29.5.12

Shin Zushi: sushis imbatíveis feitos por sushiman recém-chegado do Japão

À esq., Egashira Keisuke, sushiman top-de-linha

Desde que pus os pés em São Paulo, duas semanas atrás, já fui comer em um sem fim de restaurantes, uns melhores outros piores. Mas nenhum deixou um carimbo mais forte na memória do que o Shin Zushi, onde jantei no sábado.

Nada menos que fenomenal, me levando a concluir que, atualmente, tecnicamente falando, não há sushi melhor na cidade (por mais que eu adore o Jun e o Kinoshita).

Que arroz, Deusdoceu! Que atum, Deusdoceu!

Sentei-me no balcão (óbvio) e disse que só queria crus. Faltava peixe: tinham recebido muito mais clientes do que o esperado, me contaram. Por isso, tinha acabado quase tudo, da cavalinha ao buri (ou olho-de-boi, meu peixe favorito).

Eis aí o mais curioso: mesmo se virando só com lula, atum, uni (ouriço), ovas (in natura e secas/prensadas) e pargo, o novo (e craquíssimo) sushiman Keisuke Egashira, recém-chegado do Japão, deu um verdadeiro show. O sushiman principal do Shin, Ken Mizumoto (outro fera) teve que ficar traduzindo para nós, já que Keisuke mal fala português - mas valeu o esforço...

atum do Shin Zushi: dá de dez no bluefin que anda sendo
vendido a preço de ouro em outros japoneses


O atum (bachi, jamais kihada) estava melhor do que qualquer outro que já provei em São Paulo. E olhem que pude prová-lo de vários modos: em niguiri, em niguiri de sua barriga (toro), em sashimi, depois... raspado com colher e servido com finos pedacinhos de ciboulette.

O mesmo atum, raspado com colher e servido com ciboulette


O pargo veio em tiras, com raspas de "bottarga" de tainha. Também ótimo.


pargo com raspas de ovas secas


O golpe de misericórdia foi um "misturado" de lula em tiras, uni e ovas: espetacular!

Lula, ovas, uni

O único ponto menos alto, o camarão (também em sushi) me pareceu um pouco passado do ponto...

camarão

De ruim, no Shin, só mesmo o preço: mesmo valendo cada real cobrado, a conta foi ardidíssima. 


Shin Zushi: Rua Afonso De Freitas, 169, Tel.: (011) 3889-8700

ovas de salmão

E outros restaurantes japoneses ótimos de São Paulo, aqui no Boa Vida:

27.5.12

Visconde de Mauá: chef Mônica Rangel do restaurante Gosto com Gosto preside a nova Associação Brasil à Mesa


Os chefs Alex Atala, Mônica Rangel e Rodrigo Martins, no Gosto com Gosto

Quem me segue pelas mídias sociais já sabe que passei o último fim de semana em Visconde de Mauá, onde fui prestigiar a fundação oficial da Associação Brasil à Mesa, com direito à presença do assessor da presidência da Embratur, André Vilaron,  assembleia de membros-fundadores,  eleição da diretoria e assinatura do Estatudo. Nada mais natural que decidissem que a presidente seria Mônica Rangel, do restaurante Gosto com Gosto, a madrinha da história. Na vice-presidência, o carismático Wanderson Medeiros, do restaurante Picuí (esse garoto vai longe, querem apostar?)

Vocês podem perguntar: "E daí? E nós com isso?"

Pois acho que todo mundo que tenha algum interesse por gastronomia deveria estar a par do surgimento - agora oficial - dessa Associação. Não é à toa que quinze chefs de onze estados se arrastaram até a cidadezinha serrana (entre eles Alex Atala, Daniela Martins - Lá em Casa/PA; Flavia Quaresma – /RJ; Joca Pontes - Ponte Nova/PE; Rodrigo Martins – Vino/SP e Tereza Paim - Terreiro Bahia/BA).

Se foram até lá tantos, e de tão longe, é porque nitidamente começa a pegar embalo a briga de muitos chefs pela valorização, por parte do governo, da gastronomia do Brasil. Em termos práticos, eles querem democratizar a gastronomia, e que ela seja vista como a peça importante que é da nossa cultura. Querem que se conheça mais sobre nossas diferentes cozinhas regionais e os mil e um ingredientes desconhecidos e pouco valorizados. E que o governo apoie, lá fora, como faz o Peru, ações de divulgação, em eventos de gastronomia e/ou turismo.

Eu resumi tudo resumidíssimo, claro, mas o fato é que os objetivos são nobres, e a turma envolvida, muito boa. Que a associação tenha longa vida e renda frutos: o Brasil só tem a ganhar.

