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26.1.12

Sto. Bentô, Nagayama e Kinoshita: três restaurantes japoneses, três mundos


Rolinhos desajustados do Sto. Bentô: recheio de salmão e cream cheese e, por fora,
farelo de pele de salmão e raspa de limão

Quase todo mundo acha que meu trabalho é moleza. Comer fora o tempo todo, que maravilha! Esquecem-se, claro, que muita coisa que abre precisa de ajustes, para dizer o mínimo (vide rolinhos acima!).

Há uns dez dias fui conhecer um novo japonês, o Sto. Bentô, em Pinheiros. Apesar do nome, que faz pensar em bentôs (PFs japoneses), trata-se de um restaurante comum, servindo rolinhos, combinados, menus degustação, etc.



A primeira olhadela no menu já serviu de aviso para esperar muito mais fusion do que japonismos. Nada contra misturas, claro, mas trata-se de areia movediça, o chef que não sabe 100% onde anda, naufraga.

O chef, nesse caso, é Renan Brassolatti, que trabalhou por mais de quatro anos com Adriano Kanashiro, no restaurante Kinu do hotel Grand Hyatt e, mais recentemente, passou pela Brasserie Erick Jacquin. Currículo bem bom, por isso me surpreendi com os escorregões.

Pouparei o leitor de todos os detalhes, mas basta dizer que as misturas tinham mão pesada, mascaravam os peixes sem acrescentar sabores que preenchessem o vácuo e o arroz deixava a desejar.

Buri (olho-de-boi) desaparecido em molho excessivo

Na noite seguinte, por preguiça e comodismo, encontrei turma de amigos no Nagayama da rua Consolação. Um completo desastre: buri, carapau e robalo estavam em falta, o serviço era de ferver o sangue de tão atrapalhado, e não tinha saquê que prestasse além do único “importado” disponível, a 300 reais a garrafa. Nada pior do que um restaurante pseudo-fino que só dá duas opções de saquê ao cliente, nacional ou importado. Imagine se um bistrô francês só tivesse Almadén ou Chateau Seiladoquê, e mais nada – absurdo, não?

A longa introdução serve para explicar o porque da minha alegria intensa, ontem à noite, ao jantar no Kinoshita. Depois de duas noites de sushis meia-bomba, nada melhor do que sushis impecáveis para lavar a alma.

Cheguei e já fui avisando ao Murakami que não queria quentes, nem experimentações, nem fritura. “Podemos ficar só nos crus?”, implorei, morrendo de vontade de jantar só sushi e sashimi.

No começo, o Murakami fez minha vontade: atum, salmão, vieiras canadenses partidas ao meio na horizontal, delícia.


Aí, quando viu que dava, que meu humor já tinha melhorado, mudou a rota e começou a inventar. Serviu, por exemplo, um temaki de carne de wagyu crua, lindamente marmorizada.

Comi com gosto, fechando os olhos, suspirando.

E saí dali convencida que faço bem de recomendar a tanta gente o Kinoshita: sabendo pedir, e sentando-se no balcão, é imbatível.

A seguir, alguns highlights:



Para esta aqui, que nunca tem desejo de comer uni (ouriço), esse de ontem foi uma revelação. Talvez pelo vago defumadinho do shoyu, ou pelo gohan (arroz) mais-que-perfeito, não sei. O fato é que estava chose de lóc.



Danado, esse Murakami. Como não tinha toro, bateu um pouco de atum na faca com um naco de foie gras levemente selado, mas ainda mole. Moldou em cilindro com os dedos, em segundos, e arrematou com alga e ovas e raspas de limão siciliano. Minhanossasenhora!


Outro bocado surrealmente delicioso: sushi de ovas de bacalhau prensadas com gema de codorna. Preciso dizer mais?

Repeti as vieiras, e, no fim, Mura serviu um pratinho colo-de-mãe: arroz, shoyu, pasta de yuzu (cítrico japonês), fiapinhos de cebolinha e um ovo saborosíssimo, orgânico, com gema mole. Deus do céu!



