11.10.10

Dresden! Primeiras impressões da Saxônia

Desembarcando em Dresden: lindo pôr-do-sol



Acabo de chegar à Saxônia: Dresden, mais especificamente. E devo confessar que o pouquíssimo que eu sabia sobre a cidade vinha, basicamente, do livro Slaughterhouse Five, de Kurt Vonnegut, que li uns 15 anos atrás. Ou seja: eu sabia que a cidade tinha sido linda mas depois de pesados bombardeios durante a Segunda Guerra.... tinha sido destruída.

Triste dizer que depois de rápida expedição exploratória percebe-se que... Dresden é exatamente isso: a ex-bela da Europa.

Uma cidade que ainda chora sua desgraça, cujo povo acha difícil se conformar com a perda de tantos monumentos e prédios históricos. Muitos foram refeitos ou "remendados" e percebe-se exatamente onde, pela diferença no tom das pedras. E outros simplesmente cederam o lugar para prédios modernos, muitas vezes do tipo zero-charme à moda comunista (sim, a Saxônia é uma região no leste da Alemanha e, portanto, passou décadas sufocada pelos déspotas vermelhos).

Mas felizmente ainda há bons nacos de cidade velha com belíssimos museus e igrejas que a fazem, sim, merecedora de uma visita. A prova está nas imagens que seguem.... pode não ser nenhuma Praga, mas... não é linda a velha Dresden?






9.10.10

Uma noite em Paris: degustando Krugs com Olivier Krug!



O convite veio duas semanas atrás: "quer ir a Paris degustar grandes cuvées de Krug e entrevistar Olivier Krug?" 

Sim, sim, sim! 

Eu tinha viagem marcada para a Europa, de todo modo (amanhã eu conto onde é que estou), e... porque não fazer um pequeno desvio de rota e ir passar uma noite em Paris?

Olivier é sobrinho de Remy, o grande vinhateiro que me introduziu ao Clos de Mesnil, uns dez anos atrás, em São Paulo. Hoje, mesmo sendo a megamultinacional LVMH dona da marca, Olivier continua na maison - fato raro, um membro da família vendedora permanecer ativo na empresa depois de vendida. 

E pelo que entendi, ele não está na Krug a passeio, e sim como peça-chave do processo de elaboração dos champanhes. Ele faz parte de um comitê de sete pessoas que degusta mais de mil (sim, mil!) amostras de vinhos no processo de elaboração da Krug Grande Cuvée, e que decide qual será a composição exata do champanhe ano a ano.

Além disso, ele faz papel de garoto propaganda, claro. E dos mais simpáticos, totalmente sem afetações que poderíamos esperar de um herdeiro, e chefão de tão prestigiosa maison. Assim que tiver tempo, vou colocar a entrevista online...

Sentei-me para uma conversa franca com ele, em seu hotel, e, mais tarde, segui para um belíssimo evento que organizaram para um pequeno número de "Krug lovers", como eles dizem. Gente com bala o suficiente para beber Krug com grande frequência. 

Eles convidaram chefs de toda parte para servirem um prato cada um, no grande salão da École des Beaux-Arts, na Rive Gauche. Inclusive a Angela Hartnett, hoje no Murano, em Londres, única dos fiéis escudeiros de Gordon Ramsay que não abandonou o barco (ainda!). 

ADENDO: Abandonou, sim! Acabo de descobrir que Angela comprou o Murano do grupo GRH (Gordon Ramsay Holdings)! Ela disse ao jornal Evening Standard: "O Murano não tinha o meu nome na fachada. Da primeira vez que pedi para falar com Gordon e disse que queria meu próprio restaurante e pedi o conselho dele ele disse 'Porque você não compra o Murano?' Eu disse 'Adoraria, mas nunca pensei que você topasse vender'".
Pelo visto, ele topou. Anda precisando de dinheiro em caixa... Ponto para Hartnett, e mais uma baixa para Ramsay.



Comemos bem, claro. Estavam lá, entre outros, o "nosso" Tsuyoshi Murakami, do Kinoshita, que aliás roubou as atenções. Nunca tinham visto um japonês tão expansivo! Ele até cantou!

