14.11.11

Fórum Gastronomika em San Sebastian, Espanha: Brasil, México e Peru homenageados

Ferran Adrià no Gastronomika de 2010


Com algum atraso, eis a coluna de quinta-feira passada no Folha Comida, sobre o Gastronomika, fórum que começa no domingo que vem em San Sebastian...


ALEXANDRA FORBES

Comitiva brasileira na Espanha



Extra! Extra! A Europa descobre que existe gastronomia pensante no Brasil!


CHEFS BRASILEIROS estão alegres e orgulhosos -e com razão- por sermos, com peruanos e mexicanos, os grandes homenageados do fórum Gastronomika, que acontece neste mês em San Sebastian, no País Basco.
Nunca tivemos presença tão maciça em importante evento estrangeiro. Atrás deles -Helena Rizzo, Alex Atala, Rodrigo Oliveira, Roberta Sudbrack e Claude Troisgros- vai outra comitiva, de jornalistas.
Extra! Extra! A Europa descobre que existe gastronomia pensante no Brasil!
A julgar pelo que vi ali no ano passado, quando o tema era Nova York, temo que também dessa vez alguns sucumbirão à tentação de fazer a chamada palestra-cartão-de-visitas. A fórmula? Contar de si, mostrar imagens do restaurante e terminar preparando alguma receita. Os americanos David Chang (dono do império Momofuku) e Drew Nieporent (do Nobu) ficaram apagados perto da alta técnica e dos belos vídeos exibidos por chefs espanhóis como Joan Roca e Andoni Aduriz.
Está errado nivelar por baixo: o chef que faz isso perde rara chance de mostrar facetas mais aprofundadas de sua cozinha para gente interessada e preparada. A plateia compõe-se de chefs, estudantes de gastronomia e alguns dos maiores críticos gastronômicos do mundo. Muitos terão feito sua lição de casa no Google e, espera-se, conhecem ao menos um pouco do Brasil além de Alex Atala, feijoada e churrasco.
Terei comigo meu senso crítico, mas também meu patriotismo: não nego que estarei torcendo para que brilhemos. Mas isso exigirá dos chefs grande esforço de reflexão e de preparo, além de boa dose de carisma (neste departamento, ao menos, estamos bem). Inevitavelmente, serão feitos paralelos entre as chamadas "cozinhas emergentes" e seus líderes, Atala e o peruano Gaston Acúrio. Pouco importa, é para o bem. O que emerge, na verdade, não é tanto nossa cozinha, mas o interesse dos europeus por ela. Desde que se evite a obviedade (yes, nós temos banana e Amazônia e mandioca) e que se exiba profundidade nas apresentações, o Brasil sairá no lucro.

ALEXANDRA FORBES, jornalista gastronômica e "foodtrotter", conta de suas andanças e comilanças também no Twitter (@aleforbes)

E mais Gastronomika e San Sebastian no Boa Vida:


Almoço no restaurante Akelarè com o chef Daniel Boulud - com vídeo

Um jantar inesquecível no Arzak... com o Arzak!

Minha lista dos melhores restaurantes de San Sebastian e arredores: Bernardina, Etxebarri, Elkano, etc.

Jantar com Anthony Bourdain, Dave Chang et. al no Elkano: os melhores peixes e frutos do mar na grelha que já provei - com vídeo

O restaurante Mugaritz, do chef Andoni Aduriz: único

Abertura do Gastronomika 2010: noitada no Museo del Whisky

Palestra de Ferran Adrià no Gastronomika 2010: vídeo mostrando pratos do El Bulli

Gastronomika: programa completo inclui grandes nomes como Adrià, Andoni, Arzak, Anthony Bourdain e Daniel Boulud 

Chef Josean Martínez-Alija do restaurante do Guggenheim Bilbao anuncia novo - e revolucionário! - restaurante para o início de 2011

Uma semana em San Sebastian para o Gastronomika: as lições que aprendi
e os gim tônicas que bebi

