8.10.10

Restaurante Dos Cielos, em Barcelona: a crítica faz um mea culpa


Hotel Me, em Barcelona

Depois de um pit stop relâmpago em Paris seguido de um dia inteiro de aeroporto em aeroporto, cheguei, exausta, ao meu destino final. Não vou contar em que parte da Europa estou - por enquanto!

Me faltam forças para escrever grande coisa, então deixo vocês com este post sobre o Dos Cielos, publicado originalmente lá no portal Club Alfa:

                                                                           ***

Hora da verdade: críticos de restaurantes erram com frequência, e o que é pior: têm birras que agem como filtros entre eles e um retrato fiel de um restaurante.

Embora eu goste de achar que meus erros são poucos – mais pelo esforço investido do que alguma divina sabedoria – em contrapartida admito, e não é de hoje, que minhas birras são muitas. Restaurante gastronômico tocando música lounge, eletrônica? Detesto (aconteceu no Dos Palillos, semana passada, em Barcelona). Se chego e me dão um menu com muitos erros de ortografia, já vejo a comida com outros olhos. Ferranismos mal-copiados, então, são a praga da década: e dá-lhe farelos e espumas e risquinhos no prato sem gosto algum ou pior, incomíveis.

Mas minha birra número um são os chef-consultores.

Pra mim, restaurante tocado por algum fantoche de chef-consultor nunca tem alma. E quando mais longe estiver o chef-consultor em questão, pior o resultado.

Fui ao Eñe, o restaurante dos espanhois Sergio e Javier Torres em São Paulo, duas vezes. Não gostei. Ainda por cima, liguei algumas vezes para pedir informações e fui mal atendida. Resultado? Risquei da minha lista para sempre.

Aí os gêmeos Torres, que vivem em Barcelona mas “supervisionam” a muuuita longa distância o Eñe, abriram uma filial no Rio. Minha amiga C., que sabe do que fala, achou bem fraquinho. Resultado? Concluí que esses gêmeos não sabem o que fazem.

Sim, eu sei que não faz sentido eu gostar do L’Atelier de Joël Robuchon em Nova York (onde o famoso chef só aparece muito de vez em quando) e por outro lado implicar se dois espanhóis abrem restaurante em São Paulo. Mas é que eu acho que só mesmo os melhores do mundo conseguem a proeza de segurar um altíssimo padrão estando longe. E mesmo assim, muitos überchefs quebram a cara ao tentarem: vide Gordon Ramsay, que deu (dez) passos maiores que a perna.

Não por acaso, os melhores restaurant-empires do mundo reúnem seus “filhotes” em uma região restrita. É o olho do dono que engorda o boi. Exemplos: o genial Keith McNally (Minetta, Pastis, Pulino’s etc.) e Daniel Boulud (Daniel, DBGB, DB Bistro, Bar Boulud), que só agora se arrisca a dar o primeiro passo na Europa.


Mas assim como sempre digo que o pior burro é o que não aprende, também é verdade que o pior crítico é o que não sabe derrubar seu próprio preconceito.

Por insistência de um amigo que entende muito do assunto, reservei mesa no Dos Cielos, o restaurante relativamente novo dos gêmeos no 24o andar do hotel ME, em Barcelona. Meio fora de mão, em um bairro de negócios que chamam de Zona 22. Esperava pouco, confesso.



Pois bem feito para mim: o Dos Cielos é um espetáculo de restaurante, o melhor de todos que provei nesta ida a Barcelona. Lugar explicitamente fino, com guardanapos de linho enormes, mesas espaçadas, taças do melhor cristal, serviço primoroso, não mais do que trinta lugares. Pães impecáveis, feitos ali mesmo.



E mais: os gêmeos cozinham! Eles existem! :)


Mal pude esconder meu espanto quando um e depois o outro vieram à mesa – pasmem! – dar um alô e tirar o nosso pedido. E não é porque sou jornalista, eles não me conhecem e notei que fizeram o mesmo com todas as outras mesas.


Já comecei a ver a coisa com outros olhos....


Eu:
“Ah, sim, oi, muito prazer. Vocês estão sempre aqui?”


Responde o gêmeo a ou b, não sei bem, perplexo:
“Sim, claro, porquê?”


“Ah, nada não, só curiosidade...” :)


Fiquei intrigada. Resolvi soltar a rédea e tirar a prova: menu confiance!




Os amuse bouches prometiam: em um pratinho, bolinhos de bacalhau muito bem feitos. No outro, uns tomatinhos sem pele deliciosos, recheados com um creminho quase morno, e uma lasquinha de enguia por cima.




Vejam essa “sopa” que beleza: não era fria nem quente, mas intensamente saborosa. Cada colherada parecia trazer um novo sabor: capim santo, caracol do mar e uns camarõezinhos molinhos e quase doces.



