9.9.10

Noma: Time and Place in Nordic Cuisine, de René Redzepi, sai em outubro pela Phaidon


Chef René Redzepi na Finlândia

O difícil de ter um blog é ter vontade de contar tudo o que eu vejo, mas... não poder.

Não posso falar muito, por exemplo, do incrível banquete de encerramento do Cook it Raw, na última segunda-feira na Lapônia (norte da Finlândia). Afinal de contas, se eu falar estrago a surpresa: pretendo conseguir algumas das receitas para acompanhar a matéria sobre o evento, que irá sair na Prazeres da Mesa.

Mas algumas fofoquinhas de bastidores, como a curiosa história de como foi que eu consegui ler em primeira mão o livro novo do Noma, dá pra contar.

Aconteceu o seguinte, no último dia do Cook it Raw: os organizadores proibiram os jornalistas de passarem o dia na fazendinha onde os chefs estavam. Os chefs precisavam se concentrar, precisavam de paz e espaço e distância dos flashes e gravadores.

Mas..... como assim?! Quase morri de desapontamento. Pô, a parte mais legal! Os chefs em ação! A mise en place, as dúvidas de que caminho tomar com certa receita, acertadas a meio caminho; os brainstorms... não queria perder aquilo de modo algum.



Estava eu com um bando de gente em um reindeer killing (fazendeiros mostrando como se faz o abate de renas, bem surreal, deram um tiro de pistola na testa do bicho!).

E então eis que surge o Mattias, o food writer bacaníssimo de quem falei no último post e me diz: "pshhht! Alex! D'you want to come with me to see the chefs cooking?"

Óbvio que sim! Eu já estava farta das atividades em grupo e tinha muita pressa de achar um lugar quieto onde eu pudesse ler um certo livro....

Entramos quietinhos numa van e dez minutos depois... pimba! Chegamos na fazenda do banquete, praticamente ao mesmo tempo que os chefs. Alegria! Fiquei dando umas passeadas pelos fundos da cozinha, vendo os ingredientes, fazendo perguntas, cheirando isso, experimentando aquilo.

Vi e ouvi coisas interessantíssimas (aguardem a reportagem da Prazeres!).



Aí chegou uma hora que o Mattias resolveu ir embora e eu sobrei lá com os chefs. Um homão nórdico surgiu do nada e me disse: "Venha comigo, você deve estar cansada". Peguei minha tralha e segui os passos dele, até uma casona bem rústica a 50 passos da cozinha dos chefs. Era uma espécie de chalé de madeira, sem placa na porta. Entramos. Não havia viv'alma. Simpático salão alpino com lareira, piso e paredes revestidos de madeira clara, cortininhas rendadas.

Eu tinha ido dormir as 5h30 da manhã. Quase não me aguentava mais de pé. O homem disse apenas:

"Descanse quanto tempo quiser, temos camas, banheiros, tudo o que você precisar".

E foi embora.

Fui andando por um corredor que dava para vários quartinhos fofos, bem simples mas acolhedores. Deveria ser uma hospedaria, decerto.



Mas porque tão deserta? Ao final, uma salona de massagens com várias macas e toalhas e creminhos e um robe.

Escolhi um dos quartos. Tirei a roupa, vesti o robe da massagem. E aí tirei da mochila um tesouro que tinha descolado no dia anterior, com muito jeitinho: o número zero do livro novo do René Redzepi, chamado NOMA, Time and Place in Nordic Cuisine. Poder ler aquilo em primeira mão... que sorte! 



Esse livro, vocês vão ver, vai ser notícia no mundo todo, logo mais. Sai em outubro. Aquele na minha mochila era o exemplar pessoal do René que... ele emprestou pra mim! Essa seria minha única chance de lê-lo. Enfiei-me debaixo das cobertas e li.



E li.

E li mais, até o fim.

Que coisa incrível foi aquilo.

Chefs Claude Bosi (à esq.) e René Redzepi
rodeando meu chalé


Os prados finlandeses à minha volta, o chef René Redzepi passeando lá fora, colhendo ervas, preparando-se para o banquete... realmente jamais poderia haver melhor lugar ou hora para mergulhar no fantástico mundo do Noma. Ao virar as últimas páginas as pálpebras pesavam, e entreguei-me ao sono.

Acordei três horas mais tarde com o ruído de gente passando do lado de fora do chalé. Olhei pela janela e vi um entardecer absolutamente mágico e dourado, os azuis e os verdes encharcados de cor.



Temendo perder valiosas horas na cozinha dos chefs, levantei correndo, tomei um banho rápido e voltei ao trabalho, com o livro debaixo do braço (mas não sem antes fotografar umas páginas.....).

Meia hora depois, a Emilia Terragni, editora da Phaidon, me achou e pediu o livro de volta. Ufa! Ainda bem que eu tinha lido ele todo!

Naquele fim de tarde eu senti que meu anjo da guarda estava ao meu lado: um cenário saído de uma pintura de museu, os chefs perambulando soltos, longe da habitual "entourage", uma hospedaria inteira só pra mim, valiosas horas de paz e silêncio para ler o livro de cozinha mais aguardado do ano....


Life was good, very good.





