Showing posts with label chef Ferran Adrià. Show all posts
Showing posts with label chef Ferran Adrià. Show all posts

7.7.12

Chef René Redzepi do NOMA apresenta Ferran Adrià no fórum MAD em Copenhague

Chef René Redzepi do NOMA, organizador do MAD

Os palestrantes foram todos super interessantes, é verdade (aqui neste link, por exemplo, vocês podem ler a do crítico gastronômico Andrea Petrini, na íntegra).

Mas no final das contas, como sempre, não teve pra mais ninguém quando Ferran Adrià subiu ao palco. O homem sabe como fascinar uma plateia: usando uvas para ilustrar a analogia, disse que o mundo da alta gastronomia de vanguarda não passa de uma gota em um oceano. Querendo dizer que ele e seus colegas têm mais é que entender sua dimensão dentro do universo (muito maior) da gastronomia em geral, e, indo além, das disciplinas que envolvem criatividade. E que não adianta querer saber tudo. E que um bom ponto de partida é aprender mais sobre os que vieram antes: Bras, Guérard, etc.

E disse muito, muito mais.

Tentarei postar a apresentação dele na íntegra (que foi corajosamente traduzida pela jornalista americana Lisa Abend). Mas enquanto isso, achei divertido mostrar o trechinho em que o René Redzepi subiu ao palco para apresentar o ex-patrão. Impressiona o entusiasmo dos assistentes, que mesmo antes de ouvir Adrià uma palavra sequer já aplaudiam de pé. Coisa de louco o carisma que ele tem!



Quem não consegue visualizar pode clicar neste link e assistir direto no YouTube

Links para saber mais sobre o MAD:


Minha matéria no Comida da FOLHA: "Chefs Alternam Indignação e Bate-Papo"

4.7.12

Chef René Redzepi do NOMA e o fórum de gastronomia MAD, em Copenhague

René Redzepi, o organizador do fórum de gastronomia
MAD e chef-proprietário do NOMA
Foto: Daniel Greve

Estou na reta final de quatro dias megaintensos aqui em Copenhague. Participei do encontro MAD, organizado pelo René Redzepi do NOMA: dois dias de palestras interessantíssimas, sem pausas quase, sob uma lona de circo.


O chef Alberto Landgraf do restaurante paulistano Epice, no MAD



A matéria resumindo o que se passou por lá está na Folha de hoje...



Aqui, o link (há o texto principal, com o título "Chefs Alternam Indignação e Bate-Papo", e outros "picadinhos" contando o que aconteceu nos bastidores)


O ápice, como se esperava, foi a palestra de encerramento, do Ferran Adrià. Mas depois eu conto mais.... Copenhague me espera, só tenho mais algumas horas aqui!

Ferran Adrià no MAD
Foto: Daniel Greve



Links para saber mais sobre o MAD:



10.6.12

Ferran Adrià e Gastón Acurio exibem na ONU documentário sobre o Peru gastronômico

Novos melhores amigos: Ferran Adrià e Gastón Acurio no prêmio
The World's 50 Best Restaurants, em Londres  


O título do post já diz tudo.  O Peru segue avançando com seu agressivo programa de divulgação  no exterior de sua imagem de potência gastronômica. Depois de lançarem o documentário "Perú Sabe" anteontem em Lima, com entrada grátis para todo e qualquer estudante, os chefs e parceiros na empreitada Ferran Adrià e Gastón Acurio farão amanhã, dia 11, uma segunda exibição na sede da ONU, em Nova York. Tá bom ou querem mais?

Ponto para o chef Gastón Acurio, mais uma vez. Eis o trailer:





E mais Peru e Gastón Acurio no Boa Vida:




12.10.11

A última ceia no El Bulli: The Last Waltz em delicioso documentário, na web, grátis

Chef Ferran Adrià indo servir o último "Pêche Melba" da noite - e da vida

Depois que o último prato saiu da cozinha, o primeiro que Ferran abraçou
foi o irmão e braço-direito Albert


Já MUITO se falou e escreveu sobre o fechamento do El Bulli, no fim de julho, com um jantar-pra-estourar-a-boca-do-balão apelidado de The Last Waltz. Redzepi, Achatz, Bottura, Roca, Andrés... estavam todos os importantes ex-stagiaires e ex-chefs lá, e a balada foi até o raiar do dia.

Chef René Redzepi do Noma tirando foto com o gigante bolo-buldogue comemorativo

Não vou repetir tudo aqui...

Os voyeurs que quiserem ver tudo o que rolou têm que conferir esse documentário (em catalão, mas com muito espanhol e inglês misturado no meio).

Imperdível.