Resumo (em espanhol) do Gastronomika 2010 pelo crítico Carlos Maribona 

8.11.11

O novo hotel Intercontinental no Porto: nota dez em elegância

HOTEL INTERCONTINENTAL PORTO - PALÁCIO DAS CARDOSAS


Eu sempre desgostei do estilo normalmente associado a cadeias hoteleiras de luxo: conforto sem sal, sem personalidade; ar corporativo. Sempre preferi me hospedar em hotéis únicos, onde além de luxo eu poderia encontrar personalidade. Um quarto idêntico ao outro, musiquinha de elevador tocando nos ambientes públicos.... nada disso me atrai. No entanto, o mundo tem mudado rapidamente. Cadeias como Mandarin Oriental deram uma guinada e pararam de fazer hotéis “cookie-cutter”, como chamam os americanos – parecidos uns aos outros, tal qual biscoitos da mesma fôrma.

Já falei algumas vezes do melhor exemplo disso, o deslumbrante Mandarin Oriental de Barcelona, em que os arquitetos espanhóis Carles Ferrater e Juan Trias de Bes souberam transformar a antiga sede de um banco, em pleno Paseig de Gracia, em uma obra-prima. Aqui, o link com fotos.

Mas o Mandarin barcelonês não está só. Em uma era em que até a megarede Marriott quer ter seu dia de boutique hotel (e dá-lhe imitadores da estética lançada pelo francês Philippe Starck), mais e mais hotelões de luxo de grandes redes procuram se destacar através do design. Em viagem recente a Nova York, percorri diversos cinco estrelas novos, pesquisando para grande reportagem sobre o tema. Estive, entre outros, no Gansevoort Park Avenue, com atitude papai-quero-ser-cool, e no caríssimo e luxuosíssimo The Chatwal, que pretende abalar os alicerces com suas paredes forradas de camurça e mantas de cashmere. Mas o que me impressionou mesmo, a ponto de literalmente me deixar boquiaberta, foi o Intercontinental perto do Times Square. Sim, isso mesmo: In-ter-con-ti-nen-tal!

E agora, eis-me aqui hospedada em outro Intercontinental lindo, no Porto. Acaba de abrir e, a meu ver, já leva o troféu de melhor hotel da cidade. (E olhem que não estou falando isso porque hospedo-me a convite do Oporto Wine Tourism Forum, mas sim porque fiquei recentemente em dois outros cinco estrelas daqui, o Infante de Sagres e o The Yeatman, então consigo comparar bem...).


entrada do Palácio das Cardosas


Este palácio bem no centro da cidade era, originalmente, o Mosteiro dos Lóios, dos cônegos de S. João Evangelista, uma Ordem detentora de riquíssimas alfaias de ouro e de prata.

Mas as convulsões do princípio do século XIX e a entrada de D. Pedro IV à frente do Exército Libertador, no Porto, ditaram a fuga da Ordem Religiosa que apoiava D. Miguel, abandonando o convento.

O Mosteiro foi comprado por Manuel Cardoso dos Santos, um burguês abastado, com fortuna feita no Brasil. Passado pouco tempo, ele morreu e os seus bens passam para a sua mulher e suas três filhas, conhecidas como as Cardosas, daí o nome “O Palácio das Cardosas”.


Eis que ele ressurgiu em julho como hotel. Ganha o Porto, certamente....

Estou em um quarto "básico" que de "básico" não tem nada...



Gostei, principalmente, da ótima - e GRATIS - internet sem fio; do imenso banheiro; do pé-direito duplo; da curadoria de bom-gosto do minibar, que oferece biscoitinhos caseiros de canela, chocolate com laranja de São Tomé e outras portuguesices boas, além de chás de primeira qualidade, em sachês de tecido.

E gostei de ver, por todo o hotel, espaço abundante: um grande luxo hoje em dia em hoteis modernos.




O café da manhã tem mais portuguesices boas, inclusive pasteis de nata para os overgulosos e meu bolinho favorito, feito com farinha de arroz. NHAM.



