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14.11.11

Fórum Gastronomika em San Sebastian, Espanha: Brasil, México e Peru homenageados

Ferran Adrià no Gastronomika de 2010


Com algum atraso, eis a coluna de quinta-feira passada no Folha Comida, sobre o Gastronomika, fórum que começa no domingo que vem em San Sebastian...


ALEXANDRA FORBES

Comitiva brasileira na Espanha



Extra! Extra! A Europa descobre que existe gastronomia pensante no Brasil!


CHEFS BRASILEIROS estão alegres e orgulhosos -e com razão- por sermos, com peruanos e mexicanos, os grandes homenageados do fórum Gastronomika, que acontece neste mês em San Sebastian, no País Basco.
Nunca tivemos presença tão maciça em importante evento estrangeiro. Atrás deles -Helena Rizzo, Alex Atala, Rodrigo Oliveira, Roberta Sudbrack e Claude Troisgros- vai outra comitiva, de jornalistas.
Extra! Extra! A Europa descobre que existe gastronomia pensante no Brasil!
A julgar pelo que vi ali no ano passado, quando o tema era Nova York, temo que também dessa vez alguns sucumbirão à tentação de fazer a chamada palestra-cartão-de-visitas. A fórmula? Contar de si, mostrar imagens do restaurante e terminar preparando alguma receita. Os americanos David Chang (dono do império Momofuku) e Drew Nieporent (do Nobu) ficaram apagados perto da alta técnica e dos belos vídeos exibidos por chefs espanhóis como Joan Roca e Andoni Aduriz.
Está errado nivelar por baixo: o chef que faz isso perde rara chance de mostrar facetas mais aprofundadas de sua cozinha para gente interessada e preparada. A plateia compõe-se de chefs, estudantes de gastronomia e alguns dos maiores críticos gastronômicos do mundo. Muitos terão feito sua lição de casa no Google e, espera-se, conhecem ao menos um pouco do Brasil além de Alex Atala, feijoada e churrasco.
Terei comigo meu senso crítico, mas também meu patriotismo: não nego que estarei torcendo para que brilhemos. Mas isso exigirá dos chefs grande esforço de reflexão e de preparo, além de boa dose de carisma (neste departamento, ao menos, estamos bem). Inevitavelmente, serão feitos paralelos entre as chamadas "cozinhas emergentes" e seus líderes, Atala e o peruano Gaston Acúrio. Pouco importa, é para o bem. O que emerge, na verdade, não é tanto nossa cozinha, mas o interesse dos europeus por ela. Desde que se evite a obviedade (yes, nós temos banana e Amazônia e mandioca) e que se exiba profundidade nas apresentações, o Brasil sairá no lucro.

ALEXANDRA FORBES, jornalista gastronômica e "foodtrotter", conta de suas andanças e comilanças também no Twitter (@aleforbes)

E mais Gastronomika e San Sebastian no Boa Vida:


Almoço no restaurante Akelarè com o chef Daniel Boulud - com vídeo

Um jantar inesquecível no Arzak... com o Arzak!

Minha lista dos melhores restaurantes de San Sebastian e arredores: Bernardina, Etxebarri, Elkano, etc.

Jantar com Anthony Bourdain, Dave Chang et. al no Elkano: os melhores peixes e frutos do mar na grelha que já provei - com vídeo

O restaurante Mugaritz, do chef Andoni Aduriz: único

Abertura do Gastronomika 2010: noitada no Museo del Whisky

Palestra de Ferran Adrià no Gastronomika 2010: vídeo mostrando pratos do El Bulli

Gastronomika: programa completo inclui grandes nomes como Adrià, Andoni, Arzak, Anthony Bourdain e Daniel Boulud 

Chef Josean Martínez-Alija do restaurante do Guggenheim Bilbao anuncia novo - e revolucionário! - restaurante para o início de 2011

Uma semana em San Sebastian para o Gastronomika: as lições que aprendi
e os gim tônicas que bebi

Resumo (em espanhol) do Gastronomika 2010 pelo crítico Carlos Maribona 

13.10.11

Clos de Tapas, Eñe, Venga, Tasca da Esquina, Taberna 474: paixonite ibérica em São Paulo

Croqueta de paella do Venga    Foto: divulgação


Coluna no COMIDA da Folha desta semana...