Aqui, o link.

Créditos das imagens acima: tiradas do documentário, que foi produzido pela Televisió de Catalunya


Foto do pôster: Bob Noto

Gastrotech, em Barcelona: a última cartada do chef Ferran Adrià



Sei que falo muito de Ferran Adrià neste blog. Tento me policiar, falar de outros. Mas o que eu posso fazer se o cara não para? A cada semana descubro uma nova!

Dos dias 17 ao 19 deste mês ele inventou de comandar um outro evento, o Gastrotech. Não é exatamente um fórum de gastronomia, mas de... sei lá do que. De internet. De tecnologia. Do admirável mundo novo. Acho que nem ele sabe bem.

Ferran vai fazer o evento na Telefonica, seu maior sponsor atual. Ele é o garoto-propaganda da empresa e diz que pretende usar o laboratório de pesquisas deles para aprender coisas novas. A ver.

O fato é que Ferran anda de orelha em pé com essa coisa de blogs, guias de restaurantes online, a compra do Zagat pela Google, etc. Ele quer entender, dominar. Daí o surgimento do Gastrotech.

Olhei o programa. Tem muita coisa ali feita pra agradar sponsor (almoço patrocinado pelo queijo gorgonzola, etc). E ninguém precisa ouvir discurso de diretor de Telefonica, né? (Eu, pelo menos, dispenso). Mas......................   vi também uns speakers com potencial para serem muito bons, para dizerem algo de realmente novo e/ou relevante. Assinalei abaixo em tipologia azul o que parecem ser os highlights:


Program

MONDAY 17th Oct

Inauguration

(Telefonica Digital Barcelona premises)

     9:00 Acreditation
      9:15 Welcome and press conference (Ferran Adrià & Pablo Rodríguez)

Blog for Food

(Telefonica Digital Barcelona premises)

     9:45 Cuisine Blogging Panel (D. Calvao, P. Albornà,  S. Bonilli, R. McCormack, lead by M.F. Guadaño)
    11:15 Coffee Break, Andalusian Breakfast by Inés Rosales & Acesur
    11:45 Cooks & Internet Panel (F.Adrià, Pepe Solla, Francis Paniego, Quique Dacosta, Marcos Morán, Paco Morales lead by Guía Repsol)
    13:45 Departure to CETT Venue for the "Out for Food" session

Out for Food (by invitation)
(CETT Cook School premises)

    ---Spanish session---
    14:15 Visit to CETT cook school

    14:30 Gourmet Lunch by Gorgonzola, Reyno Gourmet, Oviaragón, Beso de Vino, Acesur, Jamones Sierra de Sevilla y Barbadillo.

    16:30 Alicia Foundation (Toni Massanés)
    17:00 GorgonzoLAB innovation project & Gorgonzola workshop (Ángel León, Angela Barusi)
    17:45 Showcooking by Guía Repsol (Ana Ruiz and Quintín Quinsac of the AQ rest)
    18:30 Meat tasting Workshop by Cárnicas Goya (Roberto Ruíz)
    19:15 Sherry Tasting Workshop by Bodegas Barbadillo (Pepe Ferrer)

    20:15 Departure to the Damm premisses for the Social Dinner

Social Dinner (by invitation)

(Damm old factory premises)

    20:45 Visit to Damm premises
    21:30 Social Dinner

TUESDAY 18th Oct
   
Thought for Food
(Telefonica Digital Barcelona premises)

 8:00 Accreditation
 8:30 Welcome by Pablo Rodriguez (Telefonica Digital Research Director)

 9:00 Session I – Food & Social
    Social Networks and Gastronomy Balachander Krishnamurthy (AT&T Research)
    Shared Cooking and Shared Eating K. O'Hara (Microsoft Research)
    Language as a platform for innovation: Lessons from elBulli P. Opazo, R.Sangüesa (U. of Columbia, UPC)

10:30 Keynote -Food, Innovation, and Intellectual Property Rights
    Johanna Blakley, Deputy Director at the Norman Lear Center   

11:00 Coffee Break
11:30 Session II – Food Genommics & Data Mining
    Food Hacking and Food Genome M.Powell (Foodspotting)
    Ingredients., Flavours and Data Mining  S.Anhert/Y.Ahn (Cambridge U.)
    Rating of Restaurants 2.0 What do reviews tell? T. Roelleke, (Yahoo Research)


13:00 Lunch Break
14:00 Session III – Food Technologies
    Super Mario's  Mushrooms: the role of food in video games,  G. Sinclair (U. of Vancouver)
    Food and Computer Science P. Inverardi (U. dell Áquila)

15:30 Coffee Break
16:00 Session IV: Food Trends
    Trends in Food and Technology A. Van de Ven (Telefonica Digital)
    Trends in Aesthetics, Art and Cooking. What are the Key Issues of Philosophy of Cooking and Gastronomy to be addressed by Technology? G.Vilar, J. Jaques (UAB)
    Mobile marketing with food and drinks (Golden Gekko)


18:00 Closing Pablo Rodriguez (Telefonica Digital Research Director)
Veremos no que vai dar....

