Se eu contasse para minha irmã quantos hotéis andam abrindo em Londres – onde ela mora – de bate-pronto, ela responderia: “it’s the Olympics, stupid”.
Savoy, Four Seasons, etc etc etc.
De fato, só pode ser isso mesmo: as Olimpíadas 2012 impulsionando as inaugurações. O fato é que nunca vi tantos hotéis abrindo em Londres na mesma época. Uma verdadeira enxurrada!
O último da leva? O lindinho Corinthia, com pinceladas de verde-ervilha, chique, de frente para a roda-gigante London Eye.
Vi as fotos. Gostei muito. Agora, resta fazer o test-drive!
chef Vitor Sobral, estrela-mór da cozinha portuguesa
Recebi agora cedo um email que me chamou a atenção. Acontece, no fim deste mês em Lisboa, um fórum gastronômico organizado pela ACPP - Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal. E entre um evento e outro, marcaram para o meio dia do 29 de março um "debate" descrito assim:
"A crítica Gastronómica em Portugal” - Manuel Gonçalves da Silva, José
Avillez e Vitor Sobral (Aprox. 30 min)"
Trinta minutos?! Ora.... isso não vai dar nem para o cheiro! Se gastarem dez minutos apresentando os chefs - que são as duas maiores estrelas de Portugal - sobrarão vinte para tratar de tema dos mais espinhosos. Primeiro, duvido que Avillez ou Sobral tenham vontade de dizer o que realmente pensam sobre nós críticos. Segundo, se quisessem dizê-lo, certamente precisariam de mais do que alguns minutos!
Quem conduzirá o bate-papo será o crítico gastronômico Manuel Gonçalves da Silva. Ele começou no jornal Diário Popular no ano em que eu nasci. Ou seja: experiência não lhe falta. Entre muitos outros trabalhos, escreveu sobre gastronomia para Casa Claudia, Exame e Visão, além do guia de restaurantes Repsol.
Chef José Avillez
Sem querer desmerecer o nobre objetivo de levantar a questão sempre tão controvertida do papel e da valia do crítico, atrevo-me a dizer que muito do que pensa o Manuel já foi dito no ótimo fórum online português Nova Crítica-Vinho, onde ele escreveu o seguinte:
"Hoje escreve-se muito, em todo o lado, mas quase sempre mal, porque em mau português e de um modo geral sem uma abordagem séria das questões. O restaurante é apresentado como um lugar mais ou menos da moda, onde o desgin corresponde ao perfil da clientela e a comida também, seja isso o que for. Há outra escrita, feita por bons profissionais do jornalismo e da gastronomia, mesmo sendo embora autodidactas nesta matéria – José Quitério, David Lopes Ramos, Duarte Calvão e pouco mais – que assinam textos substanciais. Posto isto, direi: ainda bem que há tudo isso. O leitor dispõe agora de informação, cuja qualidade lhe compete avaliar. A grande diferença em relação ao passado recente é a informação disponível, parte da qual irrelevante, é certo, mas alguma com categoria. As pessoas aprenderão, com o tempo a escolher o trigo do joio.
Fragilidades, no jornalismo gastronómico e na crítica gastronómica, há muitas. Estes géneros do jornalismo são considerados menores. Raramente têm espaço próprio a que seja dado o devido relevo e quase nunca são exercidos em exclusividade. Por outro lado, da parte de quem de quem escreve nota-se a falta de contacto estreito com a realidade – o mundo da cozinha e da restauração –, a superficialidade da análise (pelo motivos anteriores, ou seja, as limitações do espaço, conjugadas com o insuficiente conhecimento da realidade) e alguma imprecisão ao nível dos conceitos em textos que, ora são meramente descritivos, ora críticos.
Obviamente, o jornalismo gastronómico não tem a importância que devia ter! Nem de perto, nem de longe. E não admira. Quantos decisores ou responsáveis dos Órgãos de Comunicação Social sabem comer? Repare-se neles quando vão aos restaurantes: onde é que vão, como é que estão e o que é que comem? Reflexos do tal problemazito cultural…"
Eu discordo de algumas coisas ditas pelo Manuel, a começar pela afirmação de que o jornalismo gastronômico é considerado menor. Era, Manuel, era.... Hoje, já não - pelo contrário, os críticos ganharam uma força tremenda com a disseminação da internet.