Paixonite ibérica



Surgem não só novos 'portugas' como espanhóis transados e outros que misturam as duas vertentes

A UMA "estrangeira" como eu, o Rio parece pitorescamente português.
Lá sempre abundaram os adegões e quetais, servindo bacalhau em bolinhos ou nas receitas clássicas. No Leblon nasceu o fenômeno Antiquarius. Gloriosa história de sucesso de imigrantes lusos, hoje apenas um vaga-lume de fôlego evanescente, cuja filial paulistana um tanto apagada não faz jus à matriz, também já na curva descrescente.

Pois chegou a São Paulo, finalmente, o "portufilismo" -só que em versão muito atualizada. Iria além: vivemos uma paixonite ibérica.

Surgem não só novos "portugas" como espanhóis transados e outros que misturam as duas vertentes ao traduzi-las para o gosto local -quase todos casuais (aqui, como no mundo todo, os menus rígidos e o salão formal vão caindo de moda).

Muito já se falou da chegada do Vítor Sobral -famoso na terrinha- e de sua falsa tasca nos Jardins, a Tasca da Esquina: bem simpática e boa, porém bem carinha também, ao contrário das autênticas.

Embora ainda entorpecido pela aura dourada da calorosa acolhida, o chef "tuga" logo verá que a concorrência não está fácil: as boas tascas multiplicam-se. Destacam-se, no mar de opções, a pioneira Adega Santiago, de Ipe Moraes, e sua nova Taberna 474, com pegada ainda mais portuguesa, e a Tasca do Zé e da Maria, em Pinheiros.

Se a cozinha "tuga" revisitada avança a passo rápido por aqui, diria o mesmo da espanhola. Por décadas, a Espanha em São Paulo resumia-se à caretice do Don Curro.

Hoje a cena é outra. Temos desde os modernos Clos de Tapas e Eñe até vários bares de tapas ou pintxos, como o Maripili, em Santo Amaro, e o Donostia, em Pinheiros. Abrirá em breve na Oscar Freire o Alma María, de dono e chef espanhóis.

E teremos, logo mais, filial paulistana do Venga!, botequinho de tapas no Leblon que tomou o Rio de assalto, lotado desde o primeiro dia, já com outro endereço em Ipanema.

Curioso: tardiamente, caímos de amores pelas comidinhas das terras onde tantos de nós temos raízes.

ALEXANDRA FORBES, jornalista gastronômica e foodtrotter, conta de suas andanças e comilanças também no Twitter (@aleforbes)

29.9.11

Sam Sifton, o crítico do The New York Times, deixa o cargo



Coluna de hoje no Folha Comida:


Descanse em paz, Sam Sifton



Depois de abalar a cena gastronômica, o crítico de restaurantes do jornal 'New York Times' deixa o cargo



A web tem milhões de blogs gastronômicos. A cada instante, novas toneladas de imagens mostram, bem ou mal, o que se come pelas mesas do mundo. Seria eufemismo dizer que se pulverizou o trabalho do crítico (comer fora e reportar o que se viu e provou): comentários sobre restaurantes brotam de todos os lados e metamorfoseiam-se ao serem espalhados nas mídias sociais.
No entanto, a soma desordenada dessas informações jamais igualará o poder de fogo de que gozam os críticos dos grandes veículos -dos quais o mais influente é Sam Sifton, do jornal "The New York Times".

Se a internet castigou o jornal tirando-lhe receita, em compensação deu-lhe centenas de milhares de novos leitores pelo mundo, em tempos em que comer fora e seguir chefs torna-se mania cada vez maior.

Catastrofistas definem jornais como dinossauros em extinção e, no entanto, muitos tornaram-se híbridos, cujo alcance on-line iguala-se ou supera o da versão impressa.
Em junho, Sifton desmontou com magistral habilidade o mito de que o Masa -o caríssimo restaurante japonês- seria o Olimpo do sushi.

Tirou-lhe uma estrela das quatro (cotação máxima) que seu antecessor havia dado. Seguiu-se verdadeiro maremoto na internet de reações contra e a favor, danificando para sempre a imagem do Masa.

Eis porque a crítica de jornal é mais influente e reputada: o carimbo do veículo serve de garantia de que o texto foi apurado e escrito segundo as regras do bom jornalismo.

Enquanto certos blogueiros trocam tapas e beijos publicamente com chefs e colegas e frequentemente usam seus seguidores como moeda de troca, espera-se dos críticos da mídia de primeira linha que não peçam favores, paguem a conta e mantenham uma certa reserva.