13.9.11

G9 e a Carta de Lima, na íntegra, e os disparates escritos por Jay Rayner


Tirei a semana para falar de Peru, rumos da gastronomia, chefs, etc. Desculpas aos que visitam o Boa Vida querendo dicas de restaurantes, etc., mas tão logo termine o Mistura, megaevento gastronômico aqui em Lima, trocarei o disco, prometo.

Por ora, acho importante reproduzir a seguir, na íntegra, o importante documento assinado pelos chefs que compõem o chamado G9 (termo um tanto ambicioso/pretensioso demais?). São eles  Gastón Acurio, Ferran Adrià, René Redzepi, Alex Atala, Massimo Bottura, Dan Barber, Michel Bras, Heston Blumenthal (que deu o cano porque está metido em enroscada familiar) e Yukio Hattori.

Oito dos nove chefs do G9 e, de paletó, Joxe Mairi Aizeg, o diretor do Basque Culinary Center,
que patrocinou o encontro em Lima


Por que resolvi postar a "Carta de Lima" na íntegra? Porque tem muita gente que opina e/ou critica sem saber do que fala, e sem ler o que foi escrito.

Foi ridicularizada e destruída hoje mesmo, pelo jornalista do The Guardian Jay Rayner, neste post.

Não digo que seja a dos chefs uma declaração perfeita, ou coerente com a história de suas carreiras (para Adrià, por própria admissão, essa questão de sustentabilidade não importava muito até poucos anos atrás).

Mas trata-se de uma iniciativa cheia de boas intenções e, creio, com potencial para desengatilhar uma série de avanços. No mínimo, com toda a mídia falando disso, botará o assunto em primeiro plano. Fará pensar.

Cada um, é claro, pode achar o que quiser. Mas está erradíssimo Jay Rayner fazer uma crítica tão mal-informada, dizendo, entre outros absurdos, que Alex Atala e Gastón Acurio são conhecidos apenas entre os cozinheiros com quem trabalham.
 
Hein?

O maior disparate de todos foi Rayner dizer que "they have made the terrible mistake of thinking anybody really gives a damn what they think." Ou seja: "Os chefs fizeram o grande erro de achar que alguém se interessa em saber o que pensam".

Pode ter gente que já se cansou de ouvir blablablá de chefs, mas uma coisa é fato: qualquer "a" que saia da boca de Redzepi, Adrià e/ou Acurio virará notícia, não só hoje como sempre. E legiões de jovens chefs do mundo todo ouvirão/lerão/debaterão com enorme interesse. E afinal de contas, a carta destina-se a eles, os cozinheiros - como esqueceu-se de dizer o sr. Rayner.

Lá vai, a quem interessar possa:

En estos nuevos tiempos donde la sociedad está en constante evolución, nuestra profesión debe responder de forma activa a nuevos retos.

Desde la diversidad existente en nuestra profesión culinaria, con sus múltiples expresiones y formas de hacer, a los cocineros nos une nuestra pasión por la cocina y nuestra entrega a una labor que es una forma de vida.


Entendemos la cocina como un mundo de oportunidades, que nos permite expresarnos libremente y hacer realidad nuestras inquietudes y aspiraciones.


Consideramos que la cocina es algo más que la respuesta humana a la necesidad de alimentarse, es más que la búsqueda de felicidad. La cocina constituye una poderosa herramienta de transformación y puede cambiar la alimentación del mundo gracias al trabajo conjunto entre los cocineros, los productores y los comensales.


Nosotros soñamos en un futuro donde el cocinero y la cocinera estén comprometidos, conscientes y responsables de su contribución a una sociedad más justa, solidaria y sostenible.


Como miembros del Consejo Asesor Internacional del Basque Culinary Center, desde nuestra diversa experiencia, seguimos soñando y reflexionando sobre los retos futuros de nuestra profesión. Nuestra esperanza es que estas reflexiones sirvan como referencia e inspiración a los jóvenes que seréis los cocineros del mañana.


A todos vosotros va dirigida esta reflexión llamada Carta abierta a los cocineros del mañana que hemos elaborado en Lima el 10 de setiembre de 2011.