Tem gente cujo bom gosto é tão óbvio que eu nem titubeio ao receber alguma dica: confio cegamente. É o caso da linda jornalista Kim McLoughlin, super entendida de gastronomia, que conheci na Finlândia no ano passado. Ela tem um portal chamado Red Visitor repleto de dicas de viagem (em inglês) que eu vivo consultado para saber as últimas.
Ontem, li ali sobre um novo restaurante em Nova York que anda super badalado, chamado The Lion. Pela descrição, me pareceu ser a versão 2011 do The Waverly Inn, que foi a coqueluche de 2008. Na época, descrevi o Waverly assim:
Se na sua próxima ida a Nova York você conseguir uma mesa no pequenino restaurante The Waverly Inn, considere-se importante. Desde os anos 70, quando todo o who’s who jantava no lendário Elaine’s, não se via um lugar tão exclusivo. Sequer número de telefone tem, para afastar os zé-ninguéns. O fenômeno é tal que mereceu matéria no The New York Times: “Em qualquer noite o restaurante recebe uma combinação de bilionários, estrelas de cinema, intelectuais e estilistas, e quiçá um astro de rock ou lenda do esporte.” Por trás do restaurante está o jornalista Graydon Carter, diretor de redação da Vanity Fair.
Não sei se o The Lion vai chegar a tanto, mas os elementos em comum são muitos. Ambos ficam no Village. Ambos homenageiam clássicos americanos no menu (hambúrguer, cheesecake, etc) e também no décor. Ambos têm arte muito boa nas paredes (no caso do The Lion, quadros de Basquiat e fotos de David La Chapelle). Ambos privilegiam a clientela famosa e vip sem pedir desculpas – no caso do The Lion, os reles mortais comem no porão, enquanto a sala de jantar mais bonita fica reservada só para aqueles-que-não-querem-ser-vistos.
The Lion – No.62. West 9th Street, West Village, tel. 1 (212) 353 8400
Apesar da fama de francesinha das Américas, o que Montréal tem de melhor não são apenas os restaurantes afrancesados, mas também os portugueses. Frango grelhado nota mil no Chez Doval, cozinha tradicional e generosa na Casa Minhota e, para aquelas noites mais especiais, o Ferreira Café.
Às vezes, para explicar o Ferreira Café, acabo comparando-o ao Antiquarius mas na verdade… o lugar não é bem como o Antiquarius paulistano, que anda meio caidinho. O restaurante tem em comum com o Antiquarius do Rio, aí sim, o fato de serem considerados os melhores portugueses de suas respectivas cidades (embora uma amiga tenha me contado que o bacalhau do Antiquarius carioca também já viu dias melhores).
Embora seja portuguesíssimo, o Ferreira tem uma vibe que lembra mais um Gero: homens de negócios, gente conhecida, etc. Música alta, escurinho, uma ou outra beleza bebericando um vinho no bar à espera do namorado. Ah, sim: o Ferreira tem também garçonetes très mignonnes sempre de vestidinho curto e justo, como gostam os… homens de negócios.
A cozinha não tem grandes pretensões mas é sempre boa. O chef açoriano sabe grelhar sardinha sem deixar passar do ponto; realçar um bacalhau com uma redução de Porto, dar cara nova a clássicos portugueses, rejuvenescidos. A melhor sobremesa que já provei lá? Bolinho de figo com sorvete de batata doce e especiarias casado com um senhor porto Tawny da Quinta do Vallado.
O melhor prato? Caldeirada de arroz e frutos do mar repleta de nacos suculentos de lagosta:
Até o pastel de nata vem à mesa vestido para festa, uma metade montada sobre a outra, quenelle de sorvete ao lado. Mas, confesso, eu prefiro meu pastel de nata sem nada “para atrapalhar”….
O dono do lugar, lógico, é portuguesíssimo: Carlos Ferreira é praticamente o embaixador de Portugal neste país:
Já fui n vezes ao Ferreira. Por que falar dele hoje? Porque uma super chef brasileira, a Roberta Sudbrack, do restaurante homônimo, cozinhou lá na semana passada, como parte do importante Highlights Festival, que este ano homenageia as mulheres (chefs, vinicultoras, sommelières, etc).
Estive lá para o jantar - lógico! - e comi como rainha. Era especialmente de lamber os dedos (sim, porque comi com a mão) esse canudinho super crocante recheado de maçãs assadas, que era para ser passado no molho de caremelo e na "farofa" de pistache que vinham junto. Nham!
Vejam minha reportagem com ela, quando fomos às compras pelos mercados de Montréal:
O Festival, agora já foi…. Resta guardar a dica do Ferreira Café, para a próxima vinda a Montréal!