Júri do Concurso Gastronômico de Visconde de Mauá: e haja pinhão!
No júri: Roberta Malta, Alex Atala, Josimar Melo e esta que vos escreve...
Foto: Mônica Rangel

 
P.S.1 Não posso deixar de citar o concurso do melhor prato feito com pinhão, este ano em sua 20a edição. Nós, os jurados, sentamo-nos em longa mesa no palco, sob holofotes, e fomos dando notas às criações dos chefs e confeiteiros locais. Não posso dizer que estivesse tudo gostoso, mas achei comovente o empenho dos concorrentes e o entusiasmo de todos os envolvidos. Se mais cidades brasileiras tivessem concursos como esse, focando em um ingrediente típico, conheceríamos muito melhor os nossos quintais, os nossos terroirs. Neste link, mais sobre o concurso, em matéria da jornalista Roberta Malta, com várias fotos.

P.S.2  Mais sobre o movimento Brasil à Mesa no Boa Vida, neste link.

P.S.3  - Nada como um lugar belíssimo para tornar o trabalho gostoso. Eu tinha me esquecido o quão bela é aquela serra, com cheirinho bom de pinheiros e mato, cavalos pastando à beira da estrada e comidinha de fogão a lenha. Um deleite....
















24.5.12

50 Melhores Restaurantes: a lista que muitos amam odiar



Já fazem duas semanas que foram anunciados os eleitos do importante ranking "The World's 50 Best Restaurants" mas o bafafá continua. Em conversa com chefs e uma amiga carioca o assunto voltou à tona. Outra amiga me pergunta minha opinião, para uma matéria que está escrevendo sobre o tema.

Sendo assim, achei que viria a calhar postar aqui a versão original (e mais longa) da coluna que escrevi para a Folha falando disso... Lá vai:

São mesmo os 50 melhores do mundo?


   Fui comer no Mugaritz, famoso restaurante do chef Andoni Aduriz em San Sebastian, na Espanha, número 3 no ranking Os 50 Melhores Restaurantes do Mundo. Não gostei. Mês passado jantei no nono colocado, o Le Chateaubriand, em Paris. Trata-se de um bistrô dos mais barulhentos, com serviço apressado, mesas espremidas e comida ótima - mas não espetacular. 

   Diante disso, poderia juntar-me às crescentes multidões que acusam de injusta e fajuta a lista dos “50 Best”, cuja edição 2012 será anunciada no próximo dia 30 em Londres.  Lista que hoje em dia tem o poder de lotar os restaurantes altamente cotados, mais venerada por chefs até do que o Guia Michelin. Ao invés disso, pergunto: existe algum ranking 100% objetivo ou exato? Dá para elaborar regras e critérios que pareçam corretos para todos? Confia-se no Michelin cegamente? Claro que não.

    Já disse muito e repito: o ranking dos 50 Best deve ser visto não como uma declaração absoluta de que tal restaurante é melhor do que tal. Compilado a partir dos votos de mais de 700 chefs, restaurateurs, gourmands e críticos gastronômicos (entre os quais me incluo), define apenas quem está em alta – e digo isso no bom sentido.  Uso-o como utilíssimo retrato de quais restaurantes mereceram, no último ano, mais atenção e elogios dos especialistas.

      A lista está aí para ficar e tem um poder monstruoso. Grant Achatz, do Alinea, em Chicago, conta: “Em maio de 2010 fui a Londres para a premiação. Alinea subiu para a sétima posição no ranking, mas ainda por cima foi nomeado o Melhor Restaurante na América do Norte. (...) Pessoas ligavam no restaurante dizendo que nosso site tinha saído do ar. Meu sócio me mandou um texto em Londres: ‘Servidores caíram. Cinquenta mil pedidos de reservas na última hora! Telefones não param de tocar’ ”.

    Aos que estão no business, digo: ao invés de remarem contra a maré em vão, mexam-se. Apresentem-se em fóruns lá fora, recebam estrangeiros como chefs-convidados, apareçam na mídia e na internet. A dura verdade é que entrar para a tão almejada (e polêmica) lista dá muito trabalho, e manter um restaurante sempre no mesmo alto nível de excelência não passa do primeiro requisito. O segundo consiste em atrair jurados a provar sua cozinha. 

E  mais posts sobre o 50 Best aqui no Boa Vida:





22.5.12

Steirereck, meu restaurante favorito em Viena




Por que resolvi falar de Viena de repente? Simples: estou em dívida com a leitora Cecília Menin, que está indo para lá em breve e me pediu dicas (meus posts antigos simplesmente desapareceram da internet!).


Cecília, em primeiro lugar, te peço mil desculpas pela demora. O post anterior, sobre o Anthony Bourdain, explica o porquê da minha recente falta de tempo...  Semanas in-ten-sas!