Carta abierta a los cocineros del mañana

A TÍ, COCINERO O COCINERA:

En relación con la naturaleza
- Tu trabajo depende de los frutos de la Naturaleza. Como resultado tienes la responsabilidad de defender la naturaleza y de utilizar tu cocina y tu voz como medio para la recuperación y promoción de determinadas variedades y especies. De esta forma, ayudas a proteger la biodiversidad, permitiendo a la vez el mantenimiento y creación de sabores y elaboraciones culinarias.
- Durante miles de años, la naturaleza y el ser humano dialogaron para inventar la agricultura, eso te convierte en parte de un sistema ecológico. Vamos a trabajar juntos para asegurar que este sistema funcione correctamente, promoviendo y practicando un sistema de producción sostenible en la tierra y en la cocina. De esta forma, además tendremos productos con un sabor auténtico.


En relación con la sociedad
•    Eres el resultado de la cultura, por ello, eres heredero de un legado de sabores, costumbres gastronómicas y técnicas de cocina. Pero tienes la posibilidad de no ser un cocinero pasivo, porque a través de tu propia cocina, tu ética y tus conceptos estéticos, puedes contribuir a la cultura y a la identidad de un pueblo, región o país, mientras sirves también como un puente importante con otras culturas.
•    Ejerces una profesión que tiene el poder de influir en el desarrollo socio- económico de otros. Puedes generar una gran actividad económica promoviendo la exportación de productos de tu país hacia el mundo mientras atraes turistas hacia tu tierra. Además, colaborando con productores locales y utilizando prácticas económicas justas, puedes generar riqueza local sostenible y fortaleces económicamente tu comunidad.

En relación con el saber
•    Si bien el objetivo principal de tu profesión es ofrecer felicidad y provocar emociones, a través de tu trabajo o colaborando con expertos en la materia del ámbito de la salud y de la educación, tienes una oportunidad única para transmitir este conocimiento al público, ayudándole, por ejemplo, a adquirir buenos hábitos de cocina y a aprender a tomar decisiones saludables respecto de lo que comen.
• A través de tu profesión tienes la oportunidad de generar nuevos conocimientos, sea desarrollando nuevas recetas o participando en proyectos de investigación profundos. Y como te has beneficiado de la enseñanza de otros, tienes la responsabilidad de compartir tu aprendizaje.

En relación con los valores
•    Vivimos en un tiempo en el que la cocina puede ser una hermosa forma de auto-realizarte. La cocina es hoy un campo en constante evolución donde intervienen múltiples disciplinas, por ello es importante que encares tus inquietudes, sentimientos y sueños con autenticidad, humildad y, sobre todo, pasión. En definitiva, guíate por tus principios éticos y tus valores.

4.8.11

Ferran, Achatz, Liebrandt e cia. agora resolveram fazer cinema



Post-relâmpago só pra dizer que hoje é dia de caderno Comida na Folha. O tema da minha coluna? Chefs e cinema...  Ferran Adrià, cujo El Bulli foi o assunto principal do Comida, está metido em pelo menos dois filmes. Um já saiu, e chama-se El Bulli - Cooking in Progress. O outro está em produção e vai focar nos muitos estagiários que passaram pela sua cozinha (hoje, muitos se tornaram chefs premiados, como René Redzepi e Grant Achatz). Será a versão cinematográfica do livro da jornalista Lisa Abend, The Sorcerer's Apprentices. Vejam o trailer do Cooking in Progress:




E aqui, a coluna publicada no Folha Comida:




26.6.11

41 grados, o novo bar de Albert e Ferran Adrià em Barcelona: maluquices boas


Em maio peguei um avião para passar uma noite apenas em Barcelona.

Coisa de doido, eu sei. Mas é que os objetivos principais da ida à Europa eram o jantar que tinha marcado no El Bulli, duas horas ao nordeste da cidade, seguido de um giro pelas quintas do vale do Rio Douro: uma agenda muito puxada de visitas e comilanças.

Mas resolvi que não poderia nem pensar em ir à península ibérica sem parar em Barcelona ao menos uma noite, para conhecer o novo restaurante de Ferran e Albert Adrià, o Ticketsbar.

chefs Albert e Ferran Adrià, no Ticketsbar

Mas havia um problema: além do Tickets (que eles teimam em chamar de bar de tapas mas que não é bar de tapas coisa alguma), eu sabia que eles tinham aberto, logo ao lado, um outro lugar incrível, o 41 grados. Bem à moda deles, um bar que não tem jeito de bar. Nada é o que parece, sabem?