Sifton, que chacoalhou a Nova York gastronômica até a raiz desde que assumiu o posto, em 2009, era dos poucos que trabalham assim.

Suas críticas transbordavam humor e audácia, mas na troca com o público ele manteve a ordem no coreto até o fim, anunciado com um tuíte no último dia 13: "Deixo o cargo de crítico para ser o editor nacional do Times. A conta, por favor".

18.9.11

Chef Magnus Nilsson, do Faviken, e o limite que separa o bom do podre







Coluna de quinta passada no Folha Comida...

Há algo de podre no reino da cozinha



Sempre ignorei a data de validade dos queijos; aquilo é algo vivo, que amadurece e muda de gosto a cada dia



Certa noite do ano passado, nos confins da Lapônia, sentei-me ao pé de uma lareira com um laptop para ouvir Magnus Nilsson explicar sua cozinha. Ao descrever em detalhes as fotos dos belos e singelos pratos que serve em seu restaurante Faviken, no noroeste da Suécia, o jovem chef me abriu os olhos.
Foi uma epifania: ele falou de embutidos curtidos por um ano; de alhos-porós armazenados em vidros no porão, em leve salmoura, servidos depois de atingirem um tom verde-oliva; de vaca em conserva.
Contou que serve uma entrada feita daqueles brotos que surgem em tubérculos guardados por muito tempo, que eu sempre achara repugnantes. Descreveu como transforma uma cabeça de repolho aparentemente podre em uma joia, descartando as camadas externas.
Naquela noite, ele forçou-me a ver o que deveria ser óbvio. Como no mundo dos queijos artesanais, fungos e podridões podem ser domados e postos a trabalhar em favor dos bons sabores.
Ao explorar a última fronteira entre o comestível e o roto, Nilsson mostra o quão vasta é a paleta de matizes de um mesmo ingrediente.
Tailandês deixa peixe fermentar para fazer dele seu condimento favorito. Mexicano põe fungo de milho (huitlacloche) em seu taco.
O prato emblemático do português é o bacalhau que, uma vez seco e salgado, desenvolve forte cheiro de "podridão peixosa".
No Norte, fazemos o mesmo com o pirarucu, sem falar que brasileiro não vive sem sua carne maturada.
Sempre ignorei a data de validade dos queijos. Aquilo é algo vivo, que vai amadurecendo e mudando de gosto a cada dia, a cada hora, tomando rumo conforme a embalagem, a temperatura, a luz.
O dinamarquês René Redzepi, que hoje já dispensa apresentações, tira cenouras da terra depois de mais de um ano para servi-las no Noma. Uma revelação!
A partir do momento em que se entende e se estica a longevidade de um ingrediente, ele se torna uma caixa de surpresas, um complexo universo a ser explorado.




E mais sobre Magnus Nilsson, neste link

26.6.11

Ombudsman da Folha: caderno Comida "frugal demais"


O chef Benny Novak (@BennyNovak) disse há poucas horas lá no Twitter: "Suzana Singer, Ombudsman da Folha SP, escreve hoje sobre o caderno COMIDA. Critica corretissima para um Jornal que se diz de Vanguarda. Sou assinante Folha acho que o COMIDA ja foi um passo , mas da pra melhorar muito ainda.Temos Nina Horta(sou super fã) e outos bons nomes".

O texto a que ele se refere é este acima. 

Como a maioria de vocês sabe, sou colunista do COMIDA, então fica complicado ficar opinando. Só posso (devo) falar da parte que me toca: tenho procurado fugir, justamente, de um tom "excessivamente laudatório". Ela levanta outro ponto importante, ao dizer que é preciso "ampliar a turma de 20 chefs que ocupam 95% dos textos sobre comida em todos os veículos". Eu tento, nem sempre com sucesso (escrevi sobre Alex Stupak, de Nova York, por exemplo, duas semanas atrás, e Joan Roca nesta última quinta-feira, mas lógico que there's room for improvement nesse quesito).

Mas vocês, leitores, podem (e devem) opinar à vontade. O que acham do novo COMIDA e das críticas de Suzana Singer? A caixa de comentários é toda sua...

E aqui, link para as últimas colunas que escrevi para o COMIDA:
O atum bluefin e o pouco que os brasileiros sabem sobre o sushi que comem
O chef Alex Stupak e a guerra entre blogueiros e chefs

23.6.11

O atum bluefin e o pouco que os brasileiros sabem sobre os peixes que comem


Hoje saiu coluna minha no caderno Comida da Folha. O tema? O atum bluefin.


