Como eu tentei explicar a um francês baladeiro-jet-setter que conheci por acaso outro dia, Trancoso não é uma só.
Há muitas Trancosos.
Há a Trancoso das casonas de praia com staff de 6 e personal chef em Itapororoca, onde fazem jantares com lugar marcado e convite impresso.
A Trancoso da garotada que se acaba nos "lounges" de praia embalada pelo bate-estaca ensurdecedor.
A Trancoso dos casais hospedados nas tantas pousadas que passam seus dias entre a praia e as lojinhas e restaurantes do Quadrado.
A Trancoso dos nativos, que nunca se cansam de admirar a estranheza dos forasteiros.
E há ainda a minha Trancoso: uma salada doida de jantares e risadas, mergulhos no mar, idas à feira, aulas de capoeira e muita prosa com gente daqui e de longe. Trancoso da brisa quente, do galopar dos cavalos, das frutas maduras caídas pelo chão, das meninas bonitas, do dançar agarradinho do forró, da água de côco com bolo de fubá, do berimbau e futebol ao cair da tarde, das flores de papel e das estrelas emoldurando a igrejinha. Essa, eu amo como nunca amei outro lugar.
7 da noite do 1 de janeiro: baladeiro anônimo finalmente cede ao cansaço,
no restaurante Portinha, no Quadrado
Acerola do meu quintal, no Quadrado
Bananas do meu quintal, que colhi com a ajuda de seu João, meu vizinho
Brinde distribuído no fim da festa mais falada do verão, do Henrique Pinto. Colônia e vela da
Água de Cheiro e bilhete em.... inglês!! (brega?)
Cacau do meu quintal
Seu João, meu vizinho, admira-sem com gafanhoto gigante
O novo galinheiro do seu João, no fundo de seu quintal no Quadrado
Ceviche da pousada Etnia Clube de Mar - nada autêntico, mas gostoso....
Pitangas do jardim da pousada Capim Santo
Seu Zé, o papagaio da Stellinha
Jambo: perfume que lembra, lá longe, uma rosa... Aqui, chama-se eugênia.
Pargo da feira descansa no meu isopor
Quem nunca foi à feira de Trancoso, aos sábados (a grande maioria) perde cenas como esta: ariacós em
penca (não confundir com o vermelho, ou guaiúba, também típico daqui)
Repórter da TV Globo anunciando a chegada do povo famoso
Trancoso 40 Graus.... e os caras de farda tomando conta de quê?!
Praia da pousada Etnia Clube de Mar
E coisinhas recolhidas dessa mesma praia
Funcionários do Etnia enfeitam tudo com hibiscos....
Flor de eugênia (ou jambo), no Jacaré
A linda bicicleta de ar vintage do chef Francis Mallmann, estacionada no Jacaré
O chef Francis Mallmann, o Jacaré (Fernando Droghetti) e o restaurante
à beira-mar que abriram juntos neste verão, ao fundo
Taliberti, o dono da ótima pizzaria Maritaca, com o Claude Troisgros, um de muitos
chefs conhecidos que andam circulando por Trancoso
Interrompemos o boletim de fuxicos trancosenses por um post: só para reproduzir a última coluna no caderno Comida da Folha:
Comer ou tuitar, eis a questão
Outro dia, Prince apresentou-se em Montréal e, da plateia, uma chef mandou uma bronca pelo Twitter: "Quem passa um show tuitando parece aqueles turistas que vão ao Louvre e não largam a filmadora".
Não só entendi a comparação como vesti a carapuça. Acostumei-me a narrar jantares em 140 caracteres (nada muito pessoal, foco em temas gastronômicos), chegando a dedicar cinco horas diárias a tuítes.
Pior: de uns meses para cá, adicionei a esse um segundo vício: o aplicativo Instagram.
Experiências e opiniões gastronômicas compartidas publicamente nas redes sociais são uma faca de dois gumes. Por um lado, aprende-se enormemente: naquela serra Pelada consigo garimpar frases de chefs famosos não filtradas por assessorias de imprensa; descubro quais restaurantes andam mais frequentados pelos "foodies" e vejo milhares de fotos de pratos. Essa fonte de notícias personalizadas me mantém por dentro das últimas novidades gastronômicas. Troco mensagens com gente que, não fosse o Twitter, dificilmente estaria tão rapidamente disponível para "conversar", como Daniel Boulud, Grant Achatz, René Redzepi e Massimo Bottura, entre dezenas de outros chefs renomados. Em contrapartida, no afã de ficar teclando e clicando à mesa (e "dando uma lidinha" nos últimos tuítes) acabo vivendo menos intensamente cada lance de um jantar.
Em Barcelona, levei um pito do chef Albert Adrià, irmão de Ferran. Enquanto jantava no 41º, seu novo restaurante, eu tentava "instagramear" o maravilhoso temaki de barriga de atum, cone de alga em uma mão, telefone na outra. Ele veio à mesa e disse: "Esse tem que ser comido no mesmo instante, deixe as fotos para depois". Tinha razão.
Fotomaníacos estão virando praga em restaurantes gastronômicos.
Cliques incessantes quebram o ritmo e a magia de uma grande refeição e incomodam. Eu -e a crescente legião de fanáticos das mídias sociais- não devemos perturbar o prazer de comer bem.
Como um bom foie gras, o ato de dividir em fotos e curtas pensatas o que vivemos à mesa é delicioso -desde que em dose certa.
Confesso: sou muito parcimoniosa na hora de dividir meus achados de Trancoso. Já basta ver a cidadezinha ao sul de Porto Segura ser invadida no dia 26 de dezembro por batalhões de paulistas com bolsas Vuitton, celulares e biquínis grifados demais e desconfiômetro de menos. E dá-lhe vestidinhos de paetês e salto alto no Quadrado....