Tsuyoshi Murakami e Marcelo Fernandes, do Kinoshita,
na entrada da École des Beaux Arts

Mas vamos ao que interessa. Bebemos nada menos que:

Krug Grande Cuvée, Krug Clos du Mesnil 1998, Krug Vintage 1998 e Krug Rosé. Ah, sim, e meu favorito da noite: um Vintage 95. 



Vinhos que não se parecem nada com nenhum outro champagne. Ao mesmo tempo elegantíssimos e cheios de personalidade. 

Preciso dizer mais?


8.10.10

Hotel The Savoy, em Londres, reinaugurado sem o restaurante by Gordon Ramsay



I-na-cre-di-tá-vel. O venerando hotel The Savoy, de Londres, cujas suítes dão vista para o Tâmisa, que estava fechado para reformas desde 2007, finalmente foi reaberto no dia 10.

Quando o Savoy deixou de receber hóspedes, a cadeia de hotéis Fairmont, proprietária do hotel, vendeu milhares de relíquias e bugigangas colecionadas ao longo de décadas, de sofás a baldes de gelo, de bandejas de prata a um piano branco de cauda, de uma pista de dança desmontável a um biombo de mogno de 4 metros de altura.

O fechamento foi uma tristeza: os empregados deram adeus e uma taça de champanhe aos últimos hóspedes, e serviram, pela derradeira vez, o tradicional chá inglês (costume mantido ali, diariamente, durante 118 anos consecutivos). O concierge, na época, disse que viu gente com lágrimas nos olhos. O jornal The Guardian disse: “Para os 500 funcionários que, em conjunto, dedicaram milhares de horas de trabalho ao Savoy, hoje é como se alguém da família tivesse morrido”.

As obras custaram uma montanha de dinheiro – mais de 100 milhões de libras – e duraram muito mais do que os 16 meses previstos. Espero que eles tenham conseguido renovar e refrescar os interiores sem matar a alma do hotel (que ao longo dos anos foi freqüentado por incontáveis celebridades, como Oscar Wilde, Winston Curchill e Frank Sinatra).

As diárias começam em 350 libras e reservas podem ser feitas por email (savoy.reservations@fairmont.com) ou telefone.

Já o restaurante do hotel, o lendário The Savoy Grill, infelizmente vai demorar ainda mais para ser reinaugurado. A notícia saiu quinta-feira no jornal inglês Caterer and HotelKeeper:
“A reabertura do Savoy Grill será retardada por sete semanas. (...) Um porta-voz do grupo Gordon Ramsay Holdings, que irá operar o icônico restaurante, disse” ‘O curto atraso se deve a alguns problemas estruturais no prédio que já foram consertados’”.

Mal posso esperar para experimentar. Primeiro, porque Ramsay trará de volta velhos (e delicosos) clássicos como chateaubriand com batatas souflées, coquetel de camarão e pêssegos Melba. E segundo porque será um grande teste para o chef, que anda mal das finanças e em baixa: será o Savoy Grill sua redenção? A ver....  O chef teve outra péssima notícia esta semana: foi oficialmente anunciada a saída de sua fiel escudeira Angela Hartnett do GRH (Gordon Ramsay Holdings): ela comprou o restaurante Murano do ex-patrão e deslancha agora carreira-solo.

The Savoy: The Strand, tel. (44-20) 7836-4343, www.the-savoy.com/

Aqui, link para matéria sobre a reinauguração na CNN 

E aqui, link para um site com vários filminhos antigos mostrando festas e famosos no Savoy.

Restaurante Dos Cielos, em Barcelona: a crítica faz um mea culpa


Hotel Me, em Barcelona

Depois de um pit stop relâmpago em Paris seguido de um dia inteiro de aeroporto em aeroporto, cheguei, exausta, ao meu destino final. Não vou contar em que parte da Europa estou - por enquanto!

Me faltam forças para escrever grande coisa, então deixo vocês com este post sobre o Dos Cielos, publicado originalmente lá no portal Club Alfa:

                                                                           ***

Hora da verdade: críticos de restaurantes erram com frequência, e o que é pior: têm birras que agem como filtros entre eles e um retrato fiel de um restaurante.

