no ótimo fórum online português Nova Crítica-Vinho, onde ele escreveu o seguinte:


"Hoje escreve-se muito, em todo o lado, mas quase sempre mal, porque em mau português e de um modo geral sem uma abordagem séria das questões. O restaurante é apresentado como um lugar mais ou menos da moda, onde o desgin corresponde ao perfil da clientela e a comida também, seja isso o que for. Há outra escrita, feita por bons profissionais do jornalismo e da gastronomia, mesmo sendo embora autodidactas nesta matéria – José Quitério, David Lopes Ramos, Duarte Calvão e pouco mais – que assinam textos substanciais. Posto isto, direi: ainda bem que há tudo isso. O leitor dispõe agora de informação, cuja qualidade lhe compete avaliar. A grande diferença em relação ao passado recente é a informação disponível, parte da qual irrelevante, é certo, mas alguma com categoria. As pessoas aprenderão, com o tempo a escolher o trigo do joio.

Fragilidades, no jornalismo gastronómico e na crítica gastronómica, há muitas. Estes géneros do jornalismo são considerados menores. Raramente têm espaço próprio a que seja dado o devido relevo e quase nunca são exercidos em exclusividade. Por outro lado, da parte de quem de quem escreve nota-se a falta de contacto estreito com a realidade – o mundo da cozinha e da restauração –, a superficialidade da análise (pelo motivos anteriores, ou seja, as limitações do espaço, conjugadas com o insuficiente conhecimento da realidade) e alguma imprecisão ao nível dos conceitos em textos que, ora são meramente descritivos, ora críticos. 


Obviamente, o jornalismo gastronómico não tem a importância que devia ter! Nem de perto, nem de longe. E não admira. Quantos decisores ou responsáveis dos Órgãos de Comunicação Social sabem comer? Repare-se neles quando vão aos restaurantes: onde é que vão, como é que estão e o que é que comem? Reflexos do tal problemazito cultural…"


Eu discordo de algumas coisas ditas pelo Manuel, a começar pela afirmação de que o jornalismo gastronômico é considerado menor. Era, Manuel, era.... Hoje, já não - pelo contrário, os críticos ganharam uma força tremenda com a disseminação da internet. 

Para não me alongar muito, deixo um link de um texto meu que explica melhor o que quero dizer com isso, publicado no portal Vida Boa. 


Aqui neste link, o site oficial da ACPP com maiores detalhes sobre o Fórum.

A ficha de inscrição pode ser pedida por email: acpp@acpp.pt (ao cuidado de Marina Oliveira).

27.2.11

Os melhores hoteis do Douro, em Portugal: é pra lá que eu vou!



Ano vai, ano vem e eu sigo com uma vontade crescente de embrenhar-me no vale do rio Douro, em Portugal. Pegar um carro ou trem, subir de Lisboa até o Porto - ponto de partida para qualquer expedição pelo Douro - e dali percorrer as vertiginosas estradinhas que beiram o vale profundo que corta a terra semi-árida daquele encantador pedaço de mundo.

O vale foi considerado durante séculos um canto pitoresco mas pouco glamouroso da Europa, famoso apenas pelos vinhos do Porto. Mas isso está mudando – e rapidamente. Trata-se, simplesmente, de uma região deslumbrante que vive grandes transformações, em plena ebulição. Querem prova? Então não deixem de assistir esse vídeo (com a banda larga vagabunda que se tem no Brasil, há que esperar um pouco para dar tempo de baixar direito, assim o filme passa sem interrupções).




Lindíssimo, não? A cereja no bolo é a seguinte: o Boa Vida tem um leitor, o Miguel Santos, que mora… no Porto! E, com sorte, vai me ajudar a bolar o roteiro ideal...

Difícil vai ser escolher onde ficar.... 
Se antes quase não havia hotéis bacanas naquela região, os últimos dois anos foram repletos de inaugurações e agora há muita escolha de lugares para se hospedar em grande estilo. Entre os melhores novos hotéis estão o Aquapura (da mesma família portuguesa que esteve enroscada com aquele elefante branco – ou cinza – em Itacaré), o Romaneira Quinta dos Sonhos e a Quinta do Vallado (em cuja homepage as intruções são claras – mova o rato (!!!) sobre a imagem).

A seguir, alguns dos melhores hotéis:


Aquapura Douro
Quinta do Vale do Abraão, Samodães, Lamego, 254-660-600, aquapurahotels.com
Da mesma família dona do Aquapura de Itacaré, o elefante cinza que foi embargado pelo Ibama. Segundo a Food&Wine, “fica do outro lado do rio de Régua – uma virtude, porque de longe, especialmente sob a luz da lua, Régua é um charme. O hotel é uma quinta do século 18 que foi reformada num estilo vagamente asiático. Dos quartos se tem vista para o rio Douro através de vidraças do chão ao teto”.





