30.6.12

Dois dias incríveis com Ernie Loosen, o melhor produtor de rieslings da Alemanha





Há certos momentos na vida em que dou graças a Deus por ser jornalista.

Um desses momentos aconteceu ontem, quando um motorista veio buscar meu grupo e eu em Strasburgo para nos trazer até Bernkastle. A lindíssima e pequenina e turística Bernkastle, coração da zona vinhateira do vale do rio Mosel.

Ao longo da longa estrada - que trânsito! que chuva chata! - fomos descobrindo que o motorista não era bem um motorista. Na verdade, Michael Stahlmann é um sommelier com mais de 20 anos de experiência, que trabalhava em um dois estrelas Michelin até ser capturado por Ernst Loosen. E quem é Loosen? Cultuado no mundo do vinho, eleito homem do ano pela revista Decanter em 2005, Ernie faz em sua vinícola Dr. Loosen alguns dos melhores brancos do mundo.



A casa de Ernst Loosen, nos arredores de Bernkastle



Aí vem a segunda parte do momento ultra-mega-especial: Michael, que nós, em código, chamávamos de Fritz, nos levou até o casarão onde mora o "Ernie" Loosen (onde moravam também seus pais, avós e bisavós).

Além de ser importantíssima figura no mundo do vinho (ou apesar disso), ele recebe com impressionantes humildade, carisma e descontração. Em outras palavras, o cara é um figura como raramente vemos, do tipo que faz a gente não ter vontade de levantar da mesa de jantar nunca mais.



Michael, vulgo Fritz: eficiência a toda prova


Voltando ao Mikael, vulgo Fritz: além de explicar super bem os vinhos da região, ele também… ajuda na cozinha! Funcionário multiuso e um tanto peculiar.

Ernie Loosen salteando as primeiras chanterelles da temporada


Mas quem estava no comando do fogão era o próprio Ernie que, descobri então, é um ás na cozinha. Salteou chanterelles (dali pertinho, as primeiras da estação), coroou o consommé frio de rabada com crème fraiche e caviar, etc. Apesar de ter sido criado em berço de ouro, e de vir de uma das famílias mais ricas dessa parte da Alemanha, Ernie odeia frescuras e faz tudo sem ajuda de empregadas.


Mesa chez Ernst Loosen
Michael a postos, ao fundo, enquanto Rodrigo ouve Ernie contar causos



À sua maneira, germanicamente eficiente, Fritz servia os pratos e os vinhos e cuidava de cada detalhe enquanto bebíamos e nos deleitávamos com as histórias que Ernie ia contando.




Grandíssimo cara, grandíssimos vinhos.




Ernie Loosen mostrando um de seus vários vinhedos
Na manhã seguinte, Fritz nos levou até a casa de Ernie e de lá o winemaker-mais-divertido-do-planeta dirigiu até alguns de seus vinhedos, por estradinhas que cortavam as pirambeiras, explicando tudo da maneira mais leve e saborosa que pode se imaginar.
Michael serve a sobremesa

Creme de vinho com pêssego vermelho em compota



Encerramos nossa visita com um almoço, de novo na casa de Ernie. De novo, comidinha caseira alemã extremamente bem-feita. A mãe dele tinha feito o delicioso molho frio de ovos, creme e ervinhas frescas que acompanhava a carne, e também o creme de vinho com compota de pêssego vermelho. Comemos como reis.

E ali, sentada à mesa e olhando o vale verdejante ao fundo, repartindo comes e bebes com um grande vinhateiro, fechei os olhos por um instante e agradeci em silêncio.

* Devo essa visita à Inovini, que importa os vinhos Dr. Loosen para o Brasil.

29.6.12

Passeando pela Borgonha: a linda Beaune, o Hospice de Beaune e os Corton-Charlemagnes da Louis Latour

Degustando vinhaços na sede da Louis Latour....


Sempre tive vontade de conhecer a Borgonha. Via aqueles catálogos lindamente fotografados de firmas como a Butterfield&Robinson e babava. Pequenos grupos passeando de bicicleta por estradinhas que cruzam vinhedos, ao por-do-sol. Casarões de pedras, igrejas milenares, queijos de fazer suspirar.