Embora eu goste de achar que meus erros são poucos – mais pelo esforço investido do que alguma divina sabedoria – em contrapartida admito, e não é de hoje, que minhas birras são muitas. Restaurante gastronômico tocando música lounge, eletrônica? Detesto (aconteceu no Dos Palillos, semana passada, em Barcelona). Se chego e me dão um menu com muitos erros de ortografia, já vejo a comida com outros olhos. Ferranismos mal-copiados, então, são a praga da década: e dá-lhe farelos e espumas e risquinhos no prato sem gosto algum ou pior, incomíveis.

Mas minha birra número um são os chef-consultores.

Pra mim, restaurante tocado por algum fantoche de chef-consultor nunca tem alma. E quando mais longe estiver o chef-consultor em questão, pior o resultado.

Fui ao Eñe, o restaurante dos espanhois Sergio e Javier Torres em São Paulo, duas vezes. Não gostei. Ainda por cima, liguei algumas vezes para pedir informações e fui mal atendida. Resultado? Risquei da minha lista para sempre.

Aí os gêmeos Torres, que vivem em Barcelona mas “supervisionam” a muuuita longa distância o Eñe, abriram uma filial no Rio. Minha amiga C., que sabe do que fala, achou bem fraquinho. Resultado? Concluí que esses gêmeos não sabem o que fazem.

Sim, eu sei que não faz sentido eu gostar do L’Atelier de Joël Robuchon em Nova York (onde o famoso chef só aparece muito de vez em quando) e por outro lado implicar se dois espanhóis abrem restaurante em São Paulo. Mas é que eu acho que só mesmo os melhores do mundo conseguem a proeza de segurar um altíssimo padrão estando longe. E mesmo assim, muitos überchefs quebram a cara ao tentarem: vide Gordon Ramsay, que deu (dez) passos maiores que a perna.

Não por acaso, os melhores restaurant-empires do mundo reúnem seus “filhotes” em uma região restrita. É o olho do dono que engorda o boi. Exemplos: o genial Keith McNally (Minetta, Pastis, Pulino’s etc.) e Daniel Boulud (Daniel, DBGB, DB Bistro, Bar Boulud), que só agora se arrisca a dar o primeiro passo na Europa.


Mas assim como sempre digo que o pior burro é o que não aprende, também é verdade que o pior crítico é o que não sabe derrubar seu próprio preconceito.

Por insistência de um amigo que entende muito do assunto, reservei mesa no Dos Cielos, o restaurante relativamente novo dos gêmeos no 24o andar do hotel ME, em Barcelona. Meio fora de mão, em um bairro de negócios que chamam de Zona 22. Esperava pouco, confesso.



Pois bem feito para mim: o Dos Cielos é um espetáculo de restaurante, o melhor de todos que provei nesta ida a Barcelona. Lugar explicitamente fino, com guardanapos de linho enormes, mesas espaçadas, taças do melhor cristal, serviço primoroso, não mais do que trinta lugares. Pães impecáveis, feitos ali mesmo.



E mais: os gêmeos cozinham! Eles existem! :)


Mal pude esconder meu espanto quando um e depois o outro vieram à mesa – pasmem! – dar um alô e tirar o nosso pedido. E não é porque sou jornalista, eles não me conhecem e notei que fizeram o mesmo com todas as outras mesas.


Já comecei a ver a coisa com outros olhos....


Eu:
“Ah, sim, oi, muito prazer. Vocês estão sempre aqui?”


Responde o gêmeo a ou b, não sei bem, perplexo:
“Sim, claro, porquê?”


“Ah, nada não, só curiosidade...” :)


Fiquei intrigada. Resolvi soltar a rédea e tirar a prova: menu confiance!




Os amuse bouches prometiam: em um pratinho, bolinhos de bacalhau muito bem feitos. No outro, uns tomatinhos sem pele deliciosos, recheados com um creminho quase morno, e uma lasquinha de enguia por cima.




Vejam essa “sopa” que beleza: não era fria nem quente, mas intensamente saborosa. Cada colherada parecia trazer um novo sabor: capim santo, caracol do mar e uns camarõezinhos molinhos e quase doces.