O perigo que corre o bluefin - maravilhoso peixão de águas profundas, incrivelmente veloz, de carne deliciosamente amanteigada - é algo que não sai da minha cabeça nos últimos tempos.

Foto: Atuna


A melhor descrição do bluefin que eu já li foi escrita na New Yorker (minha revista favorita) por Elizabeth Kolbert:


The Atlantic bluefin tuna is shaped like a child’s idea of a fish, with a pointy snout, two dorsal fins, and a rounded belly that gradually tapers toward the back. It is gunmetal blue on top, and silvery on the underside, and its tail looks like a sickle. The Atlantic bluefin is one of the fastest swimmers in the sea, reaching speeds of fifty-five miles an hour. This is an achievement that scientists have sought to understand but have never quite mastered; a robo-tuna, built by a team of engineers at M.I.T., was unable to outswim a real one. (The word “tuna” is derived from the Greek thuno, meaning “to rush.”) Atlantic bluefins are voracious carnivores—they feed on squid, crustaceans, and other fish—and can grow to be fifteen feet long.


Tem se falado muito dele nos Estados Unidos. Como a própria Kolbert notou na New Yorker, os estoques de bluefin nos mares caíram 80% nos últimos 40 anos.



Irônico se pensarmos que até os anos 60 comprava-se bluefin por alguns tostões, já que o peixe era considerado sangrento demais para o gosto da maioria.



Só nos anos 70 os japoneses ficaram obcecados por bluefin (hon-maguro), eventualmente levando esse gosto pela carne crua do bluefin para os Estados Unidos. Hoje, hon-maguro cru é verdadeira iguaria, e a carne tirada da barriga (toro) das coisas mais orgásmicas e caras que um gourmet pode comer.


Em 2009, Mônaco propôs incluir o bluefin na mesma lista de animais protegidos que inclui o panda gigante e o elefante asiático - o que tornaria a pesca e a venda ilegais. A proposta foi derrotada em votação ONU por 68 votos contra 20, com trinta nações se abstendo do voto - uma vitória para os japoneses.  

O tema é vasto e complexo, e quem se interessar por ele deve ler a matéria Tuna's Slow Death: Feds Refuse to Protect the Bluefin (Again), publicada este mês na revista The Atlantic. Triste... 

Foto: Atuna



Por outro lado, tenho notado um movimento crescente na América do Norte e na Europa pela preservação não só dos bluefins como de vários outros peixes ameaçados, como o bacalhau e o mero. Cada vez mais, os consumidores procuram se informar. Evitam pedir em restaurantes peixes "politicamente incorretos" (o mero, ou Chilean Sea Basss, sendo o pior de todos, pega muito mal entre norte-americanos esclarecidos comê-lo hoje em dia).


A mídia tem ajudado a aletar o público.




A mesma New Yorker, por exemplo, publicou em maio excelente matéria sobre o ator - e ativista, quem diria! - Ted Danson e sua luta para salvar os oceanos. Ele acaba de publicar o livro “Oceana: Our Endangered Oceans and What We Can Do to Save Them.”

Minha amiga e crítica gastronômica Marie-Claude Lortie acaba de voltar de uma viagem fascinante às ilhas Magdalen, no Québec, onde foi entrevistar pescadores e sair à pesca. Ela está escrevendo vasta reportagem sobre o tema, que sairá em breve na "Folha do Québec", o jornal La Presse. Ela voltou de lá indignada, e me disse:

"Tem gente fica morrendo de pena dos patinhos fofos quando fala em foie gras, mas o fato de que o atum bluefin está desaparecendo parece não causar emoção. Mas estamos comendo os últimos deles como glutões! E se fosse um urso panda?" 


"O estúdio Pixar deveria fazer um outro filme tipo o Nemo, em que os personagens seriam o último atunzinho bebê e o último bacalhauzinho. Alguém tem que mostrar as técnicas de pesca absurdas, como o arrastão, que matam toneladas de mães e bebês-peixe inocentemente. Talvez um desenho animado fizesse as pessoas reagirem."