Os dois lugares - o 41, mais avantgardista, o Tickets, mais tradicional - eram um sonho antigo de Albert, que está ali todas as noites regendo a orquestra e que sente-se muito satisfeito de ter voltado a criar, a fazer vanguarda, depois de um tempo relativamente afastado da cozinha. Como ele mesmo revela, ao escrever no menu:

As coisas surgem por si sós. Saem quando têm que sair.
Nem logo nem tarde. Pode-se argumentar que tudo precisa
de um aprendizado, que a criação necessita de inspiração,
que o artista necessita de uma musa ou um maestro. (…)
Mas eis a verdade absoluta sobre a criatividade: quando
temos uma ideia temos que convertê-la em realidade,
levá-la até o final, e há que se dedicar a isso de corpo e alma.
O 41o nasce de uma dessas ideias, de um desejo,
de uma vontade profissional, de inquietudes não-resolvidas.
Há pouco mais a explicar porque a obra já
está em marcha e a função já começou.
Esse é o momento.
Chegou quando tinha que chegar.


Como minha companheira de viagem Marie-Claude topa qualquer loucura gastronômica (porque, afinal de contas, ela faz o mesmo trabalho que eu), resolvemos o "problema" de como experimentar dois lugares em uma noite de modo bem simples: fizemos reserva bem cedo em um e bem tarde em outro e preparamo-nos para uma maratona.

E olhem que reservar foi dureza: só pode ser pela internet, e o sistema exige paciência....




Mas conseguimos e lá fomos nós, de... bicicleta! Chegamos e logo uma olhou para a cara da outra com espanto: "que lugar maluco!", pensamos.

O Ticketsbar em si imita um cinema antigo, em homenagem à velha e feia avenida onde está localizado, a Parallel, que já foi em outra época a Broadway de Barcelona.

A diferença é que nesse "cineminha" só entra quem tem reserva.... para agonia dos turistas desavisados que rondavam a porta. Entramos e demos uma olhada rápida mas logo seguimos para o 41o (pronuncia-se 41 grados), o bar anexo.

 © Fotos: Pegenaute

Mas.... seria aquilo um bar? Certamente, o primeiro bar da Europa que exige reserva a qualquer hora e onde ninguém pode ficar de pé ou encostar-se no balcão. E de-fi-ni-ti-va-men-te o único do planeta oferecendo 28 marcas de gim e 4 de tônica. Diz o menu que os gim tônicas são servidos "con icebergs de hielo osmotizado sin oxígeno. Primero, elige la ginebra. Después, elige la tónica."

 !

Nós duas dávamos risadinhas, pela simples alegria de estarmos ali, mas também porque o espaço era inesperado, intrigante, engraçado. Na penumbra, víamos as mesinhas baixas tomadas por grupos de clientes, muitos estrangeiros. Ornavam as paredes de concreto caveiras de boi - uma verdadeira, outra de metal cortado como plumas.


Por toda parte notavam-se referências estéticas ao mundo do cinema, como cortinas de veludo (e notaram no nome do bar projetado na parede, na foto acima e as mesas imitando carretilhas de celuloide?).

O menu, como já era de se esperar, era enigmático. Niguiris?! Sobremesas, em um bar?!


Os pequenos bocados, que os irmãos preferem chamar de "snacks", sempre são muito diferentes da descrição no menu - eles gostam de revelar o mínimo possível... Quando perguntei ao vizinho de mesa o que ele achava dos seus "crujientes de gambas al azafrán" (crocantes de camarão ao açafrão), ele respondeu: "são como arroz inflado com gosto de nachos". (!!)




Já nós havíamos escolhido o niguiri. Já imaginávamos que vindo dos irmãos Adrià, não poderia ser sushi de verdade....


Dito e feito: o "niguiri" de atum, sem um grão de arroz, era um colchãozinho etéreo branco com gosto de dashi (caldo japonês) que - puf! - desintegrava-se ao encostar na língua. Textura de maria-mole, porém mais leve e aerada. Por cima, fatia de atum temperado com algum sabor mais intenso, e as bolinhas que imitavam ovas mas eram tapioca curtida no molho de soja.


No 41o, há uma parte do menu que sugere coqueteis para acompanhar os "snacks".



Quando em Roma....


Mas um Kill Bill e um Dirty Harry mais tarde, posso declarar que a verdade verdadeira é que todo e qualquer coquetel alcóolico será forte demais (em álcool, em sabores) para acompanhar tão delicado e minúsculo manjar. (O Dirty Harry, com gim, suco de lima, xarope de agave e fava de Tonka, era especialmente aromático).


