29.1.12

Anish Kapoor jantando no D.O.M. de Alex Atala: momento tiete



Também sou gente, e de vez em quando me sinto uma tiete. Quando, por exemplo, estou no D.O.M. e de repente aparece para jantar ninguém menos que Anish Kapoor.

Holy cow!

Se eu sou fã? Preciso dizer?
 



O que faz Anish Kapoor em São Paulo? Simples: acaba de chegar de Inhotim, o museu-louco-com-mil-e-uma-esculturas-ao-ar-livre-daquele-mecenas-de-fundos-aparentemente-infinitos, em Minas. Kapoor estava lá para resolver onde será instalado o pavilhão que abrigará sua obra  Shooting into the Corner.
Três anos atrás, meu tio Jorge Forbes, que tem grande talento para ler as coisas em níveis nada convencionais, escreveu para este blog um textinho rápido em que expressava sua reação a uma obra de Kapoor exposta no Guggenheim. Reproduzo aqui:

Anish Kapoor no Guggenheim. Crédito: Guggenheim. Cliquem na foto para vê-la maior.


Memória, de Anish Kapoor
Obra do escultor indiano, exposta no Guggenhein, faz os clássicos envelhecerem

A escultura de Anish Kapoor em exibição no Guggenhein de Nova Iorque é maior que a sala onde está instalada. Ela é maior do que aquilo que se possa ver. De nenhum ângulo o visitante a enxerga totalmente, sempre só dela se apropriando por partes; e como a arquitetura de Lloyd Wright não é cartesiana, no sentido de fazer que alguém se localize facilmente, virou um esporte ajudar as pessoas angustiadas a acharem a próxima sala, de onde possam ver mais um pouquinho daquela coisa estranha.

Ela, de certa maneira, tem um dentro e um fora. Por fora, é toda em ferro vermelho, um casco curvo de navio, ou uma grande peça de motor que lembraria Richard Serra, com a diferença de o ferro estar ali recortado e não em contínuo, como esculpe o americano. Por dentro, nada além de um vazio negro. Curioso é que seria esperado, uma vez que a coisa é toda em curva, que sua boca também fosse assim, redonda. Mas não, ela é quadrada. Entra-se em uma das salas e se vê um quadrado preto recortado na parede. Ao se aproximar, nota-se o vazio do interior do objeto. Preto, totalmente preto. De perto, um espelho ao infinito; de longe, um belo quadro monocrômico.

Ela está lá, como o artista a chamou, a Memória. Como toda memória, esta, mesmo de ferro, nos escapa, e, quando finalmente achamos sua entrada, damos um passo para trás, ou ficamos na admiração: na saudade, como dizem os brasileiros.

Ao nos afastarmos da Memória, mesmo que para excelentes encontros, como com Kandisky, logo ali do lado, em maravilhosa retrospectiva, saímos certos que há algo novo na arte: a exposição do incompleto. Fenômeno coerente com esse tempo de um homem igualmente incompleto em sua história e em suas certezas fragilizadas.

Kapoor fez uma Memória de esquecer a garantia do encontro nostálgico do passado, pedindo, na tontura da pós-modernidade, a invenção de um futuro.

Jorge Forbes, em New York, quarta-feira, 4 de novembro de 2009.



28.1.12

Prédio de Oscar Niemeyer onde era o Detran vira, hoje, sede do MAC



Não parece, mas eu tenho outros interesses além de comida e bebida... O principal deles, eu diria, é arquitetura. Por isso estou super animada para ir ver como ficou o ex-Palácio da Agricultura, mais conhecido como o prédio do Detran, ao lado do Parque do Ibirapuera, agora que virou sede do MAC.



O novo MAC, depois de muito atraso, muito blablablá e muitas reformas, abre hoje com apenas o térreo disponível para visitação. A mostra de abertura incluirá apenas 17 esculturas, nada mais.

Quem quer ver o prédio todo, como eu, vai ter que esperar pelo menos mais um ano, até que terminem toda a reforma e transportem para lá todo o (ENORME) acervo do Museu, que está desde sempre escondido do público, sem espaço para ser exposto.

Explicando: o velho MAC, lá na USP, não tinha nem de perto salas suficientes para poder mostrar porção significativa do acervo. Então essas obras todas, muitas valiosíssimas, ficavam simplesmente acumulando poeira em um depósito.

Agora, aos pouquinhos, os dirigentes do museu vão tirar essas obras do depósito para serem exibidas.

Antes tarde do que nunca, não é?

Vejam este vídeo da FOLHA que explica melhor:




Para quem quer entender melhor onde fica o novo MAC, e como se liga ao Parque do Ibirapuera (já que foi concebido por Niemeyer como parte daquele conjunto arquitetônico) pode ver no mapa abaixo. O museu é o objeto que aparece como dois retângulos cinzas paralelos, à direita da avenida 23 de Maio. Clicando nele, aparecerá a imagem em tamanho maior. E, mais abaixo, o mesmo mapa aparece em zoom.


26.1.12

Chef Felipe Bronze convoca governo a agir n'O Globo: "somos a terra do carnaval e da praia mas podemos ser mais"




Taí: gostei. Felipe Bronze escreveu no jornal O Globo aquilo que pensam muitos chefs. A falta de apoio do governo na promoção da gastronomia brasileira lá fora é mesmo vergonhosa. Se órgãos públicos do Peru e do México - só para citar países próximos - movem mundos e fundos para se mostrarem no exterior, o que estão esperando os nosso representantes? 

