23.9.11

Chef Paco Roncero, do Estado Puro, de Madri, em entrevista


Já faz algum tempo que você começou a dar às tapas lugar de honra. Inclusive, já escreveu três livros sobre o tema e abriu um restaurante em Madri, o Estado Puro, dedicado a elas. Agora, as tapas contemporâneas estão virando moda – recentemente, chefs como Quique Dacosta e os irmãos Adrià abriram restaurantes de tapas, por exemplo. Você se considera precursor de uma tendência?
Sim, realmente fui um dos primeiros a começar um gastrobar. Inclusive agora estou abrindo meu segundo gastrobar, com o mesmo estilo de decoração, mas servindo tapas super tradicionais.

Há maior mérito em comandar um restaurante três estrelas Michelin do que um restaurante de tapas?
É diferente e as duas coisas têm muito valor.

O que acha dos restaurantes que, por servirem pequenas porções e pratos para compartilhar, dizem serem especializados em tapas? Trata-se de um termo que se refere a um modo de comer exclusivamente espanhol ou pode ser aplicado a qualquer menu de pequenas porções?
O termo se aplica ao ato de comer em pequenas porções. Mas é verdade que quando se fala de tapas na Espanha refere-se a um modo de vida e não só de pequenas porções.

O restaurante do Casino de Madrid funciona, há anos, como um lugar onde se podem provar pratos icônicos criados pelos irmãos Adrià, no El Bulli. No entanto, o chef-executivo é você. Quem vai comer ali deve esperar uma experiência mais para El Bulli ou para Paco Roncero, e porquê?
Quem vai ao restaurante encontra uma experiência de Paco Roncero, mas baseada na filosofia e nos conceitos do mestre Ferran Adrià, com quem trabalho há mais de 12 anos.

Se tivesse que recomendar endereços em Madri além de seu bar de tapas (Estado Puro) e do restaurante do Casino de Madrid, quais seriam?
O restaurante Europa Deco, no hotel Urban, e a cozinha de Ramon Freixa, no hotel Selenza.

Estado Puro: Plaza Cánovas del Castillo, 4, Tel. 91 330-2400

Os melhores restaurantes de Cingapura: quem indica?

Linda matéria sobre Cingapura na revisa Silverkris, da Singapore Airlines


Das coisas mais gratificantes do mundo, minha frequente troca com os leitores enriquece os dois lados. Esta semana, por exemplo, recebi email da Anna Bárbara:

Olá Alexandra,
Sou sua fã!! Adoro os seus textos e sigo o Boa Vida já faz algum tempo.
Na última fez que fui para Nova York segui os seus conselhos e aproveitei demais!! Adorei tudo, principalmente a Bowery.
Agora estou indo para o Sudeste Asiático e pensei que talvez vc poderia me indicar alguns restaurantes interessantes.
Em Singapura, pensei em visitar o Sky on 57 do Chef Justin Quek. Em Hong Kong pensei em visitar o elogiado Joel Robuchon, que deixei passar nas vezes que fui a Paris, Londres e NYC. Mas estou na dúvida se, por estar na Ásia, deveria buscar restaurantes de Chefs locais. Pensei tb no Amber que integra a lista dos melhores 50 restaurantes do mundo. Também vou para Bali, mas ainda não procurei dicas de restaurantes...
O que vc acha? Pode me ajudar??
Desde já, muito muito obrigada!!
Bjs, Anna Bárbara
www.nosnomundo.com.br
A má notícia: não entendo nada de Ásia, Anna, e nunca fui (infelizmente!) a Cingapura.

A boa notícia: acho que os leitores do Boa Vida poderão ajudar - gente, por favor, alguém pode dar recomendações? - , e tenho também umas dicas de sites confiáveis onde você pode pegar boas dicas.