Reproduzo aqui abaixo um post antigo sobre o restaurante Steirereck que pode ser útil - lembrando que não tenho como saber se hoje continua tão bom quanto me pareceu três anos atrás.

Lá vai:

Nada no mundo me deixa mais feliz do que comer maravilhosamente bem. E - que sorte! - meu almoço de sábado foi um dos melhores da minha vida. Sério. Mesmo sabendo que o restaurante Steirereck tem duas estrelas no guia Michelin, e é considerado o melhor de Viena, não esperava aquilo tudo num mero almoço. E sem sequer ter pedido o menu degustação!



Do começo ao fim, foi um almoço simplesmente es-pe-ta-cu-lar. Tanto assim que quando veio a conta - 200 Euros pra dois, com cinco serviços, uma bela garrafa de tinto austríaco, espumante pra começar, etc - achei uma pechincha.

Primeiro, o Steirereck fica num cenário idílico, bem no centro do parque Stadtpark. Ventava muito, as últimas folhas sendo arrancadas à força das árvores e rodopiando pelo céu cinzento. Ao entrar no restaurante, vi que as mesmas folhas eram o tema central do décor. Apareciam esculpidas em gesso e presas ao teto, e em tons desbotados estampando as paredes.

Ao invés de cadeiras, imensas e confortabilíssimas poltronas de veludo. Ao invés de reles toalhas de mesa de algodão, lindas toalhas de linho rústico, passadas à perfeição, e, pra enfeitar, enormes flores vermelhas. Talheres Christofle, of course. Taças Riedel, of course.

E logo chega o carrinho de espumantes. Sou do time que prega "em Roma como os romanos", então fui de espumante austríaco ao invés de champagne. Abaixo a globalização! Pálido, bolhas pouco persistentes, mas fresco e leve e perfeito para o início dos trabalhos.



O amuse bouche parecia um ikebana de tão milimetricamente arranjado. Um mini pedacinho de frango com creme de rúcula, e um micro cubinho de geléia de buttermilk salpicado de ervinhas secas com gosto de camomila. Bom, mas o que veio depois estava muito melhor.

Minha primeira entrada: verdes variados, lâminas de imensos cogumelos, lâminas de nozes e uvas que haviam sido descascadas e recheadas com creme de abacate (nossa, que trabalheira que deve dar pra preparar!).



Segundo: língua de vitela cozida, depois passada em sementes de flaxseed ligeiramente tostadas e salgadas. Ao lado, as mais delicadas vagens francesas, como soldadinhos verdes, unidas por um vestígio de aspic e temperadas com vinagre de riesling, pernod, alho e échalottes. A garçonete surge então com uma molheira de prata e pinga gotas de óleo de semente de girassol. Deliciosamente estranho? Estranhamente delicioso? Eu só tiraria um pouco das sementes, pra sentir melhor o gosto da língua, que é das minhas coisas favoritas...



Terceiro: um mignonzinho de veado assado lentamente e servido ainda saignant, partido pela metade de alto a baixo. Ao lado, um purê etéreo de abóboras.  E lá veio ela de novo, a mesma menina, e com pinças de prata depositou ao lado da carne rubi uma tarteleta de massa folhada, queijo de cabra e figo caramelado. No molho, havia um susto de café, só pra acrescentar outra camada à complexidade do todo. Preciso dizer mais?





Quem é o louco ou o tonto que recusaria um serviço de queijos depois de ver um carrinho desses? Mergulhei nele às cegas - pra que pedir queijos franceses que já comi dezenas de vezes? Pedi logo um Vorarlberger Bergkase (brlé blré, nominho difícil que enrola a língua!), rijo e com aquela mesma textura granulosa de um grana padano. E um queijo alemão feito como um camembert, E um Kuh Kracher, um azul que dá coice, de derrubar leão. E, meu favorito, o Gravanzina, piemontês, que derretia sobre o mármore, chamando meu nome. Com sementes tostadas de girassol e mais uma fatia do esplêndido pão "de camponês".





Ainda tive gula o suficiente pra mandar um belíssimo suflê de framboesas renversé e libertado de seu ramekin à mesa, uma nuvenzinha rosada e deliciosa. Com sorvete, claro!



E então vieram as mignardises, quiçá as melhores que já comi. Gostei especialmente dos cubinhos brancos. Eram marshmallows, mas muito melhores do que marshmallows. Por dentro, lembravam o recheio de Nhá Benta. E por fora faziam créc créc. Tive que pedir pra repetir!



Saímos, andamos pelo parque. Voltei ao hotel e dormi o sono dos valentes, pra acordar só no dia seguinte.

Bom, acho que já deu pra entender... Viena não faz nenhum sentido sem o Steirereck.
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