Como vocês podem ver, esse assunto dá pano pra manga. Tentei condensá-lo na coluna da Folha, mas inevitavelmente ficou muita coisa de fora. Publico abaixo versão um pouco mais detalhada do texto que saiu no jornal:

Você não conhece o sushi que come

  Um mito desmoronou na semana passada com o rebaixamento do restaurante novaiorquino Masa – o mais caro e famoso japonês das Américas - de quatro (a cotação máxima) para três estrelas no The New York Times. Leitores chocaram-se – não há deste lado do Atlântico guia ou ranking mais poderoso – e reagiram com especial fervor ao trecho da crítica em que Sam Sifton diz ter comido tartare de atum bluefin com caviar.

   Muitos americanos revoltaram-se contra a admissão pública de tal indulgência, mesmo se Sifton explicou que “Alguns irão opor-se ao fato de que o Masa serve uma quantidade enorme de atum bluefin, espécie de peixe que dizem estar ameaçada de extinção”. Tanto que ele sentiu-se obrigado a escrever um post no blog do jornal explicando-se – o que desencadeou outras dezenas de comentários inflamados.


  Isso jamais aconteceria no Brasil, onde a maioria não faz ideia de que atum é aquele em seu combinado de sushi e sashimi, nem se importa muito em saber se o peixe a ou b corre perigo pela pesca excessiva.

Sashimi do restaurante Hideki, em São Paulo


O bluefin – peixão de águas profundas que pode medir e pesar três vezes mais do que um homem adulto – é o rei dos atuns: o maior e o mais caro e delicioso.  Os sushimen brasileiros quase nunca conseguem comprá-lo, já que vai quase tudo para os mercados americano e japonês - e usam dois outros atuns, mebachi (big-eyed) e kihada (yellowfin), geralmente pescados no Nordeste.


Relatório de onde foram pescados atuns kihada (yellowfin)
nas últimas décadas. Fonte: Atuna


    Distinguir entre espécies e saber quais devem ser evitadas começa a ser a norma lá fora, tanto entre chefs como gourmets esclarecidos. Para cada restaurante como  o Masa, que ainda teima em servir um peixe ameaçado, há outros tantos que baniram não só o bluefin como outros peixes que correm perigo, como bacalhau e mero (Chilean sea bass). Ano passado perguntei ao chef Joan Roca, do El Celler de Can Roca, na Catalunha, se ele tinha banido o bluefin de sua cozinha por motivos ambientais. “Claro, é uma questão seríssima”, ele disse. Muitos outros, como Joel Robuchon e Alain Ducasse, fazem coro, por vezes até escrevendo nos menus o porquê de haverem banido tal peixe.

Liderados pelo grande Olivier Roellinger, muitos chefs que fazem parte da Associação Relais & Châteaux tiraram o bluefin de seus menus em janeiro de 2010. Fazem parte do grupo chefs top como Daniel Boulud, Thomas Keller e Michel Troigros (irmão do Claude). Abaixo, Roellinger explica seu ponto de vista. 



Ainda há muuuuuuuuito trabalho de conscientização a ser feito. A verdade é que o bluefin continua a ser pescado com a mesma intensidade, segundo prova tabela da Atuna, o organismo que deveria ajudar a preservá-lo:



   No domingo conversei sobre isso com um dos sushimen mais respeitados do Brasil, Jun Sakamoto, do restaurante homônimo. Ele pareceu surpreso quando contei a ele que nas grandes capitais norte-americanas e europeias o público e os chefs já se evitam consumir peixes ameaçados e sabem onde informarem-se melhor (em sites como o do aquário de Monterey, na Califórnia, que dá farol verde, amarelo ou vermelho para cada espécie e método de captura). 

   Aqui em Montreal, de onde escrevo estas linhas, gourmets esclarecidos discernem entre salmão selvagem e salmão laranja-choque de criatório (geralmente entupido de antibióticos), e jamais serviriam em um jantar lagostas fora de época ou – horror dos horrores – atum bluefin.

Enquanto isso, em São Paulo, onde vende-se sushis em cada esquina, ainda vejo amigos chegarem ao restaurante japonês dizendo: “só como atum e salmão”. Pior ainda, há muitos menus listando combinados de atum, salmão e peixe branco (!) como se linguado, carapau e outros peixes fossem tudo farinha do mesmo saco.

Toro de atum, no Kosushi

Os brasileiros geralmente não conhecem os peixes que comem, muito menos preocupam-se em preservar espécies ameaçadas. “Além dos milionários que viajam e comem fora, quase ninguém conhece bem o assunto”, resigna-se o sushiman Jun Sakamoto, do restaurante paulistano homônimo.

É pena, mas é fato.