Enfim, preciso falar que estou feliz aqui? :)

O Intercontinental jamais poderá competir com as lindas piscinas (uma interna, outra externa) do Yeatman, nem com a deslumbrante vista de que aquele hotel goza. Mas em contrapartida, enquanto o Yeatman está do outro lado do rio, em relativo isolamento, este "palácio" fica no miolo de tudo.



Para mim, se fosse recomendar, saberia facilmente o que dizer. Aos casais querendo passar muito tempo namorando no hotel, indo ao spa, etc, o The Yeatman é a melhor escolha. Para o turista que quer bater perna pela velha cidade, melhor ficar no Intercontinental. E o Infante de Sagres...... hmm... depois falo mais dele!


Palácio das Cardosas

Praça da Liberdade, 25,

+351-22-0035600

6.11.11

Oporto Wine Tourism Forum: preparando minha palestra!


Confesso: sou do tipo que faz loucuras. A última? Voltar de uma viagem pelo Piemonte e por Valência e arredores, refazer a mala e embarcar de volta para a Europa. Mal tive tempo de me reacostumar à casa e já era hora de voltar ao aeroporto. 

Mas ao chegar aqui na belíssima cidade do Porto, a encantadora capital vinícola de Portugal, logo me senti como se as duras horas dentro de diversos aviões tivessem valido a pena. Vim a trabalho: vou dar uma curta palestra na quarta-feira sobre enoturismo, no Oporto Wine Tourism Forum (não me perguntem o porquê, mas o evento tem mesmo o nome em inglês!). O Murakami do Kinoshita é o outro brasileiro que participa dos debates aqui - mix curioso, não? ;)

Eis o principal tema do fórum, segundo seus organizadores:

"Qual o presente e o futuro da atividade do enoturismo? De que modo o vinho e a gastronomia poderão impulsionar o crescimento e afirmação de cidades e regiões? Quais as novas tendências do mercado nesta área? E que casos de sucesso poderão ser tomados de exemplo? É para responder a estas questões que a Associação Comercial do Porto, com o apoio da CCDR-N e do Douro - Estrutura de Missão e produção da Essência do Vinho, decidiu realizar o “Oporto Wine Tourism Forum 2011”, uma jornada internacional que reúne em Portugal algumas das personalidades mais carismáticas dos mundos do turismo, vinho, gastronomia e enoturismo."


Depois conto mais...


No programa do dia 9:

9 NOVEMBRO_quarta-feira_Pátio das Nações

08:30 - 09:00_Receção aos participantes

09:15_Boas-vindas por Ricardo Magalhães, chefe de projeto Estrutura de Missão para o Douro

09:20 - 10:30_Painel 1_O ENOTURISMO COMO POTENCIADOR DE DESTINOS TURÍSTICOS

Moderador
Manuel de Novaes Cabral, representação da Câmara Municipal do Porto na Great Wine Capitals, Portugal

Oradores
Catherine Leparmentier, secretária-geral da Great Wine Capitals Global Network, França
Clay Gregory, presidente e CEO da Napa Valley Destination Council, EUA
Luísa Amorim, diretora-geral e executiva da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Portugal


10:30_Debate

11:20 - 12:30_Painel 2_O TURISMO GASTRONÓMICO

Moderador
Duarte Calvão, consultor gastronómico e diretor do “Peixe em Lisboa”, Portugal

Oradores
José Bento dos Santos, presidente da Academia Internacional de Gastronomia, Portugal
Tsuyoshi Murakami, chefe de cozinha "Kinoshita", Brasil
Luís Baena, chefe de cozinha "Manifesto", Portugal
Miguel Júdice, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, portugal

Um pequeno parêntese: para quem perdeu, eis um repeteco do Murakami cantando em plena cozinha do restaurante El Bulli. Surreal!


  


à tarde, seguirão com.....