Lá vai:

E-Gullet - No fórum específico sobre gastronomia do Sudeste Asiático do portal e-gullet, viajantes gourmets trocam valiosas dicas e impressões. De modo geral, os internautas que frequentam esse site entendem muito do assunto. Eu faço parte do e-gullet há muitos anos e o site já me foi super útil em diversas ocasiões. Poste suas dúvidas aqui nesta página e comprove!


Site da revisa Silverkris, da Singapore Airlines (da qual sou colaboradora). As edições passadas podem ser folheadas gratuitamente e dá para achar muita coisa bacana. Em agosto, por exemplo, deram uma linda matéria sobre Cingapura, veja neste link.

Portal Your Singapore, com endereços e telefones de todos os restaurantes


Matéria sobre os melhores bairros de Cingapura (em inglês)


Posts de Cingapura da jornalista Adriana Setti

Posts de Cingapura no portal Viaje na Viagem, do Riq Freire

18.9.11

Chef Magnus Nilsson, do Faviken, e o limite que separa o bom do podre







Coluna de quinta passada no Folha Comida...

Há algo de podre no reino da cozinha



Sempre ignorei a data de validade dos queijos; aquilo é algo vivo, que amadurece e muda de gosto a cada dia



Certa noite do ano passado, nos confins da Lapônia, sentei-me ao pé de uma lareira com um laptop para ouvir Magnus Nilsson explicar sua cozinha. Ao descrever em detalhes as fotos dos belos e singelos pratos que serve em seu restaurante Faviken, no noroeste da Suécia, o jovem chef me abriu os olhos.
Foi uma epifania: ele falou de embutidos curtidos por um ano; de alhos-porós armazenados em vidros no porão, em leve salmoura, servidos depois de atingirem um tom verde-oliva; de vaca em conserva.
Contou que serve uma entrada feita daqueles brotos que surgem em tubérculos guardados por muito tempo, que eu sempre achara repugnantes. Descreveu como transforma uma cabeça de repolho aparentemente podre em uma joia, descartando as camadas externas.
Naquela noite, ele forçou-me a ver o que deveria ser óbvio. Como no mundo dos queijos artesanais, fungos e podridões podem ser domados e postos a trabalhar em favor dos bons sabores.
Ao explorar a última fronteira entre o comestível e o roto, Nilsson mostra o quão vasta é a paleta de matizes de um mesmo ingrediente.
Tailandês deixa peixe fermentar para fazer dele seu condimento favorito. Mexicano põe fungo de milho (huitlacloche) em seu taco.
O prato emblemático do português é o bacalhau que, uma vez seco e salgado, desenvolve forte cheiro de "podridão peixosa".
No Norte, fazemos o mesmo com o pirarucu, sem falar que brasileiro não vive sem sua carne maturada.
Sempre ignorei a data de validade dos queijos. Aquilo é algo vivo, que vai amadurecendo e mudando de gosto a cada dia, a cada hora, tomando rumo conforme a embalagem, a temperatura, a luz.
O dinamarquês René Redzepi, que hoje já dispensa apresentações, tira cenouras da terra depois de mais de um ano para servi-las no Noma. Uma revelação!
A partir do momento em que se entende e se estica a longevidade de um ingrediente, ele se torna uma caixa de surpresas, um complexo universo a ser explorado.




E mais sobre Magnus Nilsson, neste link

17.9.11

Resposta aos peruanos: Mistura, Gastón Acurio e o que escrevi na Folha

Anticuchos de coração de vaca, no Mistura, em Lima


Levar pedrada faz parte de meu trabalho e não é a primeira vez que acontece. Mas confesso que desta vez impressionei-me com a quantidade de peruanos que escreveram por aí - em cartas à Folha, em comentários neste e em outros blogs, no Twitter, etc. - reclamando de coluna que escrevi para o Folha Comida de umas semanas atrás.

Se não fui direto ao ponto antes, foi pura e simplesmente por uma questão de prioridades e fala de tempo. Fui a Lima para trabalhar, comer, falar com chefs, reportar. E não podia deixar de testemunhar coisas importantes, que não se repetiriam, ou de provar pratos do chef y ou z, para dedicar o pouco tempo que tinha em Lima a controvérsias.