Essa folha sobre o prato, para quem não conhece, é uma diversão: tem gosto de ostra! O garçom recomendou que comêssemos antes, só ela. Vinha por baixo uma ostra de verdade e pedaços de pepino. E sabem de que era feito o caldo em volta? De pé de vitela! Isso que eu chamo de mar-e-montanha original! Mais uma vez, execução perfeita.





Seguimos com um prato ultra 'exótico': vieira com creme de mandioca e mandioquinha com espuma de salsinha. ;)



Puxa, onde será que esses gêmeos aprenderam a gostar de mandioquinha? Outra delícia, ainda mais para quem, como eu, adora mandioquinha.

Mais um pratinho pouco inventivo porém muito bem-sucedido: ravióli recheado de foie e castanhas, com tomate seco, azeitona kalamata e caldo de açafrão.



Apesar dos ingredientes fortes, a mão leve dos chefs fez o conjunto elegante e delicado. Não à toa, este tornou-se um clássico dos gêmeos, reproduzido, inclusive, no Eñe (não sei com que grau de fidelidade).

Para testarem os limites de nossa gula, mandaram na sequência um arroz “meloso”, como dizem em castellano, com pepino do mar.




Na Catalunha essa “coisa” chama-se espardeña e custa uma fortuna, cerca de 90 Euros o quilo. Trata-se do órgão interno de uma espécie de minhoca do mar gigante, muito típica dali e desta época. Pertence à mesma família de bichos (equinodermos) que a estrela do mar. Em Cádiz também há espardeñas, mas lá chamam-se.... carajo de mar! :o

Enfim, melhor eu não contar maiores detalhes. O fato é que o pepino aquático é uma iguaria rara, sequer vendida nas peixarias tamanha a escassez, que para mim tem uma textura parecida com a de uma cauda de lagosta. E não nego que o arroz meloso com carajo de mar, temperado com azeite do bom, estava chose de lóc.


Achei que o almoço tinha chegao ao seu ápice mas... ledo engano. Ainda tinha muita coisa pela frente! Inclusive o prato mais gostoso de todos, a meu ver: cherne com um molho bem “meloso" de carne, cebolinha cortada em julienne finíssima e tomate concassé. A acidez do tomate contrabalançava a gordura do molho ultradenso, enquanto o peixe era um primor de frescor e cuisson. Um prato, mil texturas....


Terminamos os salgados descendo um ou dois pontos. A paleta de cabrito de leite, (kid em inglês) apesar de tenra, vinha coroada de um ar de leite de cabra muito boboca. Iguamente dispensáveis os cubinhos de uma espécie de manjar de amêndoa.



A apresentação da carne ainda no osso com seu molho cor de ferrugem pareceu grosseira em comparação ao que antecedêra (ainda mais assim, comido pela metade ;) ). Mas entendam: estou sendo chata, o prato estava gostoso, etc – só não foi o ponto alto.

Inacreditavelmente, ainda achamos apetite para testar o plâteau de queijos. Para minha surpresa, pesadamente francês, com direito a Roquefort, Comté, Reblochon, Langres, etc. Naquele dia ofereciam três queijos da região, inclusive um de sabor um tanto neutro feito a vinte minutos de Barcelona, chamado La Rocha, se não me engano.



Ah, isso sem falar no pré-dessert, que, confesso, já nem lembro mais o que era.




E... ah, sim, sobremesa! Uma gostosura mirabolante de chocolate com cubos de bolo, para comer lambendos os beiços.



E mignardises, que ninguém é de ferro: três delicinhas achocolatatas, inclusive uma bolota que parecia ter sido passada em migalhas de corn flakes e depois no chocolate. Nham.

Almocinho básico, que tal? Levantamos da mesa lá pelas 5!

Conclusão: mea culpa, mea culpa. Retiro o que disse no passado: os gêmeos sabem, sim, cozinhar. E bem demais.

Só achei errado eles nos darem de lembrança um menu degustação que não foi exatamente o que nos serviram....Tomar cinco minutos para imprimir um menu correto teria sido bem mais gentil - e é praxe em restaurantes desse nível, onde inclusivem costumam até incluir os vinhos degustados. Que não foram poucos, aliás... Hic! Santo caderninho de notas! :)

p.s. mandoquiña es de doer, no?!




Dos Cielos: hotel ME, Rua PERE IV, 272, tel. (34-902) 14 44 40

6.10.10

Guia Michelin New York 2011: saem os resultados








Acaba de sair o Michelin de Nova York, edição 2011. Nenhuma mudança nos três estrelas. Agora... acho que ando meio por fora das coisas. Que diabos é o tal Chef Table at Brooklyn Fare? Nunca ouvi falar! Kajitsu e Soto também preciso anotar no caderninho... Que vocês acham? Alguma surpresa?


