10.9.10

Mais Cook it Raw: Bob Noto, um mito


Não sou a Santa Teresa de Bernini. Não se trata de êxtase, mas sim de um momento de reflexão (um tanto dramatizado, admito) sobre morte e vida, em um banquete repleto de sangue.

Mas o que vale é o olhar. Genial, não? Pois deixem apresentar a vocês outro grandíssimo conhecedor da vida, da mesa, da fotografia: Bob Noto.

Explicar em detalhes seria desmistificar. E não convém desmistificar um mito. Que as imagens dele falem por si sós. Fantástico slideshow postado no L'Espresso italiano, aqui o link.

Restaurantes Chez Dominique e Savoy, em Helsinki: o clássico ganha do moderno



Fui à Finlândia só mesmo por causa do Cook it Raw - até fica meio feio confessar. Praticamente não vi Helsinki além de flashes avistados da janela do táxi, e uma curta caminhada na manhã seguinte à chegada, para ver o mercado.



Não vi. Mas comi, claro.

Na primeira noite, jantei no Chez Dominique, que apesar do nome é um restaurante ultramoderno tocado por um chef que de francês não tem nada: Hans Välimäki.





Os pratos de meu menu degustação, de uma forma geral, eram mais bonitos do que gostosos, para minha surpresa. Dos vários amuse bouches, o mais bobinho era o fish and chips: um bolinho de bacalhau com um mísero palitinho de batata frita. Um amuse bem-resolvido era este abaixo: uma torradinha ondulosa com pó de vinagre.




O problema, acho, é quando se servem coisinhas minúsculas que sequer enchem a boca, e que por isso passam desapercebidas. Much ado about nothing, sabem? Este aqui abaixo era do tamanho de uma uva e no entanto continha inúmeros elementos. Cansativo....




O serviço era cheio de mesuras, irritante, até. As apresentações dos pratos, belíssimas - muitas vezes, servia-se a comida sobre pedras ao invés de porcelana. Pena que o sabor não correspondesse a tanto esforço. 

O Chez Dominique ocupa a 23a posição no ranking World's 50 Best Restaurants (hãn?!) Aposto que vai descer alguns pontos no ano que vem...

Dos highlights, o que mais me marcou foi a sobremesa belíssima que misturava elementos amarelos (feitos com um berry local da mesma cor) e negros (em forma de uma pincelada e mini suspirozinhos de licorice).


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No dia seguinte, almocei no Savoy, um lugar muito chique e tradicional na cobertura de um prédio.



Este, sim, me pareceu excelente, embora alguns pratos – como a beterraba com queijo de cabra e mel produzido ali mesmo – fossem totalmente déja vus.



Melhor era o arenque da Noruega com cubinhos de batata frita e de crouton de pão preto.


 Perfeitamente casado com uma cerveja da casa, orgânica, servida em lindo copo de design finlandês:



O ponto alto do almoço de cinco serviços foi o peixe (perch) servido com alho-poró, floretes de brócolis e couve-flor, uma brunoise microscópica de cenoura e um molho espumoso que lembrava uma beurre blanc, porém mais adocicado. Quase doce demais, aliás.




Além da ótima comida, outro ponto a favor do classudo Savoy é seu terraço coberto (verrière) cujas mesas, todas, têm belíssima vista para uma bela praça, torres e, mais ao fundo, uma nesga de mar.

Chez Dominique: Rikhardinkatu 4, tel. +358 (0) 9 612-7393, www.chezdominique.fi/home_cd2
Savoy: Etelaesplanadi 14, tel. +358 (0) 9 684-4020, www.royalravintolat.com

9.9.10

Noma: Time and Place in Nordic Cuisine, de René Redzepi, sai em outubro pela Phaidon


Chef René Redzepi na Finlândia

O difícil de ter um blog é ter vontade de contar tudo o que eu vejo, mas... não poder.

Não posso falar muito, por exemplo, do incrível banquete de encerramento do Cook it Raw, na última segunda-feira na Lapônia (norte da Finlândia). Afinal de contas, se eu falar estrago a surpresa: pretendo conseguir algumas das receitas para acompanhar a matéria sobre o evento, que irá sair na Prazeres da Mesa.

Mas algumas fofoquinhas de bastidores, como a curiosa história de como foi que eu consegui ler em primeira mão o livro novo do Noma, dá pra contar.

Aconteceu o seguinte, no último dia do Cook it Raw: os organizadores proibiram os jornalistas de passarem o dia na fazendinha onde os chefs estavam. Os chefs precisavam se concentrar, precisavam de paz e espaço e distância dos flashes e gravadores.

Mas..... como assim?! Quase morri de desapontamento. Pô, a parte mais legal! Os chefs em ação! A mise en place, as dúvidas de que caminho tomar com certa receita, acertadas a meio caminho; os brainstorms... não queria perder aquilo de modo algum.



Estava eu com um bando de gente em um reindeer killing (fazendeiros mostrando como se faz o abate de renas, bem surreal, deram um tiro de pistola na testa do bicho!).