E outros links úteis:
Twitter do Sam Sifton
Associação Atuna (tem ótima explicação da diferença entre as espécies de atum)
Matéria sobre a volta do Chilean Sea Bass aos mercados e peixarias americanos, na National Geographic
De Olho nos Meros, no portal Terra da Gente (atenção, esta matéria fala do mero brasileiro, não o mero que é conhecido como Chilean Sea Bass na América do Norte - espécies diferentes, embora ambas ameaçadas de extinção).
Detalhes sobre a decisão dos chefs Relais & Châteaux de banirem o bluefin de seus menus.

12.6.11

Blogueiros contra chefs: coluna desta semana no Folha Comida

 


Coluna desta quinta-feira no caderno Comida, da Folha


A simbiose entre chefs e blogueiros, caldeirão de amor-e-ódio, parece prestes a entornar. Se por um lado restaurantes faturam cada vez mais fama e fortuna graças  a relatos detalhados de jantares postados na web (que podem ser repicados ad infinitum via Twitter e Facebook), por outro, nem todo post é positivo ou mesmo factualmente correto. De elogios todos gostam, mas quando algo escrito desagrada ou insulta, chefs naturalmente sentem-se vítimas injustiçadas, vulneráveis a ataques às vezes até infundados. 


   Em maio o respeitado chef Alex Stupak (ex-Alinea e WD-50) levou pancada de um food blogger americano por ter deixado a pâtisserie avant-gardista para abrir um restaurante mexicano.  Revidou publicando uma carta ao importante site Eater onde defendia o direito de mudar a rota de sua carreira e apontando erros na crítica: “dizer que estou dando um passo para trás quando você não tem ideia do quão difícil foi fazer o que fiz é um insulto. (...) Você não teve nem a decência de checar a ortografia de um chef muito prolífico nem sabia que ele tem hortas próprias (...) Dizer que sou mais “ligado às feiras” é outro indicador de ignorância e escrita preguiçosa”.


   O blogueiro aprendeu na marra que criticar restaurantes é pesada responsabilidade que requer ética e savoir faire e que deveria ser deixada só para quem sabe do que fala. Mas incidentes desses não impedem que surjam a cada dia novos “críticos gastronômicos” formados pela Universidade Wordpress, postando em blogs e nas mídias sociais milhares e milhares de descrições e fotos de suas experiências gastronômicas. Uns entendem mais, outros menos – mas coletivamente exercem tremendo poder e, individualmente,  em maior ou menor grau, podem denegrir a imagem de um chef.


   Naturalmente, os chefs procuram se defender das críticas, sejam elas justas ou não. Publicar respostas a ataques, como fez Stupak, nem sempre ajuda: acaba jogando-se mais lenha na fogueira e chamando atenção para aquilo que se quer ocultar. Os mais espertos tornam-se amigos do maior número possível de blogueiros e jornalistas, fornecendo notícias em primeira mão, oferecendo jantares grátis e disparando elogios pelo Twitter: chamemos esta a tática desmonta-inimigo. Mas há aqueles que, desconectados da nova era-em-que-tudo-vira-notícia-em-meio-segundo, tentam tapar o sol com a peneira. Como? Fazendo para seus restaurantes sites ocos e proibindo que clientes tirem fotos. 


Em Nova York, o superhypado Momofuku Ko, o caríssimo japonês Masa e o Locanda Verde baniram as câmeras. Isso impede que se achem na web fotos tiradas com celular ou centenas de posts? Elimina o risco de ser criticado? Não.

A esses eu diria: desistam, meus caros. É inútil tentar controlar esse monstro amorfo chamado internet.
Mais vale ignorar o ruído e focar no que interessa: cozinhar bem.


13.5.11

Folha lança caderno semanal COMIDA, e eu sou colunista...



Ai, ai, coitado do meu querido Boa Vida, que anda tão sem posts... Mas peço que tenham paciência, que os motivos do meu sumiço são bons. Primeiro, estava a mil por hora comendo em vários lugares bacanas em Nova York, de onde voltei ontem - novidades boas à vista. E outra coisa que tomou meu tempo foi um projeto novo. A partir desta semana, assino coluna no caderno semanal de gastronomia da Folha, o COMIDA. E este Boa Vida está de partida pra lá também!

Assim que der, vou contando mais. Mas eis aqui a coluna de estreia no Comida, depois contem o que acharam...


Cube, o pop-up da Electrolux em Bruxelas, que rodará pela Europa neste verão




E mais escritos recentes, em outras paragens:






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