Mas por outro lado já cansei de saber de amigos meus desavisados caindo em roubadas. E roubadas não faltam: esta é a terra do restaurante-caro-e-medíocre e da pousada nota 6,5 cobrando mil reais a diária. Comer bem aqui é mais difícil do que se pensa....
As minhas dicas, portanto, são poucas:
Etnia Clube de Mar: paraíso
- Almoço na Etnia Clube de Mar, a nova filial praiana da pousada Etnia. Tem que reservar (tel. (73) 3668-1237, e os hóspedes das cinco "casinhas" chiquíssimas têm prioridade, naturalmente, mas ali se pode encontrar um ambiente civilizado, com SER-VI-ÇO, e boa comida, sem o carnaval desorganizado das outras pousadas de praia. Less is more. No caso, less people!
- Cair do dia na pousada Capim Santo, tomando caipirinhas e comendo bolinhos de aipim com camarão molinhos e sedosos
pizza de carpaccio do Maritaca
- Pizzas e chope no Maritaca (essa é manjada, mas sempre válida). Trata-se do mais estável e confiável restaurante de Trancoso. Há pratos que quase nunca achamos na Bahia, como spaghetti com bottarga, e uma ma-ra-vi-lho-sa pizza de carpaccio (a massa, um finíssimo biscoito, é assada sem nada, depois colocam a carne fria por cima, temperam e coroam com raspas de parmesão). Outro prato que amei? O paillard de filé mignon com spaghetti bem al dente que pedi para minha filha! Isso sem falar no soufflé de goiabada, o mais gostoso que já comi. Produtos de primeira, importados direto da Itália pelo Taliberti, o carismático patrone.
Fernando Droghetti, o Jacaré, e seu sócio-por-um-verão, o chef Francis Mallmann
- Carnes e peixes na brasa na pousada Jacaré do Brasil Casas, onde este verão funciona uma filial do Los Negros, famoso restaurante do igualmente famoso chef argentino Francis Mallmann. Tão bom que não tenho mais vontade de ir a outro lugar. Janto ali noite sim, noite não, e sempre maravilhosamente bem. Prato favorito: um atum daqui, pequeno mas notável, servido quase cru, com legumes em ratatouille assados super longamente. Também delicioso, o ojo de bife (de contra-filé argentino, por supuesto) servido sobre uma espécie de gauffre de batatas chips, ultracrocante. Há ainda incríveis casquinhas de batata com sal de primeira e salsinha, um dip de beringela com gostinho de brasas que gosto de comer sem o pão, de colherada, mesmo, e saladas impecáveis. Isso para não falar do décor de cair o queixo. Vejam só que beleza:
Quando a décima pessoa me ligou querendo saber maiores detalhes sobre a festa de réveillon do milionário mineiro Henrique Pinto aqui em Trancoso, eu concluí que seria mais fácil postar neste Boa Vida um resumo do que vai rolar.
Este ano, como sempre, os mais "animados" vão ver o raiar do dia no Taípe mas acho que o tal Henrique Pinto - com as fortunas que gastou e mais uma ajudinha providencial do casal Nizan e Donata no capítulo guest-list - tirou o gás daquela que sempre foi a balada mais concorrida de Trancoso. Pinto cimentou sua fama de bom festeiro quando alugou o iate Christina O, que foi de Aristóteles Onassis, em Saint Tropez, para receber uns 30 lucky few.
De longe o convite mais disputado deste réveillon (Deus, quanta futilidade!), ao contrário do que a maioria pensa, ele varia conforme o convidado.
Explicando: há o convite de Henrique Pinto nível A: jantar para 150 pessoas, cedo, com comida feita pela chef Morena Leite, do Capim Santo. Há o convite nível B, tipo "venha depois que terminar de jantar", que dá direito a passar a meia-noite. E o terceiro convite é para a fase baladona, depois da meia-noite. Como disse minha amiga J, esse último trata-se do convite "rapa do tacho". Morena está encarregada de servir comidinhas a noite toda e contou que são esperadas 800 pessoas.
A superprodução, com entrada grátis, vai rolar à beira da praia, na chamada "fazenda dos búfalos" - aquela que se passa no caminho para o Espelho. Ou seja: bem fora de mão. Duty, o DJ de São Paulo, está cuidando da instalação do som. Mas quem vai "comandar as picapes", para usar um termo ultrabrega, são outros DJs: Paulinho Boghosian e Raul Boesel. Não sem antes algumas horinhas de banda ao vivo tocando Sinatra e outros hits de casamento....
O dono da festa chega hoje (segunda) em - claro! - um jatinho privado e hospeda-se em uma casa em Itapororoca.
A outra festa que promete, mesmo se bem mais low-profile, acontece dia 29 no Pára-Raio, que para quem já foi alguma vez a Trancoso, dispensa apresentações. Os anfitriões são Corrado Tini e André Zanonato, donos das duas pousadas Etnia (sim, porque agora eles têm uma "filial" na praia, com cinco casinhas ultra chiques, saibam mais clicando aqui). Essa tem um custo - ingresso a 100 reais - mas o lucro vai todo para caridade - mais especificamente, a Associação Ecoesporte Trancoso e a creche Recanto de Apoio à Criança Feliz. Estão vendendo ingressos na pousada Etnia e na bilheteria do Para-Raio. Vejam abaixo o vídeo da mesma festa, no ano passado...
E caso eu não "passe" mais por aqui até o Réveillon, que todos vocês tenham um super 2012, repleto de deliciosas viagens!