Pedimos outros "niguiris" , desta vez de foie gras. De novo, o mesmo tipo de "nuvem" substituía o arroz, só que neste caso aromatizada com pera e coentro. O foie levemente caramelizado por fora. Flor de sal. Para comer de olhos fechados, gozando de cada instante. Um pedacinho de céu.

Aí vieram "pistaches miméticos". Imaginem que são feitos de manteiga de cacau moldada em formato de pistaches, e têm interior líquido com gosto de - adivinhem! - pistaches. Gostosinhos, divertidos. A força está no fator surpresa, mais do que no sabor em si.


Se os pistaches já eram deslumbrantes, esses pistaches verdadeiros contidos dentro de um "véu" de iogurte, acomodados no que parecia ser um tronco carbonizado, me tirou o fôlego. Show de técnica.


Ficamos ali mais de uma hora mas o tempo passou como se tivessem sido cinco minutos.

Puxamos papo com os argentinos da mesa ao lado, perguntamos o que tinham achado do que haviam pedido (ostras em diversas preparações, "ótimas"). Espantamo-nos com a quantidade de brasileiros. E queríamos mais: pedir mais, provar mais, olhar mais.

Só que já era hora de passar para o capítulo dois da noitada: o Ticketsbar. Aguardem as cenas do próximo capítulo....

41o
Avinguda Paral·lel 164
Barcelona

E aqui, o link para a matéria da Marie-Claude Lortie sobre o 41o e o Tickets, em francês.


18.6.11

Chef Ferran Adrià anuncia parceria com a Pepsi!

A C.E.O. da PepsiCo, Indra Nooyi, e o chef Ferran Adrià, no El Bulli.      Crédito: PepsiCo.


Não sei bem o que pensar, nem o que dizer sobre a notícia muito surpreendente da
parceria do chef Ferran Adrià com a Pepsi. Vou ter que me dar uns dias para digerir, confesso. Enquanto isso, reproduzo trechos de um "blog" da Pepsi, que procura explicar melhor o porquê do acordo:

"What a great way to start this blog!  Today we have had the pleasure of being around two impressive figures: first, our CEO and Chairman Indra Nooyi and, on the other, the world’s best chef, Ferran Adrià.
Both have been in a joint workshop on the premises of El Bulli (...).

Adrià has been linked to PepsiCo for a while through earlier successful partnerships in which PepsiCo received advice on the creation of such products as Lay’s Craft 100% olive oil or cream Alvalle.
Now the agreement is an even more enriching international cooperation, including all PepsiCo brands worldwide. Adrià, who describes himself as an artist, shared his passion with Indra and her team at the session. “While I know think they have a chef in front, I am expressing myself using the language of an artist in the kitchen,” he said.

From this philosophy, the prestigious Chef will create new snack products, more choices for breakfast, and will share samples, food trends and observations from around the world, expanding PepsiCo’s portfolio of healthier products. "

Cuma?! Primeiro, a tradução do espanhol está sofrível - grave para uma empresa desse porte e dessa reputação. Segundo, não entendi a lógica.... A blogueira escreve que "filosofia" segundo a qual Adrià é um artista (!!) o permitirá criar para a multinacional lanches novos?! Hãn?! Repita?!

Santo Deus.

A leitora (e xará) Alexandra deixou comentário dizendo "a parceria anunciada não foi com a marca Pepsi, mas sim com a empresa PepsiCo (dona da Pepsi, mas também da Elma Chips, Coqueiro, Lays, Quaker, etc)". Sim, Alexandra, isso mesmo. Eu digo Pepsi porque é como a empresa é mais conhecida, mas refiro-me à gigante dona dessas outras marcas que você cita. As maiores marcas da PepsiCo. são Quaker, Tropicana, Gatorade, e Frito-Lay (batatas chips).


E mais chef Ferran Adrià no Boa Vida, neste link.



Abaixo, o press release, na íntegra:


Ferran Adria, whose restaurant El Bulli in Spain has been named best in the world five times by Restaurant Magazine, will work with PepsiCo to help develop new methods and concepts for creative food innovation. This partnership follows an existing successful relationship between the two parties which began in 2005 and involved Chef Adria's consultation on PepsiCo Spain's Alvalle brand of chilled vegetable soups and Lay's Artesanas 100% olive oil among others.
Ferran Adria will share creative principles, methods, procedures and techniques in order to assist PepsiCo in the creation of new snackable foods, breakfast options and convenience alternatives. He will help to inspire PepsiCo's product development team by sharing samples, food trends and observations from around the world.

One specific area of focus for the partnership will be exploring the culinary arts to enable PepsiCo to broaden its portfolio of healthier choices. This includes developing taste enhancement ingredients and natural preserving techniques in order to reduce the use of fat and oil in current products, therefore making them healthier.