Essa folha sobre o prato, para quem não conhece, é uma diversão: tem gosto de ostra! O garçom recomendou que comêssemos antes, só ela. Vinha por baixo uma ostra de verdade e pedaços de pepino. E sabem de que era feito o caldo em volta? De pé de vitela! Isso que eu chamo de mar-e-montanha original! Mais uma vez, execução perfeita.





Seguimos com um prato ultra 'exótico': vieira com creme de mandioca e mandioquinha com espuma de salsinha. ;)



Puxa, onde será que esses gêmeos aprenderam a gostar de mandioquinha? Outra delícia, ainda mais para quem, como eu, adora mandioquinha.

Mais um pratinho pouco inventivo porém muito bem-sucedido: ravióli recheado de foie e castanhas, com tomate seco, azeitona kalamata e caldo de açafrão.



Apesar dos ingredientes fortes, a mão leve dos chefs fez o conjunto elegante e delicado. Não à toa, este tornou-se um clássico dos gêmeos, reproduzido, inclusive, no Eñe (não sei com que grau de fidelidade).

Para testarem os limites de nossa gula, mandaram na sequência um arroz “meloso”, como dizem em castellano, com pepino do mar.




Na Catalunha essa “coisa” chama-se espardeña e custa uma fortuna, cerca de 90 Euros o quilo. Trata-se do órgão interno de uma espécie de minhoca do mar gigante, muito típica dali e desta época. Pertence à mesma família de bichos (equinodermos) que a estrela do mar. Em Cádiz também há espardeñas, mas lá chamam-se.... carajo de mar! :o

Enfim, melhor eu não contar maiores detalhes. O fato é que o pepino aquático é uma iguaria rara, sequer vendida nas peixarias tamanha a escassez, que para mim tem uma textura parecida com a de uma cauda de lagosta. E não nego que o arroz meloso com carajo de mar, temperado com azeite do bom, estava chose de lóc.


Achei que o almoço tinha chegao ao seu ápice mas... ledo engano. Ainda tinha muita coisa pela frente! Inclusive o prato mais gostoso de todos, a meu ver: cherne com um molho bem “meloso" de carne, cebolinha cortada em julienne finíssima e tomate concassé. A acidez do tomate contrabalançava a gordura do molho ultradenso, enquanto o peixe era um primor de frescor e cuisson. Um prato, mil texturas....


Terminamos os salgados descendo um ou dois pontos. A paleta de cabrito de leite, (kid em inglês) apesar de tenra, vinha coroada de um ar de leite de cabra muito boboca. Iguamente dispensáveis os cubinhos de uma espécie de manjar de amêndoa.



A apresentação da carne ainda no osso com seu molho cor de ferrugem pareceu grosseira em comparação ao que antecedêra (ainda mais assim, comido pela metade ;) ). Mas entendam: estou sendo chata, o prato estava gostoso, etc – só não foi o ponto alto.

Inacreditavelmente, ainda achamos apetite para testar o plâteau de queijos. Para minha surpresa, pesadamente francês, com direito a Roquefort, Comté, Reblochon, Langres, etc. Naquele dia ofereciam três queijos da região, inclusive um de sabor um tanto neutro feito a vinte minutos de Barcelona, chamado La Rocha, se não me engano.



Ah, isso sem falar no pré-dessert, que, confesso, já nem lembro mais o que era.




E... ah, sim, sobremesa! Uma gostosura mirabolante de chocolate com cubos de bolo, para comer lambendos os beiços.



E mignardises, que ninguém é de ferro: três delicinhas achocolatatas, inclusive uma bolota que parecia ter sido passada em migalhas de corn flakes e depois no chocolate. Nham.

Almocinho básico, que tal? Levantamos da mesa lá pelas 5!

Conclusão: mea culpa, mea culpa. Retiro o que disse no passado: os gêmeos sabem, sim, cozinhar. E bem demais.

Só achei errado eles nos darem de lembrança um menu degustação que não foi exatamente o que nos serviram....Tomar cinco minutos para imprimir um menu correto teria sido bem mais gentil - e é praxe em restaurantes desse nível, onde inclusivem costumam até incluir os vinhos degustados. Que não foram poucos, aliás... Hic! Santo caderninho de notas! :)

p.s. mandoquiña es de doer, no?!




Dos Cielos: hotel ME, Rua PERE IV, 272, tel. (34-902) 14 44 40
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