A fantasmagórica e incrível adega da vinícola Louis Latour


Pois não vim à Borgonha comme il faut - como turista, para passar pelo menos uma semana passeando sem muito rumo - mas sim a trabalho. Vim para beber, para degustar na Louis Latour, na Simonnet-Febvre, etc, grandes Corton-Charlemagnes, Chablis e Beaujolais (sim, todas essas apelações ficam dentro da "grande Borgonha". (O maior de todos? Corton Charlemagne Grand Cru 2010 do Latour, es-pe-ta-cu-lar).

Amanhã já tenho que ir embora - uma outra aventura me espera - mas deu para ter uma boa ideia das paisagens, dos vilarejos e dos "castelos".

Isto aqui não é aquela belezura que eu via no catálogo da Butterfield & Robinson. Para ser muito sincera, já vi vinhedos bem mais belos, no vale do Mosel (Alemanha) e no Douro (norte de Portugal). Mas ainda assim, a pequena amostra de Borgonha que eu conheci tem pedacinhos absolutamente estonteantes.

Centrinho da encantadora Beaune, na Borgonha


Meus favoritos:


Hospice de Beaune, cujo telhado eu só conhecia de ver em etiquetas de vinho


- o centrinho de Beaune, coração daquele miolo da Borgonha que produz os vinhos mais top

- o Hospice de Beaune, nesse mesmo centrinho, das construções mais impactantes que alguém pode visitar na França, que, além do mais, à noite, vira tela de um incrível show de imagens projetadas que contam a sua história

Hospice de Beaune

Logo atrás das roseiras está o riozinhho que corta o centro de Chablis
Chablis



- os vilarejos minúsculos que fui passando, sem parar, um mais fofo que o outro



- e o riozinho que corta Chablis, outra cidadezinha de cartão postal

Vinícola Louis Latour

Vinícola Louis Latour

Feirinha de Beaune, em frente ao Hospice


21.6.12

Restaurantes de São Paulo: os melhores desta temporada

Steak tartare do Ici Bistrô: dos melhores pratos da temporada


São Paulo. Vim para passar 40 dias, fiquei praticamente dois meses. Meses de intensa comilança e bebelança, a ponto de sentir o corpo protestar. A essa altura eu sonho com dias de arroz, feijão, bife e saladinha. Quero distância de menus-degustação!

Meu medo, ao dizer isso, é que soe como coisa de menina mimada, mal-acostumada.

E já vou me explicando, antes mesmo que venham as críticas: tudo, até mesmo o melhor, cansa quando em doses exageradas.

E que exagero foi esse? Bom..... a lista de restaurantes visitados é looooonga: Epice, Fasano, D.O.M., Clos de Tapas, Rubaiyat, Venga!, Astor, Pirajá, Tre Bichieri, Dalva e Dito, Ici Bistrô, Primo Basilico, Maremonti, Emiliano, Shin Zushi, Kosushi, Botagallo, Aze Sushi, Nagayama, Izakaya Issa, Casa da Li, Lá da Venda, Lana, Mocotó, Momentto e mais uns tantos que já esqueci.

Arroz negro tostado com legumes e leite de castanha do Pará, do D.O.M.

O que ficou na memória? Primeiro, o almoço de cinco horas no D.O.M.: comida perfeita, vinhos perfeitos, companhia perfeita. Sei que tem gente que vai lá depois diz que não comeu muito bem, leitores e amigos me contam. Mas eu tenho sorte: só me dei bem a cada vez que voltei ao D.O.M. e, desta vez, vi um restaurante que está nitidamente vivendo seu melhor momento. Absolutamente impecável de cabo a rabo, sendo que o serviço merece aplausos especiais, fiquei boba com a performance da sommelière Gabriela Monteleone, para mim a melhor da cidade, hoje.