Indra Nooyi, PepsiCo Chairman and CEO, explained, "PepsiCo has had a long standing reputation for food innovation and this partnership, with arguably the best chef in the world, will enable us to move further forward with new creative concepts and ideas. We will also share our own creative principles and ideas, developed over our 46 year history, in order to help assist Ferran Adria with his mission to create a world leading gastronomic think tank and research facility in the future."
Ferran Adria said, "It is an honor for us, as well as a challenge, to be able to work so closely with a food company as important as PepsiCo and, most especially, with its extraordinary R&D teams around the world. This is certainly an enriching experience for both parties, from which we hope to obtain interesting results from our joint task, where El Bulli will provide its historic know-how regarding high level gastronomy as well as other areas of the food business."

About PepsiCo
PepsiCo offers the world's largest portfolio of billion-dollar food and beverage brands, including 19 different product lines that generate more than $1 billion in annual retail sales each. Our main businesses -- Quaker, Tropicana, Gatorade, Frito-Lay, and Pepsi Cola -- also make hundreds of other enjoyable and wholesome foods and beverages that are respected household names throughout the world. With net revenues of approximately $60 billion, PepsiCo's people are united by our unique commitment to sustainable growth by investing in a healthier future for people and our planet, which we believe also means a more successful future for PepsiCo. We call this commitment Performance with Purpose: PepsiCo's promise to provide a wide range of foods and beverages for local tastes; to find innovative ways to minimize our impact on the environment, including by conserving energy and water usage, and reducing packaging volume; to provide a great workplace for our associates; and to respect, support, and invest in the local communities where we operate. For more information, please visit www.pepsico.com.

31.5.11

A última ceia no El Bulli: detalhes e impressões dos pratos



Os frequentes relatos que escrevo aqui, mostrando prato a prato o que estava bom ou nem tanto nos restaurantes que visito, servem não só para guiar as escolhas de vocês, leitores, quando forem viajar, mas servem para mim também. São como uma segunda visita ao restaurante, me forçam a repensar cada gosto, procurar temas recorrentes, entender o porquê disto ou daquilo.

Mas um post prato-a-prato do meu último jantar no El Bulli me pareceria bobagem, porque a) ninguém poderá experimentar nada parecido e b) leitor nenhum aguentaria ler minhas impressões de um menu de QUARENTA E SETE serviços!

Ao mesmo tempo, sinto um ímpeto incontrolável de mostrar, dividir, deixar anotada, aqui, para eternidade, a genialidade que testemunhei naquele 19 de maio.

Comer no El Bulli nunca é fácil: há aspectos que encantam, outros que desagradam, agridem, intimidam. Talvez o modo mais simples de pintar um retrato do meu jantar seja, portanto, listar os altos e baixos que mais me marcaram:

BAIXOS

1- Na chegada, os clientes são educadamente forçados a passarem pela cozinha para cumprimentarem Ferran e tirarem fotos (assim ele evita que queiram falar com ele na saída). Detesto. Morro de vergonha de fazer esse papelão de turista, fico lá de pé, sem jeito, com 20 e tantos cozinheiros observando.

2- Ferran tem fixação por determinados ingredientes e texturas. Atualmente, anda fazendo muitas coisas leitosas, espumosas. Tenho um pouco de aflição do gosto de leite quando não é nem doce nem salgado, principalmente se tépido, confesso. Uma coisinha branca com cara de macarron, por exemplo, era na verdade uma maria-mole bem mole e aerada, com farelos gelados de parmesão por cima.



Outra coisa espumosa e leitosa que  não consegui comer? O "tiramisù", acompanhado de um caldo morno que tinha gosto de água suja. Blergh! Já tinha provado isso em setembro passado, e já tinha desgostado...



3- Em teoria, eu como de tudo - faz parte do meu trabalho. Mas há coisas que, se puder, eu dispenso. Como os percebes, aqueles moluscos que parecem um dedão de pedreiro que levou uma martelada (só uma vez na vida achei verdadeiramente bons, e isso foi graças à grelha mágica do Etxebarri). Estes do El Bulli vinham com caviar por cima e, dentro da casca de um deles, adivinhem caldo do quê?



Tampouco curto sabores marcadamente florais (como aqueles crème brulées de lavanda que têm gosto de sachê). Por isso achei pouca graça nas pétalas de rosas servidas de amuse bouche, sob polpa de maracujá. De tão frágeis e molengas, nos deram pinças ao invés de talheres. Na boca, ao serem mastigadas, um pálido amargor dominava.