5.10.10

El Bulli: meu jantar no restaurante número um do mundo

Galleta de macadamia: tenra (à esq.) e tostada: quase uma nuvem!
Micro camarõezinhos sobre "tortilla", na verdade um wafer levíssimo
que dissolvia na boca e tinha gosto de... tortilla


Demorei, demorei até que.... a poeira assentou e consegui entender melhor o que se passou comigo nessa recente maratona gastronômica na Espanha. Uma epifania? Não, mais de uma....

Mas falemos do El Bulli, que sei que é disso que mais querem saber.

"E aí, tava bom?"

Impossível responder sim ou não. O que é uma boa ida a restaurante para vocês? A comida tem que ser gostosa? O lugar tem que ser acolhedor?

Digo o seguinte: seria impossível descrever o jantar do último 22 de setembro prato-a-prato, tentando destrinchar a, b ou c, mais ou menos como fiz ao relatar o almoço no Celler de Can Roca. Mesmo porque, antes de ir ao Bulli eu pensei longa e seriamente: o que quero tirar da experiência? Como posso viver aquilo sem me auto-sabotar, sem ficar anotando febrilmente cada sussuro do sommelier, cada objeto não-identificado que ponho na boca? Não queria desperdiçar uma noite mágica tomando notas.

Resolvi erguer as mãos ao alto e não querer controlar demais minha noite. Não consultei antes o e-gullet, o fórum onde doidos como eu trocam fotos e comentários de grandes refeições. Não olhei de novo meus livros sobre o El Bulli. Tentei dar uma marcha-ré, bloquear tudo aquilo que já lera sobre o lugar. Pensei nas sábias palavras do grande chef Juan Mari Arzak:

"Há que se ter capacidade de assombro e olhos de menino"

Pois fui ao Bulli com olhos de menina.

E menina até meio abobada pela importância da ocasião, no táxi o coração ia batendo forte, a cada minuto eu soltava um riso nervoso de excitação.

Do mesmo modo que procurei me despir das armas - não procurar analisar quais técnicas poderiam ter sido usadas em cada estágio do banquete - resolvi que aqui também eu não faria isso. Quem quiser detalhes técnicos saberá onde buscá-los.

Aqui, posso lhes contar o que senti. Senti um cheiro intoxicante de pinheiros e maresia ao chegar. A brisa quente do mar, a maciez dos pedriscos do belo pátio ajardinado à entrada.

Senti a eletricidade no olhar dos outros que ali estavam, todos claramente se sentindo especiais, em um lugar especial, vivendo uma noite especial.

À mesa, senti um mixto inexplicável de polimento à la três estrelas Michelin e descontração à espanhola. Serviço de mesa eficiente porém caloroso, o que ajudou a quebrar o nervosismo inicial.

Os pratos, já disse, não serão descritos e comentados um a um. Mesmo porque me pareceram notas de um concerto. Nada de confusão no prato: um sabor, dois sabores. Poucos elementos de cada vez.


Caviar verdadeiro e caviar falso: qual é qual? Avelãs esferificadas sobre molho de caviar.
E do outro lado, caviar sobre molho de avelã.


Elementos dissonantes, sim. Às vezes até desagradáveis. E ainda mais perturbadores por causa do efeito trompe l'oeil (outro fio condutor da noite). Quando vejo algo que parece um tiramisù, meu cérebro já começa a soltar sinais de "eu quero! delícia!". Então a boca leva o dobro do tempo para entender que não, não se trata de tiramisù. Muito pelo contrário. A decepção é inevitável....

"tiramisú" falso de inspiração japa: soja e tofu. Bem ruim...

Era como se eu estivesse, com a cara a meio palmo da tela, olhando um grande pintor dando suas pinceladas. Umas pinceladas eram mais nítidas, outras menos. Mas nenhuma poderia existir fora daquele contexto. Partes de um todo.

Certas partes achei deliciosas, como os caviares mostrados acima, o incrível crocantezinho de hibisco com recheio de amendoim que parecia papel de seda ao se desintegrar na boca, e, mais tarde, isso aqui:

Endívias cruas e cozidas em papillote (o broto do miolo, não as
folhas maiores), e azeite esferificado

Agora, revendo as fotos, relendo as anotações - ou seja, dando três passos ou cinco para trás, enxergo o quadro completo: belíssimo!

Mas naquela noite, eu via apenas as pinceladas, algumas suaves, mas na maioria das vezes fortes, violentas. Sentimos sabores fortes. Contrastes fortes.

Perceves: rara iguaria da qual não sinto a mínima saudade!


Alguns elementos funcionavam como elo entre as partes, iam aparecendo aqui e ali de formas diversas.