Quinta da Romaneira Cotas, Alijó, 254-732-432, maisonsdesreves.com
Chique no último. Ponto.




E mais três hotéis bacanas no Douro:

Quinta do Vallado (Vilarinho dos Freires, Peso da Régua, 254-323-147, quintadovallado.com. O solar de 1716 tem cinco quartos. 

Quinta do Portal (N-323 Celeirós do Douro, Sabrosa, 259-937-104, quintadoportal.com. O novo armazém de envelhecimento foi desenhado pelo arquiteto Álvaro Siza. 

Vintage House (Lugar da Ponte, Pinhão, 254-730-230, cs-vintagehouse.com, da rede Relais & Chateaux.

1.2.11

Chef José Avillez explica sua saída do restaurante Tavares, em Lisboa


O chef José Avillez me mandou por email semana passada a carta muito diplomática que segue, que, nem preciso dizer, explica muito pouco. Nas entrelinhas, leia-se que os sócios se desentenderam e se recusaram a vender a ele o Tavares. Ele queria o controle do restaurante, por discordar dos sócios em várias questões. Depois de muito insistir, cansou-se e partiu para outra... Para quem não tiver acompanhado essa história, aqui o link que explica tudo.




Lisboa, Janeiro de 2011



Aos Meios de Comunicação,


Venho anunciar que, a partir de hoje, deixo o lugar de chef Executivo do restaurante Tavares. Ao longo dos últimos três anos, desempenhei esta função com absoluta dedicação e com o apoio de uma equipa extraordinária, à qual presto a minha homenagem e deixo o meu agradecimento público. Juntos procurámos oferecer sempre o melhor com o objectivo de devolver o restaurante Tavares ao lugar que a sua história e prestígio merecem. No entanto, face a divergências insanáveis com a administração do restaurante, tomei a decisão de deixar o Tavares. Apesar da minha saída, desejo, sinceramente, que o restaurante reencontre rapidamente o seu caminho.

Estou profundamente agradecido a todos os Meios de Comunicação pelo apoio fundamental que me têm dado ao longo dos anos. O vosso reconhecimento é sempre fonte de motivação e motivo de grande orgulho.


De seguida, vou continuar a dedicar-me ao José Avillez Catering, à José Avillez Consultoria, ao take-away JA em casa, aos livros e, muito em breve, a novos projectos.

Uma vez mais, agradeço reconhecido o apoio dado e o interesse no meu trabalho.

Um abraço,
 
José Avillez

23.1.11

Chef José Avillez sai do restaurante Tavares, diz imprensa portuguesa



Estou cho-ca-da!

Li agora no OJE, português, que "mais uma vez, o mundo da gastronomia está envolto em polémica e incertezas: o chefe José Avillez, inesperadamente, sai do Tavares, o único restaurante em Lisboa que actualmente detém uma estrela Michelin".


Palavra do jornalista Vicente Themudo de Castro.


Mesma notícia deu a revista portuga Inter Magazine em seu Facebook:



José Avillez sai do Restaurante Tavares em Lisboa. Aguarda-de a qualquer altura comunicado a oficializar a saída da mais jovem estrela Michelin em Português.




Estive com Avillez na cozinha do El Bulli em setembro, onde ele estava passando uma semana observando tudo, a convite da "chefia", e não pude adivinhar que havia algo de errado entre ele e o restaurante Tavares. Aliás, na manhã seguinte, em curto papo com ele em Roses (nos esbarramos na praia, acreditam?!), tive a impressão oposta, de que ele tentava comprar o Tavares dos sócios-investidores. 

Ferran Adrià e José Avillez na cozinha do El Bulli



E agora, isto?! Azar dos tais investidores, que tinham na mão o maior trunfo que poderiam querer. 


Esse menino vale ouro, e se não acreditam em mim, saibam que sr. Ferran Adrià pensa exatamente o mesmo. Estou doida para descobrir o que houve e para onde ele vai. Assim que descobrir, conto a vocês neste espaço!






Restaurante Tavares




E a seguir, um repeteco de relato sobre meu jantar no Tavares, em abril passado:


 Comemos e bebemos a fartar, a começar por uns belos amuse bouches como o robalo com vieira e lingueirão servidos em um falso seixo do mar feito por uma ceramista amiga dele:


Não sei se vocês se lembram, mas contei aqui que Avillez, do alto de seus 30 anos, é oenfant terrible da gastronomia portuguesa, já conquistou estrela Michelin e provoca arroubos de admiração ou desdém (que alguns chamariam de inveja…) mas jamais passa desapercebido. Menino polêmico mas de grande talento.