E pra quem quiser saber mais sobre o livro NOMA, Time and Place in Nordic Cuisine.... infos tiradas do site da Phaidon:


  • An exclusive look at one of the most interesting restaurants in the world, Noma, and its influential head chef René Redzepi (b.1978)
  • Includes over 90 recipes, each created by Redzepi and served at Noma
  • Reveals the philosophy and processes behind the two-Michelin-starred Copenhagen restaurant
  • Details Redzepi’s reinvention of Nordic cuisine, his obsession with fresh and local produce from across Scandinavia, his continuous search for new ingredients and his never-ending experimentation
  • Over 200 specially commissioned photographs showing finished dishes, the local ingredients, the restaurant’s suppliers and the inspiring Nordic landscape
  • With an introduction by the artist Olafur Eliasson






Fechamento do El Bulli na revista Vanity Fair de outubro

“It reminds me of how I felt when I heard the Beatles were breaking up”, diz a matéria da Vanity Fair.

Amém, digo eu.

Link para o texto na íntegra no site Vanityfair.com. 

A matéria revela, entre outras coisas, o lançamento na semana que vem da biografia "Ferran: The Inside Story of El Bulli and the Man Who Reinvented Food", escrita por Colman Andrew.



8.9.10

Cook it Raw na Lapônia, e René Redzepi: reflexões inteligentes de um jornalista

Chef Petter Nilsson sendo filmado pelos cinegrafistas do Cook it Raw



Chefs corriam atrás de ingredientes e cozinhavam. Organizadores organizavam. Cinegrafistas rodeavam como moscas e atrapalhavam o trabalho dos outros.

E os jornalistas?

Que faziam os jornalistas no Cook it Raw?

Traduziam. Literamente, já que aquilo era uma torre de Babel, mas além disso, figuradamente. Procuravam explicar a eles próprios e ao público de fora em que diabo de fim de mundo tínhamos ido parar, e porque.

Mattias Kroon grelhando bacon à espera dos chefs

Sem dúvida alguma, voltei da Lapônia com um grande tesouro: amizades súbitas com jornalistas do primeiríssimo escalão. Um de meus favoritos chama-se Mattias Kroon e entende como poucos de gastronomia nórdica. Fui caçar patos com ele, e os chefs Alex Atala e Magnus Nilsson, numa tarde fria porém luminosa. Eis os caçadores:





Enquanto os chefs exploravam cantos protegidos do rio em busca de algo em que atirar, fiquei horas com Mattias ao redor de uma fogueira improvisada, grelhamos bacon e embutido de rena, e discutimos - que mais? - gastronomia.

 


A grande pena é eu não poder ler nada do que ele escreve (na revista Mat & Vanner), como o recente perfil de René Redzepi. Em compensação, Mattias fala inglês perfeito e soube resumir, como poucos, o espírito do Cook it Raw. Vejam neste vídeo, feito lá mesmo pela adorável Kim McLoughlin, outra jornalista de quem fiquei amiga:







E aqui, link para meu álbum de fotos do Cook it Raw!

Chef Albert Adrià no evento Cook it Raw: o privilégio de ver um gênio em ação


O bom deste blog é que não preciso explicar muita coisa: vocês já sabem que eu passei esta última semana na Finlândia, e também sabem o porquê, certo? (Quem pegou o bonde andando pode ler este último post para entender melhor....)

Pois acabei de chegar em casa (Lapônia-Helsinki-Frankfurt-Montreal-UFA!) e ainda me sinto vendo estrelas - com o perdão do trocadilho. Exausta, sem dormir direito há dias, mas... feliz. Aos poucos, vou contando o que eu vi lá no Cook it Raw, o happening que me fez viajar até a Lapônia (!). Mas por enquanto, vou mostrar só um pouquinho do que fez esses dias serem tão mágicos.

O Cook it Raw é uma espécie de acampamento de luxo em que chefs ultrafamosos vão ao mato colher coisas, caçar e pescar, e falar de comida. Tem como ápice o último jantar, em que eles mostram, através dos pratos criados, o que puderam tirar não só do terroir como da convivência intensa com os outros chefs.

Nessas, tive o privilégio de acompanhar passo-a-passo a criação da sobremesa que o grande Albert Adrià serviu no banquete de encerramento do Cook it Raw e só posso dizer o seguinte: minhanossasenhora!

Concluí que ele, simpatissíssimo, sorridente e modesto, esconde, por trás do jeito de menino de férias, um talento assustador que o eleva, simplesmente, a um patamar vários níveis acima de qualquer outro chef que lá estava.

Ele batia papo, jogava bola (e bem!) e participava de tudo, mas a verdade é que ele não se permitiu perder o foco.

Por mais rústico e primal que fossem o banquete e o entorno, Adrià serviu-nos uma obra-prima. A única obra-prima da noite, atrevo-me a dizer.

Por baixo de uma "neve" quase etérea achávamos -, assim como um camponês o faria em uma caminhada no bosque invernal se cavasse com as mãos alguns centímetros -  elementos do chão da floresta. Um berry típico (lingonberry, bolotinha vermelho-brilhante). Terra molhada e esponjosa. Folhinhas. Pedriscos arenosos, em forma de gergelim ligeiramente cristalizado.

Branco e rubi.

Neve e sangue.

Virgindade e brutalidade.

Vida e morte.

Albert disse-me várias vezes fazer coisas simples, ao ponto de eu achar ser a "sencillez" seu lema pessoal. Mas na verdade, a simplicidade está na cabeça dele. A mensagem dele era simples, sim. A limpeza dos sabores era simples. Mas o conjunto da obra não poderia ser mais complexo.

Bom, chega de falar - eu quero é MOS-TRAR! Presentinho que fiz pra vocês no voo de volta: um filme que mostra tudo o que eu pude captar do passo-a-passo.







E pra encerrar, umas fotinhos péssimas da baladinha pós-jantar: rolou até embaixada do senhor Albert em pleno salão.... :)


E aqui, link para meu álbum de fotos do Cook it Raw!
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