Coréia, Finlândia, Japão... vejo muitos exemplos, diariamente, de países que inventam eventos de gastronomia, subsidiam visitas de jornalistas, montam estandes em feiras, produzem filmes promocionais. Enquanto isso, ficamos vendo a banda passar - e com ela, o dinheiro de negócios e de turistas.

Gastronomia não só é cultura como movimenta grana pesada e atrai turistas. 

Já é mais do que hora. 





E aproveito o embalo para reproduzir aqui uma matéria que escrevi sobre o Felipe em maio, na revista GQ. Explica um pouco do que penso dele e de sua atual cozinha... Meus amigos bem sabem a aversão que tenho a chefs que fazem "consultorias". Por muito tempo invoquei com ele justamente por seu passado cheio das tais "consultorias" bobinhas e de resultados compreensivelmente ruins, e de quão mal comi nos estabelecimentos do tal grupo Marina para o qual trabalhou. 

Mas acho que hoje, mais maduro e focado em trilhar um caminho seu e (espero!) sem se distrair com projetos de terceiros ou menus bobinhos, ele tornou-se peça importante do cenário gastronômico carioca. E, descubro agora, peça com voz forte e vontade de fazer seu Rio andar para frente.








Sto. Bentô, Nagayama e Kinoshita: três restaurantes japoneses, três mundos


Rolinhos desajustados do Sto. Bentô: recheio de salmão e cream cheese e, por fora,
farelo de pele de salmão e raspa de limão

Quase todo mundo acha que meu trabalho é moleza. Comer fora o tempo todo, que maravilha! Esquecem-se, claro, que muita coisa que abre precisa de ajustes, para dizer o mínimo (vide rolinhos acima!).

Há uns dez dias fui conhecer um novo japonês, o Sto. Bentô, em Pinheiros. Apesar do nome, que faz pensar em bentôs (PFs japoneses), trata-se de um restaurante comum, servindo rolinhos, combinados, menus degustação, etc.



A primeira olhadela no menu já serviu de aviso para esperar muito mais fusion do que japonismos. Nada contra misturas, claro, mas trata-se de areia movediça, o chef que não sabe 100% onde anda, naufraga.

O chef, nesse caso, é Renan Brassolatti, que trabalhou por mais de quatro anos com Adriano Kanashiro, no restaurante Kinu do hotel Grand Hyatt e, mais recentemente, passou pela Brasserie Erick Jacquin. Currículo bem bom, por isso me surpreendi com os escorregões.

Pouparei o leitor de todos os detalhes, mas basta dizer que as misturas tinham mão pesada, mascaravam os peixes sem acrescentar sabores que preenchessem o vácuo e o arroz deixava a desejar.

Buri (olho-de-boi) desaparecido em molho excessivo

Na noite seguinte, por preguiça e comodismo, encontrei turma de amigos no Nagayama da rua Consolação. Um completo desastre: buri, carapau e robalo estavam em falta, o serviço era de ferver o sangue de tão atrapalhado, e não tinha saquê que prestasse além do único “importado” disponível, a 300 reais a garrafa. Nada pior do que um restaurante pseudo-fino que só dá duas opções de saquê ao cliente, nacional ou importado. Imagine se um bistrô francês só tivesse Almadén ou Chateau Seiladoquê, e mais nada – absurdo, não?

A longa introdução serve para explicar o porque da minha alegria intensa, ontem à noite, ao jantar no Kinoshita. Depois de duas noites de sushis meia-bomba, nada melhor do que sushis impecáveis para lavar a alma.

Cheguei e já fui avisando ao Murakami que não queria quentes, nem experimentações, nem fritura. “Podemos ficar só nos crus?”, implorei, morrendo de vontade de jantar só sushi e sashimi.

No começo, o Murakami fez minha vontade: atum, salmão, vieiras canadenses partidas ao meio na horizontal, delícia.


Aí, quando viu que dava, que meu humor já tinha melhorado, mudou a rota e começou a inventar. Serviu, por exemplo, um temaki de carne de wagyu crua, lindamente marmorizada.

Comi com gosto, fechando os olhos, suspirando.

E saí dali convencida que faço bem de recomendar a tanta gente o Kinoshita: sabendo pedir, e sentando-se no balcão, é imbatível.

A seguir, alguns highlights:



Para esta aqui, que nunca tem desejo de comer uni (ouriço), esse de ontem foi uma revelação. Talvez pelo vago defumadinho do shoyu, ou pelo gohan (arroz) mais-que-perfeito, não sei. O fato é que estava chose de lóc.



Danado, esse Murakami. Como não tinha toro, bateu um pouco de atum na faca com um naco de foie gras levemente selado, mas ainda mole. Moldou em cilindro com os dedos, em segundos, e arrematou com alga e ovas e raspas de limão siciliano. Minhanossasenhora!


Outro bocado surrealmente delicioso: sushi de ovas de bacalhau prensadas com gema de codorna. Preciso dizer mais?

Repeti as vieiras, e, no fim, Mura serviu um pratinho colo-de-mãe: arroz, shoyu, pasta de yuzu (cítrico japonês), fiapinhos de cebolinha e um ovo saborosíssimo, orgânico, com gema mole. Deus do céu!



Ao sair de lá, não conseguia apagar da cara o sorriso. Isso é japonês, o resto é conversa….


Sto. Bentô
Rua Artur de Azevedo, 299, Pinheiros
Tel: (11) 2579-2527

Kinoshita
Rua Jacques Félix, 405, Vila Nova Conceição, tel. 11 3849-6940

E mais Murakami e Kinoshita no Boa Vida:

Como descobri o Murakami, e o relato de um almoço no Kinoshita
Vídeo: Murakami canta Sinatra na cozinha do El Bulli!
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