Dona Margarida Haraguchi, do Izakaya Issa

Além daquela tarde, marcaram-me os dois jantares no Izakaya Issa, lugarzinho tão especial que dá dó de recomendá-lo a muita gente. Medo de estragar aquele clima "lá em casa" que fisga os habitués. Dona Margarida, a carismática dona do Issa, é anfitriã de primeiríssima e faz o que muitos restaurateurs têm preguiça de fazer: trabalha muito e sempre. É o que faz a diferença.... Em uma das noites, fui lá com a equipe de filmagem do Anthony Bourdain. Detalhes neste link.

niguiri de atum do Shin Zushi


Teve também uma noite de sushis inesquecíveis no Shin Zushi. Comi o melhor atum dos últimos anos (um bachi dos mais gordos) e saí tão feliz que voltei dez dias mais tarde, com outra turma - apesar de ainda achar os preços ali demasiadamente ardidos. (Recomendam que leiam meu post completo, neste link).

Sashimi de atum bluefin ridiculamente caro, do Nagayama da rua Consolação


No Nagayama só fui por hábito e preguiça. E porque queria provar, de curiosidade, o tal atum bluefin gigantesco de que tanto falou-se na imprensa: grande bobagem, dinheiro jogado fora! Saí me sentindo assaltada, como sempre.

Raviolini com recheio de ovo de codorna de gema mole e ricota de búfala
do Tre Bicchieri: menos molho iria bem...


No Tre Bicchieri eu almocei duas vezes, pensando com os meus botões que aquela comida - gostosinha, não nego - jamais pareceria italiana para um italiano. Molhos demais, precisão de menos. Quem a descreve bem é o mr. G: "italianada", não italiana. Como nossos sushis, nossos risotos e pastas já falam português há muito tempo, carregam pouco do DNA original. Seria tão bom que alguém fizesse la vera cucina italiana em São Paulo, não? Mas duvido que seja possível.

As comidinhas que deixarão saudades:

O "brasileirinho" do Bar do Luiz Fernandes: recheio de couve, linguiça e feijão preto
  • O bife de tira do Rubaiyat da Faria Lima. Bom demais!
  • O arroz com garoupa do D.O.M., em que o colágeno do peixe envolvia toda a boca
  • A mocofava do Mocotó, já famosa e déja vu mas ainda das melhores coisas que se pode comer em São Paulo (aqui, meu post sentimental que explica porque adoro aquele lugar)
  • A coxinha do bar Veloso - minhanossasenhora! (aliás, tudo o que comi lá estava espetacular)
  • O bolinho com recheio de feijão e couve do Bar do Luiz Fernandes em Santana, dica do chef Rodrigo Oliveira (barzinho delicioso, por sinal)
  • O sanduíche de filé com queijo Palmira no pão francês do Astor (o steak tartare também estava pra lá de bom)
  • A feijuca do Pirajá
  • O bolo de chocolate em forma de besouro do Lá da Venda, melhor doce da temporada
  • O camarão com chuchu lá de casa. ;)
  • O arroz bomba com verduras à espanhola do A Peixaria, novo e simplezinho restaurante (leiam mais sobre essa ótima novidade neste post)

Como podem ver, não citei muitos pratos que provei em lugares chiques/caros. Tantos deles gostosos, mas poucos realmente extraordinários, como diria o saudoso Saul Galvão. Desta vez, a gloriosa "baixa gastronomia" levou.

Arroz de garoupa do D.O.M.: sem firulas nem espumas,  e delicioso


13.6.12

Restaurante Momentto, de Fernanda Valdivia, e Lourdes Hernandez, a cozinheira-poeta


Há coisa mais brega do que Dia dos Namorados?


Pois bem: só saí de casa ontem porque recebi um email lindo de uma cozinheira-poeta mexicana chamada Lourdes Hernandez.

Lourdes Hernandez

Uma mulher encantadora tanto pelos guisados e guacamoles e saladas que faz e pelas palavras que pincela lá e cá, em menus e artigos de jornal, sempre com grande lirismo.



Não vou descrever o jantar, primeiro porque já foi e jamais se repetirá, e segundo, porque ela, a seu modo, o faz melhor, como verão a seguir.



Mas vou, sim, falar da casinha linda onde foi o jantar, da jovem chef Fernanda Valdivia e sua sócia Giovana Sonda. Um lugar chamado Momentto, que merece ser buscado e descoberto. Na verdade, é um adorável empório que, às quintas-feiras, transforma-se em restaurante.