ALTOS

1- Por avantgardista que seja a comida, o que nunca se diz é que no El Bulli o serviço permanece super old-fashioned, graças a Deus. Leia-se: garçons experientes e sempre atentos, com pleno domínio de cada composição de prato. Timing perfeito. E sommeliers sensíveis aos gostos e orçamentos dos clientes (sou muito chata com brancos e acertaram na mosca com o Plou i fa Sol 2009 Côte Garraf do Penedès, relativa pechincha e exatamente seco e mineral como eu queria).



2- Conforme o último dia de serviço vai se aproximando, Ferran vai rendendo-se à nostalgia. Pratos vintage foram tirados do baú, quem diria! Sorte minha: assim pude provar o famoso tagliatelli de consommé de mil anos atrás, à carbonara, com fina brunoise de queijo. Delícia pura!



Também ressucitaram o belíssimo "papel" de flores, em que fina lâmina de algodão doce aprisiona flores comestíveis - inclusive, quem diria, uma de jambú! (ou, se não era jambu aquele botãozinho que parecia elétrico na boca, era muuuuito parecido). Por coincidência, uns 3 anos atrás escrevi uma matéria sobre os avant-gardistas espanhois que abria justamente com esse "prato":

Então foi muito bacana poder finalmente comê-lo. Tem gosto de.... algodão doce! As flores não tem gosto de nada, claro, exceto uma que eu podia jurar ser jambú, embora não consiga entender como ele poderia arrumar jambú naquele fim de mundo.




3 - Se eu comparar este jantar ao de setembro passado, muito mais pratos me pareceram deliciosos. "A nível de" prazer gustativo, desta vez foi bem melhor. Eis meus favoritos:

Pacotinho de creme de pistache. A película, impossivelmente fininha, é crocante, doce e derrete-se na boca. O creme, de uma intensidade que potencializa o pistache. Pistache ao cubo, digamos.



Ar de parmesão!  O que eles chamam de "müesli", que vinha num saquinho à parte, mais parecia pedacinhos de pão sírio torrado e framboesas "lyo", ou desidratadas. Vinha à mesa em um falso pote de sorvete, de isopor. O ar, geladinho e etéreo, dissolvia-se de imediato sobre a língua, deixando um rastro de parmesão, gostoso contraste com a doçura discreta da fruta.



Duo de ervilhas (as mais escuras, verdadeiras) com filmes semi-transparentes de banha de jamón Joselito. Nham! O curioso é que vivem dizendo que Ferran inventa onda, transforma demais os alimentos, e no entanto, da dezena de pratos que comi recentemente com ervilha, este era o mais singelo, o que mais realçava o ingrediente.



Pontas de aspargos brancos. Uma vinha sobre um creminho de missô, outra sobre outro creme, mas isso era detalhe. De novo: produto, produto, produto. Quem sabe, sabe.


E, mostrando que Ferran anda com a cabeça focada em vegetais (comemos pouquíssima carne), fiquei fascinada com a sequência de pratos de nozes. Primeiro, gominhos tirados de pinhas dos pinheiros dali mesmo. Pareciam, na textura, gominhos de grapefruit, mas o gosto era outro, claro (a pinha partida ao meio servia só de demonstração). No copo, "suco" dos pinhõezinhos.



E aí vieram dois pratos incríveis de amêndoas, espécie de estudos da amêndoa em todos seus estágios de desenvolvimento (tinha até um envelopezinho contendo óleo dentro) e texturas. Fascinante.


O segundo prato de amêndoas vinha com um delicioso naco de pêssego grelhado. Mas as "amêndoas" não eram sempre amêndoas, uma confusão de realidade e ilusão que, no fim, acaba forçando a pessoa a se perguntar: afinal, o que é uma amêndoa?!




Achei curioso notar a crescente presença de ingredientes sul-americanos (jambú, polpa de maracujá, cachaça) e também japoneses (yuzu, feijão vermelho, missô, etc). Não é coincidência: Japão, Brasil e Peru são os lugares que mais fascinam Ferran ultimamente, gastronomicamente falando. Esta sobremesa abaixo, por exemplo, era Japão puro!



Que mais me encantou? Essa delícia aqui, lagosta com porco, um mar e monte inspirado em Shangai. Quase old-fashioned comparado com o resto, mas... delícia pura!



E por falar em delícia pura, que dizer de La Caja (A Caixa)? Daria pra passar duas horas beliscando pedacinhos de chocolates, não pode haver no mundo mignardises mais deslumbrantes em todos os sentidos:







E chega, que este post já está virando um livro! Quem quiser ver os outros pratos que comi pode assistir o vídeo abaixo....








E mais Ferran Adrià no Boa Vida:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...