Elementos que me transportaram para um chalé nas montanhas em algum lugar do mundo. Outono.

- vermelhos, laranjas
- caldos, vapores
- cheiro de lareira, especiarias
- tronco, lascas de madeira, castanhas, pinolis, nozes diversas


Lulo (fruta exótica que lembra um macacujá) na grelha: sabor de fogueira


Trouxeram uma caixinha com ramos de pinheiros e mandaram que cada um pegasse um pouco e chupasse. As pontas tinham sido mergulhadas em mel. Gostoso e agradavelmente bizarro! Também trouxeram um sachê para cada um de nós, a horas tantas. Só para cheirar, instruíram-nos. E o sachê me levou de novo para aquele chalé de montanha, com a lareira acesa e a espingarda de caça pendurada ao lado da porta. Minha amiga Marie-Claude guardou o dela na bolsa e sacou três dias depois, enquanto comíamos em outro lugar. Peguei, cheirei. E no mesmo instante fui transportada de volta para aquela noite de outono em Roses.

E lado-a-lado com o outono, que não deixa de ser um preparo para a morte que vem a seguir, tivemos também durante o jantar:
- sangue
- pássaros mortos
- sabores de carne madura, por vezes ferrosos

Pombo com molho de pombo,
e pombo com molho de amora, cacau e gordura de foie. E gergelim negro.




E gelo. Gelo, quem diria! Lasquinhas finas sobre um tartare de tomate. E depois, uma crosta, também muito fina, sobre um prato grosso e pesado de vidro, como um lago quando se congela pela primeira vez na chegada do inverno.

Lago congelado: menta e açúcar mascavo sobre finíssima crosta de gelo
Também notei que vários "pratos" eram bocados leves como nuvens, diáfanos, tão frágeis que tinham que ser levados à boca com o maior cuidado, senão se desmanchavam. E pareciam se desintegrar na boca. Desapareciam, deixando apenas um sabor, uma sensação.

A mais delicada "tortilla" do planeta: quase um nada

Viajei? Pode ser. Mas notem: Adrià não cria pratos como os outros seres humanos. Ele pensa primeiro em um conceito. Uma ideia, em suma. E dali, o conceito toma forma através do ingrediente x ou y. E sendo o meu um jantar composto de conceitos, acho que eu tenho o direito de interpretá-los como o meu coração mandava naquela noite. Justo?

O mais interessante, para mim, foi ver esses conceitos repetidos em dois, três, quatro "pratos". Como se, para usar de novo analogia artística, se tratassem não de pratos únicos mas sim dípticos ou trípticos. Sequências em que os mesmos ingredientes surgiam em interpretações diferentes.

Senti uma sequência nipônica, outra outonal, outra de cítricos e frutos do mar e "mexicanismos". Que iam alterando o ritmo do jantar e o clima à mesa. O outono, definitivamente, trouxe um quê de peso, de intensidade e reflexão (ou terá sido aquele vinho todo?) ;)

Ao final, uma deslumbrante caixa repleta de maravilhosos chocolates e outras mignardises (ou morphings, como ele prefere chamá-las).

Agora, que ando brincando de fazer filminhos, achei que em vídeo eu poderia trasmitir melhor tudo que vi e senti.

E vocês, que acham disso tudo?

ps: eu sei que tecnicamente, o El Bulli já não é o número um do mundo, e sim o número 2, se tomarmos como medida o ranking da revista Restaurant. Mas ao se aproximar do fim de sua era como restaurante, e ao passar para a história, tenho certeza que ele será lembrado assim mesmo, como o #1.


4.10.10

U.S. Department of State adverte: terroristas perigam atacar na Europa!



Que tal? Eu estou prestes a embarcar para Paris (nesta quarta-feira) e....

Travel Alert U.S. DEPARTMENT OF STATE Bureau of Consular Affairs

Europe
October 3, 2010

The State Department alerts U.S. citizens to the potential for terrorist attacks in Europe.  Current information suggests that al-Qa’ida and affiliated organizations continue to plan terrorist attacks.  European governments have taken action to guard against a terrorist attack and some have spoken publicly about the heightened threat conditions.

Terrorists may elect to use a variety of means and weapons and target both official and private interests.  U.S. citizens are reminded of the potential for terrorists to attack public transportation systems and other tourist infrastructure.  Terrorists have targeted and attacked subway and rail systems, as well as aviation and maritime services.  U.S. citizens should take every precaution to be aware of their surroundings and to adopt appropriate safety measures to protect themselves when traveling.

We continue to work closely with our European allies on the threat from international terrorism, including al-Qa’ida.  Information is routinely shared between the U.S. and our key partners in order to disrupt terrorist plotting, identify and take action against potential operatives, and strengthen our defenses against potential threats.


Ainda bem que vou voar de Lufthansa.... :o
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