Acho que o email-convite da Lourdes, a seguir, e as fotos dizem mais do que qualquer post-descritivo poderia dizer....



"Fernanda me liga na semana retrasada:

- Vamos fazer o dia dos namorados aqui na casita?

- Você tá louca?, respondo. Eu, dia dos namorados? Eu o que gosto é do dia dos rejeitados, da dor de cotovelo, dos que sofrem na espera infinita... Sempre gostei do Mastroianni mas cai de amores por ele quando, interrogado sobre o amor, ele confessa – um ano antes de morrer – que não tem certeza de tê-lo sentido. (Gassman participava da conversa) e Mastroinni insiste que isso que Gassman qualifica de relacionamento estável, solidariedade, companhia, está certo, mas ele não acha que isso seja amor. Que ele só tinha certeza da própria paixão no sofrimento, quando penou por alguém, na espera dolente na frente da porta fechada.

Dia dos namorados, nunca!

- Vamos fazer, sim? Retrucou Fernanda.

- Tudo bem, topei. Mas será de meu jeito. Nada de clima romântico nem jantar perfumado, um menu único de sabores fortes temperado apenas com músicas de letras escritas no desespero.  E velas, pode colocar velas.

Mas já que é o dia dos namorados, vamos admitir qualquer tipo de namoro, inclusive o daqueles intrépidos navegantes solitários que se dão bem com eles mesmos. Que seja noite de desejos, que a casita vire palco de olhares cheios de coisas nunca faladas. Não seria gostoso escrever para o outro (a outra) algo diferente, talvez malicioso? Esperar quiçá entre o primeiro e o segundo prato e trocar os papéis num toque imperceptível. Imagino um frenesi gastrósofo onde tudo está acontecendo mas os corpos ficam lá, numa coreografia impávida como a do gato que deitado parece não ver a pressa passar. Olhos que perseguem essa velha linha que parte dos olhos até lá, e abrem, tiram desconfianças, culpas, impedimentos deixando ao descoberto cérebro, alma e sexo... ótimo coquetel.

Mas dissimulem, que ninguém saiba das coreografias ocultas de seus corpos, que a conversa siga outros caminhos enquanto o desejo vai sem dúvidas nem disjuntivas nessa sua impulsiva deliberação.  Sexo e gula, velha fórmula. Onde o estômago é uma prova de caráter e o fascínio pela comida faz da gente viciado no desejo a primeira vista. Ai, a mesa! Tão cheia de truques, você leva à boca um pedaço recheado de formas que você não sabe, só intui e se entrega numa oportunidade perversa de carícias fragmentárias. A mesa é um fato eminentemente cênico. Você pode descrever a  duração, o número de goces, as singularidades tangíveis e orgânicas. O amor, como a comida, é uma curiosidade mais ou menos forte.

Gostaria que vocês que vão nos acompanhar nessa noite lembrem que a literatura erótica depende em grande parte de fazer da imaginação a grande zona erógena.

“O amante que treme não fica entediado”, escreveu Stendhal.





O menu é quase simples:

Uma bebida embriagante para soltar amarras,

Guacamole picante para fortalecer aos caçadores

Sopa quente com monte de coisinhas para colocar dentro e observar os movimentos do adversário do outro lado do campo

Um gelo de mezcal para estender o prazer – frio no quente. A parte mais protetora do casal deverá colocá-lo na boca e começando a desmanchar passar à boca do outro. (único momento no roteiro em que aprovamos que os lábios se toquem.)

Sarape de pato em salsa verde de chile poblano

Crepas de cajeta al tequila

Café – chá

$130 + 10% por pessoa


AGORA PAREM E APERTEM PLAY NO VIDEO ABAIXO. Só então continuem a ler....




Rayuela, capítulo 7, de Julio Cortázar



Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.


Me mirás, de cerca me mirás, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y los ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. 
Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.




Momentto:
Rua Desembargador do Vale, 454
Perdizes
T: (11) 2362-6582
@: contato@momentto.com.br
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