Melhor dizendo: não me pronunciei neste espaço, porém dei entrevista ao jornal peruano El Comercio em que já deixo claro - no mais pavoroso portunhol e com profundas olheiras! - o que penso de Gastón Acurio e dos rumos da gastronomia peruana.

Agora, de volta a casa, posso dar maiores esclarecimentos aos meus leitores, na minha língua - sempre mais fácil, não é?

Creio que meu erro tenha sido o uso da palavra paiseco, que para mim não tem um significado  pejorativo como tem para muitos. Por isso, peço desculpas a todos que se sentiram insultados.

Ferran Adrià, de cinza, e Gastón Acurio, à sua esq. andando pela feira Mistura


Mas qualquer leitor atento verá, ao ler o texto até o fim, que eu queria apenas dizer que em certas coisas, como por exemplo, tamanho geográfico, o Peru é menor do que o Brasil. Bem menor. Mas que em outros aspectos, é maior.

As chefs Morena Leite e Flávia Quaresma no Mistura

O Peru, afinal de contas, conseguiu fazer grandíssimos avanços na esfera gastronômica. Para mim, e para muitos, trata-se de um pequeno gigante, que - espero! - servirá para dar um exemplo ao Brasil, onde brasilidade e conhecimento e valorização de produtos nativos ainda são um papo que alcança apenas a elite. O brasileiro médio acha que açaí só é aquela coisa roxa geladinha que surfista come com granola. O brasileiro médio não tem ideia do que sejam tucupi, xibé, arroz de cuxá, pequi. Ainda engatinhamos, enquanto o Peru navega de vento em popa rumo ao reconhecimento internacional porque seu povo entende mais da sua própria cozinha.



Disse isso, em outras palavras, na Folha:

"Taí o porquê da ascenção dos peruanos: todos jogam no time de Acúrio para forjar a imagem do Peru
 gastronômico. Restaurantes típicos abundam. Taxistas e lojistas conhecem a herança à
mesa e orgulham-se dela. O governo investe. E aqui?

Assisti uma palestra do fotógrafo Pedro Martinelli, em evento gourmet em São Paulo. Clamou
 emocionado pela preservação das tradições indígenas de trato da mandioca, mas não havia
 mais do que 20 pessoas na plateia. Nossos fóruns gastronômicos custam caro e falam para poucos.

Já o Mistura, em Lima, orquestrado por Acúrio, deverá atrair cerca de 300 mil visitantes em setembro.
Famosos como Alex Atala, René Redzepi e Ferran Adrià darão aulas e assinarão um manifesto.
Será grande o impacto. Não só por estar ali a nata dos chefs estrelados mas também por se
 tratar de uma feira vasta, democrática e farta em comidas, feita pelo povo e para o povo.

Esse Peru exuberante, exótico e exibido rodará o mundo em imagens enquanto assistimos de camarote."








A coluna era, em suma, uma crítica ao MEU país, e não ao Peru. Era meu modo de expressar uma vontade de que MEU povo apreciasse mais sua herança culinária, como faz o povo peruano. Que o governo ajudasse, facilitando a vinda de jornalistas gastronômicos ao Brasil, e a participação em fóruns internacionais dos nossos chefs - sem esse intercâmbio, a coisa jamais pegará embalo. E que os eventos gastronômicos do Brasil fossem inclusivos, democráticos e impactantes como o Mistura.

Onde havia um elogio, enxergou-se uma crítica. Eis aí a pena.



Que deixemos de lado picuinhas e vejamos o positivo: hoje avança o Peru, avança o Brasil e avança a gastronomia sul-americana. E ponto!



E mais Mistura e Gastón Acurio neste blog:

E mais:
Passeio virtual pelo Mistura: série de vídeos dos vendedores de comidas feita pelo jornal peruano El Comercio
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