Serviu-nos seu atual menu degustação, de nome inspirador: Menu Desassossego. E não por acaso. Do livro homônimo de Fernando Pessoa pode se pinçar várias frases que parecem escritas para e sobre o próprio Avillez:

“Não pertencera nunca a uma multidão. Dera-se com ele o curioso fenômeno que com tantos – quem sabe, vendo bem, se com todos? – se dá, de as circunstâncias ocasionais da sua vida se terem talhado à imagem e semelhança da direção dos seus instintos, de inércia todos, e de afastamento.
Nunca teve de se defrontar com as exigências do estado ou da sociedade. Às próprias exigências dos seus instintos ele se furtou.”



E seus instintos, até aqui, têm lhe levado longe. Abre o menu desassossego uma bela “paisagem” disposta sobre vidro com grande minúcia. Debaixo do vidro, algas e gelo seco. Cada marisco e fruto do mar cozido separadamente, por meros segundos, servidos no auge do frescor, formando um todo de imensa delicadeza, uns poucos salicórnios (“aspargos do mar”) para dar um crunch. A maçã verde traz o necessário toque ácido. Um porém: talvez dispensasse a água de côco texturizada que coroa o conjunto – não consigo ver o link entre côco e Cascais, acho que destoa.




Cascais à beira mar, amêijoas, berbigão, mexilhão, 
gamba da costa e santola com sumo de maçã verde, 
algas e merengue de limão




Comi pela segunda vez um prato que já na primeira não me apetecera. Ele segue remando contra a corrente e as críticas negativas (não só minhas) e servindo a tal…


Miragem de ostras “petrificadas” no deserto,
creme de funcho com caril de madras, 
rebentos, plantas e algas


Petrificada, não é. Mas a pobre ostra chega à mesa em sarcófago quebradiço dourado, depois de um pulo em nitrogênio líquido e outro em manteiga de cacau. Some-se a isso curry e algas e…. nem preciso dizer que não funciona.

Outro repeteco  de prato servido em Montreal foi este:



A horta da “Galinha dos Ovos de Ouro”, 
ovo cozido a baixa temperatura 
com aromas de terra


Ovo, trufa, migalhas de pão…. alguma vez a combinação deu errado? Aqui, os finos cabelinhos de alho-poró e cogumelos trazem complexidade ao untuoso conjunto. As migalhas são fritas, ultra-crocantes. E o ovo, linda esfera dourada e bem mole por dentro.


A cozinha poética de Avillez parece caminhar a passo firme rumo a composições comestíveis de paisagens que lhe dizem algo íntimo. Nas palavras de Fernando Pessoa:

Paisagens… Recordações,  
Porque até o que se vê  
Com primeiras impressões  
Algures foi o que é,  
No ciclo das sensações.


Querem prova? Eis outra paisagem avilleziana:

Prado Açoreano, mãozinhas de vitela
branca com espargos e trufa de Périgord


Só de pensar em um vasto prado nos Açores, já sonho com a beleza rústica daquilo. Outro prato bem concebido e cheio de nuances, onde eu apenas mudaria o manto verde gelatinoso que encobria o resto.


E em seguida, mais uma paisagem, algo sensual, que me esqueci de fotografar:

Na praia numa fogueira, salmonete assado com migas de choco com tinta e molho dos fígados 




Já começava a perder a atenção quando chegou um prato para, de um só golpe, me levar a passear pelo Portugal profundo, sabores da terrinha sem grandes malabarismos. Carne, verdura, alho, doce, salgado, amargo. Muito bom. Tanto que só fui tirar foto a meio caminho…

Cabritinho da Serra da Estrela em duas cozeduras, 
puré de beterraba e alho, grelos salteados
e crosta de pão com ervas e laranja




Aí era partir pro abraço: não havia como não se deleitar com isto aqui:
Serra da estrela, queijo, banana e marmelada



E encerramos com chave de ouro: cubinhos de marmelada, sorvete, enfim: miniaturinhas diversas que àquela altura da noite e de vinhos já não discernia tão bem, se me permitem a sinceridade:


O mistério da queijada de Sintra

Estava tudo perfeito? Não. Acho, principalmente, que um restaurante belo daquele jeito, servindo comida nesse nível de sofisticação mereceria um serviço melhor – eu mal ouvia as explicações da tímida garçonete. Acho também, como já disse antes, que Avillez será mais chef quando seu estilo pessoal estiver mais destilado – ainda noto muitos ecos tecno-espanhois em seus pratos.
Mas se me perguntarem se gostei do Tavares, a resposta, apesar das imperfeições, é um veemente SIM! Podem apostar que este menino ainda vai dar o que falar…
Tavares: rua da Misericórdia, 35, tel. 351 342-1112
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