Ao sair de lá, não conseguia apagar da cara o sorriso. Isso é japonês, o resto é conversa….


Sto. Bentô
Rua Artur de Azevedo, 299, Pinheiros
Tel: (11) 2579-2527

Kinoshita
Rua Jacques Félix, 405, Vila Nova Conceição, tel. 11 3849-6940

E mais Murakami e Kinoshita no Boa Vida:

Como descobri o Murakami, e o relato de um almoço no Kinoshita
Vídeo: Murakami canta Sinatra na cozinha do El Bulli!

9.10.10

Uma noite em Paris: degustando Krugs com Olivier Krug!



O convite veio duas semanas atrás: "quer ir a Paris degustar grandes cuvées de Krug e entrevistar Olivier Krug?" 

Sim, sim, sim! 

Eu tinha viagem marcada para a Europa, de todo modo (amanhã eu conto onde é que estou), e... porque não fazer um pequeno desvio de rota e ir passar uma noite em Paris?

Olivier é sobrinho de Remy, o grande vinhateiro que me introduziu ao Clos de Mesnil, uns dez anos atrás, em São Paulo. Hoje, mesmo sendo a megamultinacional LVMH dona da marca, Olivier continua na maison - fato raro, um membro da família vendedora permanecer ativo na empresa depois de vendida. 

E pelo que entendi, ele não está na Krug a passeio, e sim como peça-chave do processo de elaboração dos champanhes. Ele faz parte de um comitê de sete pessoas que degusta mais de mil (sim, mil!) amostras de vinhos no processo de elaboração da Krug Grande Cuvée, e que decide qual será a composição exata do champanhe ano a ano.

Além disso, ele faz papel de garoto propaganda, claro. E dos mais simpáticos, totalmente sem afetações que poderíamos esperar de um herdeiro, e chefão de tão prestigiosa maison. Assim que tiver tempo, vou colocar a entrevista online...

Sentei-me para uma conversa franca com ele, em seu hotel, e, mais tarde, segui para um belíssimo evento que organizaram para um pequeno número de "Krug lovers", como eles dizem. Gente com bala o suficiente para beber Krug com grande frequência. 

Eles convidaram chefs de toda parte para servirem um prato cada um, no grande salão da École des Beaux-Arts, na Rive Gauche. Inclusive a Angela Hartnett, hoje no Murano, em Londres, única dos fiéis escudeiros de Gordon Ramsay que não abandonou o barco (ainda!). 

ADENDO: Abandonou, sim! Acabo de descobrir que Angela comprou o Murano do grupo GRH (Gordon Ramsay Holdings)! Ela disse ao jornal Evening Standard: "O Murano não tinha o meu nome na fachada. Da primeira vez que pedi para falar com Gordon e disse que queria meu próprio restaurante e pedi o conselho dele ele disse 'Porque você não compra o Murano?' Eu disse 'Adoraria, mas nunca pensei que você topasse vender'".
Pelo visto, ele topou. Anda precisando de dinheiro em caixa... Ponto para Hartnett, e mais uma baixa para Ramsay.



Comemos bem, claro. Estavam lá, entre outros, o "nosso" Tsuyoshi Murakami, do Kinoshita, que aliás roubou as atenções. Nunca tinham visto um japonês tão expansivo! Ele até cantou!

Tsuyoshi Murakami e Marcelo Fernandes, do Kinoshita,
na entrada da École des Beaux Arts

Mas vamos ao que interessa. Bebemos nada menos que:

Krug Grande Cuvée, Krug Clos du Mesnil 1998, Krug Vintage 1998 e Krug Rosé. Ah, sim, e meu favorito da noite: um Vintage 95. 



Vinhos que não se parecem nada com nenhum outro champagne. Ao mesmo tempo elegantíssimos e cheios de personalidade. 

Preciso dizer mais?


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