E então eis que surge o Mattias, o food writer bacaníssimo de quem falei no último post e me diz: "pshhht! Alex! D'you want to come with me to see the chefs cooking?"

Óbvio que sim! Eu já estava farta das atividades em grupo e tinha muita pressa de achar um lugar quieto onde eu pudesse ler um certo livro....

Entramos quietinhos numa van e dez minutos depois... pimba! Chegamos na fazenda do banquete, praticamente ao mesmo tempo que os chefs. Alegria! Fiquei dando umas passeadas pelos fundos da cozinha, vendo os ingredientes, fazendo perguntas, cheirando isso, experimentando aquilo.

Vi e ouvi coisas interessantíssimas (aguardem a reportagem da Prazeres!).



Aí chegou uma hora que o Mattias resolveu ir embora e eu sobrei lá com os chefs. Um homão nórdico surgiu do nada e me disse: "Venha comigo, você deve estar cansada". Peguei minha tralha e segui os passos dele, até uma casona bem rústica a 50 passos da cozinha dos chefs. Era uma espécie de chalé de madeira, sem placa na porta. Entramos. Não havia viv'alma. Simpático salão alpino com lareira, piso e paredes revestidos de madeira clara, cortininhas rendadas.

Eu tinha ido dormir as 5h30 da manhã. Quase não me aguentava mais de pé. O homem disse apenas:

"Descanse quanto tempo quiser, temos camas, banheiros, tudo o que você precisar".

E foi embora.

Fui andando por um corredor que dava para vários quartinhos fofos, bem simples mas acolhedores. Deveria ser uma hospedaria, decerto.



Mas porque tão deserta? Ao final, uma salona de massagens com várias macas e toalhas e creminhos e um robe.

Escolhi um dos quartos. Tirei a roupa, vesti o robe da massagem. E aí tirei da mochila um tesouro que tinha descolado no dia anterior, com muito jeitinho: o número zero do livro novo do René Redzepi, chamado NOMA, Time and Place in Nordic Cuisine. Poder ler aquilo em primeira mão... que sorte! 



Esse livro, vocês vão ver, vai ser notícia no mundo todo, logo mais. Sai em outubro. Aquele na minha mochila era o exemplar pessoal do René que... ele emprestou pra mim! Essa seria minha única chance de lê-lo. Enfiei-me debaixo das cobertas e li.



E li.

E li mais, até o fim.

Que coisa incrível foi aquilo.

Chefs Claude Bosi (à esq.) e René Redzepi
rodeando meu chalé


Os prados finlandeses à minha volta, o chef René Redzepi passeando lá fora, colhendo ervas, preparando-se para o banquete... realmente jamais poderia haver melhor lugar ou hora para mergulhar no fantástico mundo do Noma. Ao virar as últimas páginas as pálpebras pesavam, e entreguei-me ao sono.

Acordei três horas mais tarde com o ruído de gente passando do lado de fora do chalé. Olhei pela janela e vi um entardecer absolutamente mágico e dourado, os azuis e os verdes encharcados de cor.



Temendo perder valiosas horas na cozinha dos chefs, levantei correndo, tomei um banho rápido e voltei ao trabalho, com o livro debaixo do braço (mas não sem antes fotografar umas páginas.....).

Meia hora depois, a Emilia Terragni, editora da Phaidon, me achou e pediu o livro de volta. Ufa! Ainda bem que eu tinha lido ele todo!

Naquele fim de tarde eu senti que meu anjo da guarda estava ao meu lado: um cenário saído de uma pintura de museu, os chefs perambulando soltos, longe da habitual "entourage", uma hospedaria inteira só pra mim, valiosas horas de paz e silêncio para ler o livro de cozinha mais aguardado do ano....


Life was good, very good.





E pra quem quiser saber mais sobre o livro NOMA, Time and Place in Nordic Cuisine.... infos tiradas do site da Phaidon:


  • An exclusive look at one of the most interesting restaurants in the world, Noma, and its influential head chef René Redzepi (b.1978)
  • Includes over 90 recipes, each created by Redzepi and served at Noma
  • Reveals the philosophy and processes behind the two-Michelin-starred Copenhagen restaurant
  • Details Redzepi’s reinvention of Nordic cuisine, his obsession with fresh and local produce from across Scandinavia, his continuous search for new ingredients and his never-ending experimentation
  • Over 200 specially commissioned photographs showing finished dishes, the local ingredients, the restaurant’s suppliers and the inspiring Nordic landscape
  • With an introduction by the artist Olafur Eliasson






Fechamento do El Bulli na revista Vanity Fair de outubro

“It reminds me of how I felt when I heard the Beatles were breaking up”, diz a matéria da Vanity Fair.

Amém, digo eu.

Link para o texto na íntegra no site Vanityfair.com. 

A matéria revela, entre outras coisas, o lançamento na semana que vem da biografia "Ferran: The Inside Story of El Bulli and the Man Who Reinvented Food", escrita por Colman Andrew.



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