15:00 - 16:10_Painel 3_A VISÃO DA IMPRENSA ESPECIALIZADA - A GASTRONOMIA E O VINHO COMO MOTIVOS DE VIAGENS

Moderador
Luís Costa, subdiretor de informação da RTP e editor da revista "WINE - A Essência do Vinho", Portugal

Oradores
José Peñin, crítico de vinhos e autor do “Guia Penin”, Espanha
Alexandra Forbes, editora de gastronomia da "GQ Brasil", colaboradora na publicação "Folha de São Paulo", Brasil / Canadá
Rui Falcão, crítico de vinhos da "WINE – A Essência do Vinho", Portugal
16:10_Debate

E mais Porto e Douro:

O Vale do Douro e o valor das amizades: minha visita a quintas e hotéis
A nababesca Quinta da Romaneira: fotos de uma estadia inesquecível - na GQ
O Vale do Douro em 20 imagens: de chorar por mais - na GQ

29.10.11

Comendo em Turim e Valência: a coluna do Comida desta semana


Chuva de trufas sobre o estupendo talharim servido
no restaurante Vintage, em Turim


Ando sumida, eu sei, e peço desculpas. Mas não tem sido fácil a) achar conexão à web que preste pelos vilarejos do Piemonte e b) descolar algumas horas para blogar entre um banquete e outro.

Estou comendo pela Europa, em itinerário pouco convencional. Resolvi casar, na mesma viagem, Piemonte e Valência (além da pequenina Denia, mais ao sul, onde fica o restaurante do Quique Dacosta).

Logo mais começarei a contar das comilanças. Por enquanto, divido aqui minha coluna desta quinta-feira no caderno COMIDA da Folha:

Sou uma 'gastrovictim'



Sou dessas loucas obcecadas, que cruza oceanos para passar cinco horas sentada comendo

ESTOU DE partida ao Piemonte. Para quê? Comer e beber, claro: é época de trufas brancas, especialidade local. Pouco sei sobre a história de Turim, mas pesquisei longamente os restaurantes da cidade e arredores. Almoços e jantares estão marcados: quatro dias de comilança me esperam. Dali, pegarei horas de trem até Denia, ao sul de Valência, para provar o menu-degustação de um dos maiores chefs do mundo, Quique Dacosta. Conto as horas.
Sou dessas loucas obcecadas, do tipo que cruza oceanos para passar até cinco horas sentada comendo -e ainda acha bom. Mas que ninguém pense que só jornalistas cometem tais exageros. Parece crescer o número de gente que viaja expressamente para comer. Vários paulistanos vão ao Piemonte anualmente, como peregrinos a Meca.
Certo produtor de TV viajou a Chicago, onde achou que encontraria o nirvana gastronômico. Depois de uma noite "inesquecível" no Next, do chef Grant Achatz, escreveu-me emocionado agradecendo a dica. Há ainda o A., que de tanto ir ao Noma, em Copenhague, ficou amigo do chef René Redzepi e engatou namoro com a chef-patissière!
Se turistas normais orientam-se usando o "Lonely Planet", "gastrovictims" consultam o guia "Michelin". Parte da graça está em discordar de cotações e estrelas com conhecimento de causa. Em comum, têm o fervor dos devotos, que não se abala pelas refeições intermináveis ou eventual indigestão.
Quiçá o mais extremo "gastrovictim" que já vi, um certo "Cesare Goloso", de São Paulo, acaba de voltar de maratona gourmet com paradas nas melhores mesas da Europa: El Celler de Can Roca, Dos Cielos, Arzak e Quique Dacosta (duas vezes!), na Espanha; Gambero Rosso e Piazza Duomo, na Itália, entre muitos mais. Atacou a missão como guerreiro: antes da viagem, comeu regradamente e passou uns dias no spa "fazendo uma reserva negativa". Trocou e-mails com restaurantes, anotando as reservas no itinerário-tabela. Quando lhe perguntavam se tinha alguma alergia alimentar, respondia: "só à comida ruim".

ALEXANDRA FORBES, jornalista gastronômica e foodtrotter, conta de suas andanças e comilanças também no Twitter (@aleforbes)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...